sábado, novembro 05, 2011

Bete comme un peintre, greedy as an architect?

De um lado temos a corrupção... e do outro alguma arquitectura... entre uma coisa e outra há um desvio colossal de inteligência e ética!

Estádio AXA, Sporting Clube de Braga, desenhado por Eduardo Souto de Moura. Foto©Wetete (mod.OAM)
O galardoado arquitecto português Eduardo Souto Moura vai conceber a central hidroeléctrica da barragem de Foz Tua, no Nordeste Transmontano, com o desafio de harmonizar a edificação com a paisagem do Douro Património da Humanidade. Diário de Notícias, 5/11/2011.

Os desgraçados dos bracarenses irão pagar durante décadas o estádio que alegremente encomendaram. Para já, desembolsam em impostos e taxas seis milhões de euros por ano pela "obra de arte", o suficiente para cuidar estrategicamente de uma cidade que degenera aos pedaços sob o peso de um cacique em quem uma minoria da população vota há décadas (apenas 21% das almas do município e 29% dos inscritos nos cadernos eleitorais votaram na criatura "socialista" em 2009).

Tal como a Parque Escolar escolheu a dedo projectistas e empresas de construção, sem cumprir nem a lei nem as regras da decência democrática, o mesmo acaba de ocorrer com a escolha, pela pública e tecnicamente falida EDP, do arquitecto Eduardo Souto de Moura, para desenhar os edifícios de um dos monumentais embustes herdados da era "socialista" que nos atirou para o buraco da bancarrota: a Barragem do Tua! 

Ninguém contesta os méritos artísticos do arquitecto, mas o mesmo não direi da sua desastrosa e manifesta falta de sentido de oportunidade e cidadania. Já para não suscitar a questão da inexistência de um concurso internacional para o efeito, que pelos vistos não impressionou o arquitecto que recomendou aos seus jovens colegas portugueses que emigrassem. Pudera!

A classificação patrimonial do Douro Vinhateiro irá à vida, com ou sem Prémio Pritzker, e em boa parte pela aliança recente e interessada da actual ministra da agricultura com os interesses da EDP e dos construtores de barragens inúteis e criminosas.

As barragens ruinosas projectadas não servem para coisa alguma, salvo mascarar a insolvência da EDP, tornada mais do que evidente pela decisão ontem divulgada de emitir obrigações a três anos no valor de 200 milhões de euros, cujo objectivo aparente é o de conseguir in extremis pagar o serviço da dívida da empresa este ano!

Em suma, responsabilidade social é coisa que alguns arquitectos não têm. Mas lá barriga não lhes falta!

act. 5/11/2011 18:24 

POST SCRIPTUM

Alguém me chamou a atenção para um facto extraordinário relativamente ao comportamento do nosso Nobel 2 da arquitectura. Pelos vistos, a criatura não se importa de criar mais uma extraordinária e caríssima "obra de de arte" destruindo previamente uma outra obra de arte (de engenharia e desenho) que serviu durante dezenas de anos populações inteiras e que, em bom rigor, deveria há muito ter sido classificada como património cultural do país — não fora estas atribuições dependerem sempre duns infelizes intelectuais burocratas, de CV sempre alçado em direcção a São Bento. À espera de promoção, claro!

act. 6/11/2011 16:53

7 comentários:

Anónimo disse...

Acompanho com interesse as suas ideias, no entanto este tema das barragens deixa-me interrogações: não serão importante barragens para agricultura e energia, numa altura em que o clima é caracterizado por eventos extremos (secas vs diluvios)? com as baragens é certo que será destruido habitat mas outro nascerá. Talvez algo me esteja a escapar...

O ANTONIO MARIA disse...

A energia que se obterá do novo Plano Nacional de Barragens é irrisória para o que custa e para os danos ambientais e turísticos que causará à região do Alto Douro Vinhateiro — classificado pela UNESCO como Património Mundial da Humanidade.

Segundo Joanaz de Melo, presidente da GEOTA, as novas barragens representarão no máximo 0,5% da energia bruta consumida no nosso país, 3% da procura de electricidade e 2% do potencial de poupança economicamente relevante. Mas vai custar mais de 16 mil milhões euros a um país em plena bancarrota, custo este suportado por subsídios estatais à chamada "garantia de potência" e aos investimentos privados realizados na energia eólica e solar, repercutindo-se num aumento de 10% da factura energética que pagamos todos os meses.

Segundo outro especialista o investimento, apurados todos os custos, terá mesmo uma rentabilidade negativa!

Finalmente, a incúria da gestão privada das albufeiras e a falta de disciplina no uso de pesticidas e adubos químicos, tem levado à crescente eutrofização das mesmas, i.e. à sua morte anunciada como reservas de água potável!

O ANTONIO MARIA disse...

1) o novo Plano Nacional de Barragens é um embuste cujo único objectivo foi criar activos virtuais para a EDP, Iberdrola e Endesa, abrindo-lhes assim mais espaço de manobra na captação de fundos de investimento numa bolha que já rebentou (a bolha energética mais ou menos verde);

2) o novo Plano Nacional de Barragens é uma das causas evidentes da bancarrota portuguesa;

3) as barragens projectadas, duas das quais já em obra (mas que podem e devem ser paradas, como há anos parámos Foz Coa!) são investimentos ruinosos, cuja rentabilidade é marginal, se não mesmo negativa;

4) a destruição de um dos poucos rios intactos do país (rio Sabor), a construção de um monstro hidráulico em pleno património protegido pela UNESCO, ou ameaça da destruição da cidade de Amarante se um sismo qualquer vier a destruir a projectada barragem de Fridão, são razões suficientes para travar e anular o que não posso deixar de considerar um plano púbico criminoso;

5) as reservas de água previstas são abrangidas por uma nova Lei da Água (aprovada tb pelo consulado pirata de Sócrates) altamente lesiva do interesse público, como ficou demonstrado pela corrupção e desvario gestionário que tomaram conta do INA e das Águas de Portugal.

6) as albufeiras estão em processo avançado de eutrofização, nomeadamente em resultado de administrações privadas (EDP, etc.), nada interessadas no bem público, mas apenas focadas no PSI20 e na especulação bolsista — causa, aliás, do sobre endividamento que ameaça arruinar em breve a senhora EDP (o seu passivo acumulado daria para mandar construir 17 pontes Vasco da Gama, e este ano ainda não sabe como vai pagar o serviço da sua descomunal dívida!)

joshua disse...

É uma pena que a imprensa main stream não venha beber aqui.

Abraço e parabéns pelo excelente trabalho.

O ANTONIO MARIA disse...

A imprensa main stream está de rastos! Há muito que não têm dinheiro para me pagarem convenientemente ;)

Anónimo disse...

Tem infelizmente tanta razão, por vezes acredito nas palavras de Lord Byron!
"Poor, paltry slaves ! yet born midst noblest scenes-Why, Nature, waste thy wonders on such men ?"

Antonio Maria a isto chama-se lobotomia colectiva, mas tome nota que nem todos os arquitectos são "greedy"!
G. Silva, arquitecto

O ANTONIO MARIA disse...

Obviamente! Se todos os arquitectos meus amigos não soubessem que eu sei o que muitos deles passam, e da nobreza de carácter dos que tenho por amigos, e do respeito e admiração que nutro pelas boas obras de arquitectura, e pela arquitectura que também cheguei a estudar, ficariam naturalmente zangados comigo. Mas eles, como V., sabem que me refiro apenas às barrigas demasiado inchadas de alguns arquitectos de discurso humilde. E sobretudo à corrupção que tudo contamina, incluindo obviamente a arquitectura nomeadamente portuguesa.