quinta-feira, março 25, 2010

Portugal 174

Uma oportunidade para a Eurolândia

Anything that is too big to fail is too big to exist (Simon Johnson).

Vou começar por atacar Cavaco Silva. Ao contrário do que poderíamos pensar, nas actuais circunstâncias, nem a queda do actual governo e um cenário de eleições antecipadas poderão reforçar o anjo caído em que se transformou a velha estrela do PSD. Entre ataques de pânico e uma espécie de máscara de optimismo sedado, as aparições do actual presidente da república tornaram-se um sintoma mais da crise de regime que se precipitou —como previmos— e se prolongará ao longo de toda a presente década.

Vamos precisar de reorganizar a sociedade de alto a baixo, e de fazer algum sangue para o conseguir. Cavaco Silva, espécie de rainha de Inglaterra sem paraísos fiscais, não está à altura de liderar o desafio de mudança que temos pela frente. Daí que a invectiva que a ele dirijo seja esta: anuncie quanto antes, antes do Verão —amanhã!— se pretende ou não recandidatar-se ao lugar onde até agora não fez o que de si qualquer português inteligente esperava: impedir o descalabro, sem precedentes nos últimos setenta e quatro anos, em que estamos. Se anunciar a recandidatura, opor-lhe-hei os meus melhores argumentos. Se desistir já, como deveria, aplaudirei. O que não é tolerável é que continue nessa atitude de obstipação intelectual oportunista, como se o pais fosse uma aldeia de parvos. Decida-se!

Portugal substitui Grécia nos pesadelos dos investidores

O euro cai mais de 1%, a Europa fechou em queda ligeira e Wall Street também protagoniza perdas. Tudo por causa de Portugal.

Portugal substituiu hoje a Grécia no ‘top' das preocupações dos investidores quando, por volta das 10 horas, a Fitch comunicou ao mercado que reduziu a classificação da dívida portuguesa para ‘AA-'. Foi o primeiro ‘downgrade' em 12 anos. — in Económico.

O PEC, em toda sua violência, é ao mesmo tempo a primeira e principal —porventura única— oportunidade que se nos depara para limpar o regime do lixo institucional, corporativo e cultural acumulado ao longo de trinta e cinco anos de democracia populista e corrupção político-partidária. Os partidos parlamentares vagueiam, como o governo vagueia, ao sabor das notícias, incapazes de pensar, de acertar uma ideia que seja, enfim de falar verdade. Vamos ter que os remexer!

A crise não é apenas portuguesa (1). Pois não! Mas a crise mundial da globalização precipitou (facto da maior importância) uma crise histórica portuguesa própria que larva desde a independência do Brasil. O que agora desaba com estrondo é um longo ciclo de 600 anos de colonialismo, é o vício autoritário da exploração permanente e sem remorso do próprio povo (nomeadamente através da recorrente válvula migratória), são nomenclaturas endogâmicas, indolentes e ignaras, é, em suma, a hipertrofia burocrática de um Estado bronco. É por isto tudo que, ao contrário do que afirma o optimista moderado Luís Campos e Cunha, estamos mesmo falidos! E fodidos também!!

Vamos todos, menos os banqueiros e o bando de piratas que nos governa, apertar o cinto. É uma realidade que nenhum debate parlamentar, nem nenhum sindicalista obtuso, conseguirá travar. Mas ao contrário do que se alardeia, os portugueses estão preparados para o saque, até porque sentem ter também alguma culpa no cartório, quanto mais não seja, pela circunstância de terem aproveitado sem crítica a abundância inusitada de dinheiro forte e crédito quase ilimitado e a custo desprezível que lhes foi sendo oferecido após a entrada no euro. Mas atenção: depois de consumada a sangria de vampiros que se prepara contra os bolsos contribuintes, o país nunca mais será o mesmo. E mais de um político estouvado, manhoso ou corrupto, acreditem, será engolido pela enxurrada que nascerá do colapso fiscal em curso.

Precisamos, como de pão para boca, de deixar renascer a iniciativa privada produtiva e a criatividade. Temos que corrigir o Estado —tornando-o forte, fiável e transparente onde é preciso que esteja (energia, água, saúde, supervisão financeira e justiça), aliviando-o ao mesmo tempo dos sectores onde está a mais. É, por outro lado, fundamental quebrarmos a santa e corrupta aliança entre os aristocratas financeiros, os governantes de turno e os prostitutos que medram nos apartamentos clandestinos a que chamam gabinetes de estudo.

