segunda-feira, junho 20, 2011

Alea jacta est

Só a recessão nos pode salvar!
Os dados da escassez energética estão lançados, e os do colapso ambiental também.
Só uma profunda, prolongada e muito dolorosa recessão global poderá evitar o pior. Mas poderá?



Agência chinesa de rating baixa notação do Reino Unido, em Maio, de AA- para A+. Alguém ouviu falar disto?
Dagong Downgraded the Sovereign Credit Rating of United Kingdom

Dagong Global Credit Rating Co., Ltd. (hereinafter referred to as “Dagong”) has downgraded the local and foreign currency sovereign credit rating of the United Kingdom of Great Britain and Northern Ireland (hereinafter referred to as the “UK”) from AA- to A+ with a negative outlook for its solvency. The downgrade reflects the true status of the deteriorating debt repayment capability of the UK and the difficulty in improving its sovereign credit level in a moderately long term in the future — Dagon Global Credit Rating.

O consumismo ocidental foi uma fuga em frente destinada a criar os famosos mercados internos baseados no endividamento progressivo das sociedades do chamado bem-estar social. As indústrias fugiram, em geral, do Ocidente para o Oriente, ao longo das últimas quatro décadas, em busca de trabalho barato e de condições de exploração agressiva, por forma a compensar basicamente uma grande perda, que hoje se tornou irreversível, e cada vez mais evidente: a perda da energia fóssil barata.

As sociedades ocidentais, induzidas pela ideologia da gratificação instantânea plasmada no consumismo e no hedonismo generalizado acabaram por empobrecer paulatinamente, ainda que sem se darem propriamente conta do fenómeno. Só agora, com o colapso do gigantesco mercado da especulação financeira em volta do endividamento doméstico, empresarial e público, começamos a dar-nos conta da tragédia.

Os Estados Unidos estão à beira de novo colapso financeiro, tão ou mais sério do que os colapsos em curso no Reino Unido e na União Europeia. Basta somar as dívidas soberanas de todos estes países, e a respectivas dívidas externas, para vermos a dimensão do problema criado. Se as dívidas são, em si mesmas, difíceis de pagar, tapar o buraco negro nuclear formado pelos activos virtuais, activos reais mas em queda abrupta de valor, e contratos de derivados financeiros, com especial destaque para os especulativos e obscuros OTC, é uma missão impossível. Insistir em virar a cara a esta tragédia anunciada convocará inexoravelmente novos holocautos sociais, revoluções e guerras destinadas a provocar uma devastação imensa. Como aterrorizado confessa Jean-Paul Trichet ao especialista da CNN, Richard Quest: “Greece is part of bigger problem”.

China: European recovery crucial (China Daily)

BEIJING – China registered new concern Friday over the fate of its top trading partner, the embattled eurozone, saying the ability of stricken countries to overcome their financial woes is of "crucial importance."

China's support in terms of buying European debt and promoting imports is beneficial to both sides, Vice Foreign Minister Fu Ying told reporters at a briefing ahead of Premier Wen Jiabao's visit next week to Hungary, Britain and Germany.

But she expressed some anxiety over the fate of the eurozone. Greece is at risk of defaulting on its debt even after a massive bailout, and European leaders fear the country's problems could hurt other struggling economies that use the euro, including bailed-out Ireland and Portugal.

A China já percebeu que se não comprar parte significativa da dívida europeia (o que está fazendo desde que, em Novembro passado, Hu Jintao visitou Portugal e Espanha) ao mesmo tempo que se desfaz de consideráveis volumes de obrigações americanas, perderá o seu maior parceiro comercial. E sem este, ao mesmo tempo que as suas exportações para os EUA rendem cada vez menos, o crescimento chinês poderá entrar rapidamente em colapso, com tudo o que tal paragem significará para a estabilidade social e política desta potência emergente.

Japan Posts Second Biggest Trade Deficit In History (Zero Hedge)

For those who may not have noticed it, the headline says "deficit" and pertains to Japan: once upon a time a booming export economy. The reason: the ongoing collapse in export trade, after May exports dropped by 10.3% from a year ago, and just better than April severe economic contraction of 12.4%. Consensus was for an 8.4% decline. The net result was a monthly deficit of 853.7 billion yen, or $10.7 billion, the second biggest inverse surplus ever. And just like in Europe, where things are going to go from insolvent to perfectly solvent any minute now... just not yet... so in Japan the economic renaissance which will cause the economy to surge (unclear how: no new monetary stimulus, and the recently announced fiscal stimulus of Y500 billion in new loans will do precisely nothing to boost anything except for some corrupt bureaucrats Swiss bank accounts) is coming any minute.... just not yet.

