quinta-feira, julho 24, 2003

Jorge Batista

Endurance
escultura ameaçada pela sua própria definição


Uruborus, a serpente que come a sua própria cauda é uma metáfora dos ciclos vitais da Natureza. Uma espécie de objectividade inelutável perante a qual a Cultura humana acaba por parecer uma ilusão risível, ou a tragédia caricata de Sísifo subindo a montanha com uma pedra às costas, que invariavelmente deixa cair e rolar até ao fundo da montanha, para logo voltar a recomeçar. Assim também Endurance parece desafiar este tipo de impossibilidade obrigatória: a escultura e a sua peanha/montanha tombam sob o peso da própria gravidade (gravidade cultural do momento implosivo que atravessa a chamada Arte Contemporânea?), no que não deixa de ser uma inteligente e belíssima citação dos mundos telúricos de Eisenstein e Tatlin. O Propano que alimenta o bico de gás vem do depósito sobre o qual incide a chama incandescente, ameaçando curto-circuitar o futuro imediato (e "histórico") da própria escultura. Não é tanto da impossibilidade representar, mas mais da impossibilidade de crer, que esta escultura nos fala (e fala bem).

Noutra obra, apresentada nesta exposição - Passo -, deparamo-nos com um vídeo em movimento perpétuo (loop), retomando noutro suporte a mesma ideia de retroacção (feed-back), de demonstração da ilusória epistemologia da realidade em movimento e de transformação de uma narrativa vital na fatalidade de Sísifo. Os desenhos e os re-desenhos transformam-se digitalmente em animação. Mas a animação perpétua das imagens, suprindo a falta da terceira dimensão, ou melhor, transformando o movimento numa fase nova e inesperada da terceira dimensão, acaba por fazer daquele vídeo uma escultura. Uma escultura igualmente instável, porque sobra por todo o lado uma verdadeira crise de fé.

Quinta, 24 de Julho, 22h: "Endurance" (escultura) + "Passo" (animação).
A escultura "Endurance" continuará exposta em Setembro.
Galeria Quadrum

OAM n.2
Quinta-feira, Julho 24, 2003

¶ 7:41 PM

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