The Quiet Coup
May 2009 ATLANTIC MAGAZINE
By Simon Johnson

The crash has laid bare many unpleasant truths about the United States. One of the most alarming, says a former chief economist of the International Monetary Fund, is that the finance industry has effectively captured our government—a state of affairs that more typically describes emerging markets, and is at the center of many emerging-market crises. If the IMF’s staff could speak freely about the U.S., it would tell us what it tells all countries in this situation: recovery will fail unless we break the financial oligarchy that is blocking essential reform. And if we are to prevent a true depression, we’re running out of time.

...

Cleaning up the megabanks will be complex. And it will be expensive for the taxpayer; according to the latest IMF numbers, the cleanup of the banking system would probably cost close to $1.5 trillion (or 10 percent of our GDP) in the long term. But only decisive government action—exposing the full extent of the financial rot and restoring some set of banks to publicly verifiable health—can cure the financial sector as a whole.

This may seem like strong medicine. But in fact, while necessary, it is insufficient. The second problem the U.S. faces—the power of the oligarchy—is just as important as the immediate crisis of lending. And the advice from the IMF on this front would again be simple: break the oligarchy.

...

The conventional wisdom among the elite is still that the current slump “cannot be as bad as the Great Depression.” This view is wrong. What we face now could, in fact, be worse than the Great Depression—because the world is now so much more interconnected and because the banking sector is now so big. We face a synchronized downturn in almost all countries, a weakening of confidence among individuals and firms, and major problems for government finances. If our leadership wakes up to the potential consequences, we may yet see dramatic action on the banking system and a breaking of the old elite. Let us hope it is not then too late. 

Vale a pena ler todo este clarificador testemunho sobre a perversão financeira que tomou de assalto a economia capitalista mundial, à excepção, claro, da China. O que hoje estamos a assistir nos Estados Unidos e na Europa é à escandalosa tentativa de especular com as dívidas soberanas por parte dos mesmíssimos especuladores, da mesmíssima estirpe de Wall Street —Goldman Sachs, JP Morgan e afins— que engendrou a economia de casino dos últimos trinta anos, parindo a ilusão de que as empresas, os estados e as famílias podiam endividar-se à mesa de um interminável banquete. Percebemos agora aquilo que no fundo já sabíamos: não há almoços grátis!

É por isso que uma amiga minha canadiana, que o meu país não soube acolher como devia, me aconselhava: não se deixem enredar nos mecanismos perversos da inveja (se os pilotos da TAP ganham muito ou não, se os automóveis adquiridos pela Assembleia da República são de luxo ou não, etc.) O importante é atacar a rede que a aristocracia financeira lançou sobre a sociedade portuguesa no seu conjunto, auxiliada pelos lacaios político-partidários, com o objectivo de controlar de forma sanguínea todo o tecido produtivo, social e cultural do país. É esta aliança fatal que tem que ser rompida! E para isso haverá que expor publicamente os neoliberais caninos que falam indistintamente em nome do socialismo e da democracia. E haverá que reunir os profissionais sérios deste país, estejam onde estiverem, em nome de uma verdadeira restauração do regime democrático, onde a ética da transparência, da responsabilidade pública e da liberdade criativa substituam a canga autoritária do estalinismo capitalista dominante, a cobardia burocrática e a subsidio-dependência.

As administrações políticas e incompetentes da NAER, da Refer, da TAP, da CP, do Metro de Lisboa, etc., devem ser substituídas por gente séria, independente e liberta de imposições político-partidárias. As SCUT e as corrompidas parcerias público privadas devem pura e simplesmente acabar. O Serviço Nacional de Saúde deve ser mantido como um direito universal e gratuito ("tendencialmente" gratuito é um sofisma), assegurando-se ao mesmo tempo a eficiência e responsabilidade económica de todos e cada um dos seus sectores económicos e profissionais nele envolvidos (2). Os bancos têm que pagar impostos e ser vigiados, não apenas pelos governos nacionais, mas também pelo BCE e por um Fundo Monetário Europeu a criar. Têm que ser implementadas regras exigentes no domínio do tráfico de influências e das incompatibilidade deontológicas. Os cidadãos têm direito de exigir do Estado um banco público que não funcione como saco azul dos partidos no governo, nem se envolva em manobras de gangues político-financeiros, nem muito menos comprometa o dinheiro dos contribuintes e dos depositantes, em operações com produtos financeiros especulativos ou mesmo fraudulentos. Ou seja, temos que exigir a refundação da Caixa Geral de Depósitos nos termos da sua vocação original. Ao mesmo tempo, os portugueses deverão poder promover a constituição de novas cooperativas independentes de depósitos isentos de IRS e IRC, com o objectivo público bem delimitado de fazer regressar a poupança ao país.