O Japão tem a maior dívida pública do planeta: 225,8% do PIB! Mas até agora dizia-se que a coisa era suportável, porque o povo japonês continua a ser maioritariamente composto por uma espécie de servos da nova aristocracia tecnológica, e porque o país do Sol Nascente, além de boicotar ardilosamente qualquer importação de bens manufacturados fora do país, é o quarto exportador mundial, depois da União Europeia, China, Alemanha e Estados Unidos. O tsunami e sobretudo a tragédia nuclear de Fukushima, a par da recessão mundial e da desvalorização agressiva do dólar, e da manutenção da moeda chinesa muito abaixo do seu real valor, vieram colocar em risco o grande motor das exportações nipónicas.

Temos, em suma, demasiados países, e demasiadas potências nucleares endividadas, com populações envelhecidas e dominadas por bandos de gnomos e piratas incorrigíveis. Duvido que na Europa, Rússia e Japão haja suficiente gente nova para o cometimento de verdadeiras revoluções, ou mesmo guerras civis. Mas já não direi o mesmo relativamente ao continente americano, à África, ao Médio Oriente e a uma parte da Ásia (ver mapa). Sem uma gestão demográfica mundial inovadora e corajosa, espera-nos o pior.

A Grécia, se continuar pela via do protesto oportunista, acabará pior do que está. Portugal e Espanha, por sua vez, terão que fazer os impossíveis para evitar cair na armadilha da agitação social orquestrada a partir de Wall Street. Uma revolução de esquerda é praticamente impossível, pelas seguintes razões: não há programas credíveis; não existe uma base social de apoio coerente; e não há dinheiro. Logo, o que vemos são protestos compreensíveis, mas inconsequentes. Porém, se a Esquerda burocrática de Portugal e Espanha resolver apostar no quanto pior melhor, terá que arcar mais tarde com a responsabilidade ter ajudado a entregar o euro ao dólar! É isto que Francisco Louçã quer?

POST SCRIPTUM

Les océans «dans un état critique»
La vitesse de dégénérescence des mers est bien plus rapide que ce qui avait été prévu, concluent les spécialistes de six pays (Le Devoir.com, 21-06-2011)

Por paradoxal que seja, evitar um colapso ecológico à escala planetária já só depende da nossa ruína a curto prazo, e esta, por sua vez, acabará por resultar da confluência entre duas curvas catastróficas: a do Pico do Petróleo, e a da implosão económica mundial causada pelo buraco negro em que se transformou o mercado global de derivados financeiros. Se conseguíssemos escapar a esta tenaz, morreríamos como espécie, arrastando connosco uma extinção em massa da vida, nomeadamente à superfície dos oceanos e nos continentes, por via da destruição ecológica que o nosso crescimento como espécie representa para as outras espécies e para o fenómeno da vida em geral. A humanidade tornou-se uma espécie altamente tóxica, simultaneamente assassina e suicida. Convém pois relativizar a crise financeira em curso, evitando clubismos desnecessários. Não são as suas causas próximas que importa atacar, mas as suas causas sistémicas — e estas, não sei se teremos capacidade de realizar. A inércia é colossal!

3 comentários:

skeptikos disse...

O FMI, através de Lagarde, já está controlado pelos US e quanto à EU:
«Mas há um problema muito maior na Alemanha, que é a responsável estrutural desta crise. Depois de manter uma balança comercial excedentária gigantesca com o resto da Europa durante anos, obrigou os seus bancos a trocar Bonds periféricas por alemãs.
Como se isto não bastasse, no final ainda obrigou os países europeus em dificuldades a tomar medidas recessivas só para evitar os riscos de inflação que poderiam resultar de uma monetarização da dívida.

Começa a ser altura de pedir responsabilidade ao governo Alemão (e aos seus bancos e indústria) da mesma forma que este pediu aos países periféricos.» http://ur1.ca/4hezh

«Germany - not Greece - has 'destabilised the euro area and is one of the biggest road-blocks to its ultimate recovery.» http://www.telegraph.co.uk/finance/financialcrisis/8584064/Why-Germany-must-exit-the-euro.html#dsq-content

João Soares disse...

E partilhei! Realista, correcto e ecopacifista. Abraço

raisuna adimar disse...

ó senhor há 800 mil milhões de tones de betumes e de asphaltos só no canadá

e é por tudo a andar a gás qu'inda dura mais 300 anos

inércia é física

colossal é a dívida grega e o colosso de rodes