Há toda uma agenda nova para discutir. Sobretudo depois da cimeira europeia deste fim-de-semana, de onde se espera que saia algum fumo vermelho capaz de sustar a ofensiva anglo-americana contra o euro (3), bem como a criação de uma instância de coordenação económica efectiva da zona euro. A janela de oportunidade da União Europeia pode encerrar temporariamente para obras. Mas isso significaria o colapso instantâneo da Grécia, e atrás de semelhante desastre seguir-se-iam inevitavelmente Portugal e Espanha.

Gaps in the eurozone 'football league'

By Wolfgang Münchau from the Financial Times
March 21 2010

At last we are heading towards a resolution, albeit a bad one. After weeks of pledges of political and financial support, Angela Merkel appears ready to send Greece crawling to the International Monetary Fund.

Germany cites legal reasons for its position. In past rulings, its constitutional court has interpreted the stability clauses in European law in the strictest possible sense. These rulings have left a deep impression among government officials. It is hard to say whether this argument is for real or is just an excuse not to sanction a bail-out that would be politically unpopular. It is probably a combination of the two.

I have heard suggestions that a deal may still be possible at this week's European summit, but only if everybody were to agree to Germany's gruesome agenda to reform the stability pact. That would have to include stricter rules and the dreaded exit clause, under which a country could be forced to leave the eurozone against its will. I am not holding my breath.

But either outcome will mark the beginning of the end of Europe's economic and monetary union as we know it. This is the true historical significance of Ms Merkel's decision.

While Greece faces the most acute difficulties, it is not the only member in trouble. There are at least four - Greece, Spain, Portugal and Ireland - that are probably not in a position to maintain a monetary union with Germany under current policies indefinitely. There may be several more, where the problems are not yet quite so evident. In the presence of extreme current account imbalances and a lack of bail-out or fiscal redistribution mechanisms, a monetary union among such a diverse group of countries is probably not sustainable.

A crise financeira actual decorre do rebentamento consecutivo de pelo menos quatro bolhas especulativas: a primeira delas, e a mais importante, resultou da especulação cambial promovida pelo Japão ao longo de décadas com vista a financiar as suas exportações (o chamado Yen Carry Trade), na senda da qual se montou a grande bolha imobiliária das hipotecas Subprime. Por sua vez a Goldman Sachs, com o objectivo de ultrapassar o crescimento medíocre das economias ocidentais, inventou um conjunto de produtos financeiros opacos destinados a escalar de forma piramidal o endividamento das pessoas, empresas e governos muito para além do imaginável, criando-se assim o maior buraco negro financeiro de sempre, conhecido por mercado de derivados financeiros (ou derivatives) cujo valor nocional de 684 biliões de USD (em Junho de 2008) corresponde a qualquer coisa como 10x o PIB mundial. Para este buraco se precipitaram bancos, fortunas pessoais, milhões de casas hipotecadas cujas hipotecas foram executadas pelos bancos, e agora estados inteiros, como a Islândia, e quem sabe, dentro em breve, a Irlanda, a Grécia, Espanha e Portugal. Mas os grandes colapsos que gigantescas forças tectónicas neste momento abalam ocorrerá muito provavelmente em Inglaterra e nos Estados Unidos da América. A Grécia e Portugal podem não passar, efectivamente, de manobras de diversão!

E aqui chegados volto uma vez mais a insistir no fundamental: tudo isto é resultado de uma mudança tectónica do principal eixo do poder estratégico mundial, o qual vem sofrendo uma irremediável deslocação do Ocidente para o Oriente.

In April 2009 China became Brazil’s largest trading partner, a position which, for centuries, has correctly anticipated major scissions in world leadership. Since, two hundred years ago, the United Kingdom brought an end to three centuries of Portuguese hegemony, it is only the second occasion that this has happened (the United States indeed replaced the United Kingdom at the beginning of the 1930’s as Brazil’s major trading partner) — in GEAB Nº43.

Depois do fracasso da Cimeira de Copenhaga, onde a Europa e os Estados Unidos tentaram meter todo o mundo e em particular os países emergentes dentro de uma bolha verde especulativa —manobra que foi expeditamente impedida pela China, Brasil e  Índia— era inevitável assistirmos ao rebentamento da bolha especulativa das chamadas dívidas soberanas. Tal como os cidadãos empobrecidos compraram casas sem terem condições para tal, também largas dezenas de governos em todo o mundo se entretiveram numa competição de obras públicas mais ou menos faraónicas, que agora têm que pagar, mas não podem... pois a pirâmide especulativa dos empréstimos em cadeia quebrou. Quem deve ir preso? Muita gente!

The China Brazil food bridge
By Marcos Fava Neves (chinadaily.com.cn)
Updated: 2009-08-31 18:12

Brazil has become much more important to China in the last 10 years. The flows of trade between China and Latin American countries rose from US$10 billion in 2000 to US$140 billion in 2008. Fifteen percent of Brazil's exports goes to China in 2009, up from eight percent just a year ago.

… In the coming years Brazil has an opportunity to be the most important partner to supply food and biofuels. Soybeans exports from Brazil to China grew 27 percent in 2009 from a year ago.

Na China 7% da terra arável do planeta alimenta parcialmente 22% da população mundial, com todos os graves inconvenientes que desta desproporção insustentável resultam, nomeadamente no que respeita a dois fenómenos que preocupam em extremo os chineses: a contaminação ambiental por via das quantidades astronómicas de adubos utilizados, e a desertificação provocada pelo pastoreio intensivo que levou já ao avanço catastrófico do deserto de Gobi sobre a região de Pequim. Percebe-se, pois, o valor estratégico de países como o Brasil (o maior produtor potencial de alimentos do planeta), mas também do Médio Oriente (Arábia Saudita, Iraque e Irão) e África (nomeadamente o corredor entre Angola e Moçambique) para o abastecimento de energia, matérias primas e alimentos.

Enquanto os países ocidentais têm sobretudo que regressar à economia real, destruindo sem hesitação a letal aristocracia financeira que os colocou no aperto em que estão, a China e o Brasil, acompanhados pela OPEP, têm um problema bem mais interessante pela frente: começar a dar as cartas do novo jogo de estratégia mundial.


POST SCRIPTUM

Um leitor atento e crítico deste blogue chamou a minha atenção para o crony capitalism (uma espécie de capitalismo tradicional entre nós, essencialmente baseado nas relações familiares —endogamia—, na cunha e na opacidade burocrática dos processos de gestão). Este é um problema geral do capitalismo tardio, nomeadamente na área financeira, onde se reúnem hoje os aristocratas do estalinismo capitalista que desde 1974 predomina no Ocidente (Wall Street, Clube Bielderberg, G7, Reserva Federal, Goldman Sachs, J.P. Morgan, etc.) Na realidade, temos dois problemas por atacar: o do capitalismo endogâmico, que ameaça destruir suavemente as democracias ocidentais, sob o manto protector de regimes parlamentares populistas; e o da captura do capitalismo produtivo e da liberdade criativa pela mancha corrupta e insaciável do capitalismo financeiro fraudulento, assente em modelos Ponzi de especulação e roubo, complexos e de difícil detecção, solidamente protegidos pela meia centena de paraísos fiscais na posse, entre outros, da rainha de Inglaterra. Esta espécie de tenaz é hoje o principal inimigo da liberdade e a mais poderosa ameaça à sustentabilidade das sociedades humanas. O buraco negro dos chamados derivados financeiros é o resultado tenebroso desta forma decadente de capitalismo. Se a não travarmos agora poderemos caminhar rapidamente para o colapso geral das sociedades, à semelhança do qe ocorreu na ilha da Páscoa (ler a propósito o excepcional livro de Jared Diamond, Collapse).

Há, porém, outro problema igualmente geral, do qual somos todos —pelo menos no mundo Ocidental— parcialmente responsáveis, chamado consumismo. A receita keynesiana para resolver o problema social resultante do aumento da produtividade humana (que induz a queda tendencial da taxa de lucro, a inflação, o desemprego, as crises de sobre-produção, a deterioração dos termos de troca mundial, favorecendo a exportação da economia real para os países de mão-de-obra barata, e os colapsos financeiros resultantes da especulação nos mercados) falhou. Expandir o consumo interno das sociedades levou-nos a uma crise de recursos e ambiental sem precedentes!

A minha amiga canadiana, que deu origem a este escrito, recomendou-me a leitura de um economista americano de origem norueguesa e do século 19, que muito antes da crise de 29 (aliás viria a morrer nesse ano) denunciou os perigos do que ele chamou o consumo conspícuo. Esse economista foi Thortein Veblen, e o seu mais famoso livro —Theory of the Leisure Class (1899)— deveria ser efectivamente relido por quem tencionar escrever um verdadeiro programa para a saída da presente crise do capitalismo ocidental.



NOTAS

  1. Has Germany just killed the dream of a European superstate? 

    By Ambrose Evans-Pritchard from the Telegraph

    A Greek default would alone be twice the size of the combined defaults by Argentina and Russia. Contagion across Club Med would instantly set off a second banking crisis.



    So, it is not enough for the EU to impose a fiscal squeeze of 10pc of GDP on Greece, 8pc on Spain, and 6pc on Portugal, and 5pc on France over three years, we need a dose of 1930s monetary policy as well to make sure life is Hell for everybody.

    Be that as it may, Greece's George Papandreou says his country is in the worst of both worlds, suffering IMF-style austerity without receiving IMF money - which comes cheap at around 3.25pc. So why allow his country to be used as a "guinea pig" - as he put it - by EU factions pursuing conflicting agendas?

    The IMF option has its limits too. The maximum ever lent by the Fund is 12 times quota, or €15bn for Greece, not enough to nurse the country through to June. The standard IMF cure of devaluation is blocked by euro membership. So Greece will have to sweat it out with a public debt spiralling to 135pc of GDP next year, stuck in slump with no exit route.

    The deeper truth that few care to face is that under the current EMU structure Berlin will have to do for Greece and Club Med what it has done for East Germany, pay vast subsidies for decades. Events of the last week have made it clear that no such money will ever be forthcoming.

    Let me be clear. I do not blame Greece, Ireland, Italy, or Spain for what has happened. No central bank could have tried more heroically than the Banco d'España to counter the effects of negative real interest rates, but the macro-policy error of monetary union washed over its efforts.

    Nor do I blame Germany, which generously agreed to give up the D-Mark to keep the political peace. It was the price that France demanded in exchange for tolerating reunification after the Berlin Wall came down.

    I blame the EU elites that charged ahead with this project for the wrong reasons - some cynically, mostly out of Hegelian absolutism - ignoring the economic anthropology of Europe and the rules of basic common sense. They must answer for a depression.

  2. Não deixa de ser uma ironia que no preciso momento em que Barack Obama consegue fazer aprovar a implementação do Serviço Nacional de Saúde nos Estados Unidos, em Portugal, a turma de piratas e oportunistas capitaneada pelo "socialista" José Sócrates continue alegremente a destruir o SNS criado pelo próprio PS quando ainda havia socialistas na sua direcção.

  3. ... a global monetary war has started, with Washington and London trying to defend their currencies against the new kids on the block such as the Euro and the Yuan.

    … in the coming years the Eurozone needs to create a kind of 'Rapid Financial Deployment Force', such as a European Monetary Fund, dedicated to the sole Eurozone interests. One reason being that the Eurozone can no longer trust the IMF (in Washington's hands) to respect its own interests rather than those of the Dollar. — in Eurozone needs a Economic Governance: Let's transform the Greek tragedy into the first Eurozone epic, by Franck Biancheri, Marianne Ranke-Cormier, Veronique Swinkels, Margit Reiser-Schob Newropeans.

OAM 674—25 Mar 2010 1:39

domingo, março 21, 2010

Eurocidades

Que falta para a eurocidade do Caia? O TGV?


Ver Eurocidade do Caia num mapa maior


El estudio del tramo Badajoz-Portugal del AVE sitúa la estación en suelo extremeño

La estación internacional que incluye la línea del AVE Madrid-Lisboa en la frontera lusa estará en suelo extremeño. Será así de aprobarse el estudio informativo del tramo Badajoz-Frontera Portuguesa, que se encuentra ya en exposición pública, y que incluye la propuesta de una estación internacional junto a la frontera portuguesa, en suelo español.

En el estudio informativo se concreta que la estación internacional, que también dará servicio a Badajoz y su comarca, "se propone esté situada junto a la frontera portuguesa (río Caia)", contemplándose "una conexión con el lado portugués, que podría materializarse con la ubicación al otro lado de la frontera de algunas instalaciones, como un aparcamiento, enlazadas mediante una pasarela de conexión". — El Periodico de Extremadura (18-12-2008)

 A União Europeia atravessa neste momento uma prova de fogo por causa das profundas assimetrias de desenvolvimento entre os estados e regiões que a compõem, e ainda por causa da tremenda crise de endividamento empresarial, público e familiar que acabou por desembocar num colapso sistémico do Capitalismo à escala global, o qual vem sacudindo com mais veemência as economias viciadas no consumo e nas importações baratas, afectando menos as que vivem sobretudo da produção e da exportação de produtos. Há, por mais incrível que pareça, a possibilidade de países como a Grécia, Espanha e Portugal serem postos fora do euro, ainda que parcialmente e por um período limitado de tempo! Tudo vai depender da capacidade da Alemanha poder suportar os custos colossais do saneamento financeiro da União Europeia.

Enquanto as crises financeiras dos PIIGS afligem a Alemanha pelo seu potencial desestabilizador relativamente ao euro, há outros países bem maiores, em situações financeiras bem piores, e cujas ameaças à tranquilidade mundial são bem mais preocupantes. Refiro-me naturalmente ao Japão, aos Estados Unidos e ao Reino Unido.

Numa palavra: o programa de transportes ferroviários de alta velocidade na península ibérica vai ter que abrandar necessariamente a sua marcha. Os futuros AVEs, LAVs, ou TGVs, vão ter que correr a velocidades inferiores às anunciadas, baixando as velocidades de ponta dos 350Km para 300Km/h, e apontando para velocidades médias na ordem dos 250Km — pois só assim poderão controlar os custos exponenciais associados à velocidade, seja na concepção-construção das infraestruturas e material circulante, seja na caríssima manutenção deste tipo de transporte. Por outro lado, o endividamento excessivo dos governos, das empresas e das famílias, associado a um desemprego estrutural e conjuntural sem precedentes, conduzirá necessariamente a um abrandamento das actividades económicas e de diversão, a uma vigilância mais apertada dos custos escondidos dos bens públicos e de consumo (até agora subsidiados sem limites, sem transparência e sem controlo), e à consequente análise mais criteriosa do custo-benefício dos grande investimentos públicos. Os Estados europeus vão deixar de estar autorizados a parir elefantes brancos invendáveis (nomeadamente quando os ditos acabam por ir parar aos leilões das privatizações!) Como já é patente, a rede de alta velocidade ferroviária em toda a península ibérica começou a diferir datas e a travar alguns dos investimentos, lançando uma neblina de indefinição (ver mapa) sobre o optimismo oficial dos governantes do PSOE e do PS.

Mesmo a ligação Madrid-Lisboa, cujo interesse estratégico para ambos os países é óbvia, parece estar envolta numa bruma cada vez mais densa de indefinições. Onde estão os projectos de execução? E os prazos reais? 2013, 2014, 2015? Quando será, alguém sabe de ciência certa? Duvido!

Por outro lado, basta olhar para o mapa de realizações e projecções da Alta Velocidad Ferroviaria Española publicado na Wikipédia, para se perceber que as ligações entre Aveiro e Vilar Formoso, e entre Porto e Vigo, caso fossem realizadas nos prazos outrora anunciados, de nada serviriam pois nem Vigo tem previsão fiável para a sua ligação a Orense, Zamora (para chegar a Madrid ou Irún), nem há qualquer previsão para a conclusão da ligação entre Salamanca e Ávila (para chegar a Madrid) ou Valladolid (para chegar a Irún). Ou seja, para já, a prioridade da Moncloa é apenas uma: chegar a Lisboa e ao porto de Sines o mais depressa possível. O resto logo se vê.

Mais cedo ou mais tarde haverá uma nova rede ferroviária ibérica em bitola europeia. O mais importante, salvo nas ligações entre as principais cidades, não é a alta velocidade, mas a adequação das linhas (isto é a bitola das vias) e sistemas de apoio ao transporte de pessoas e mercadorias. O importante é construir uma rede apertada de mobilidade ferroviária que sirva pessoas e empresas, alimentada com energia eléctrica (e não diesel!) O contrário, portanto, do que os corruptos governantes portugueses têm congeminado a este propósito, nomeadamente para continuar a alimentar uma incompetente clientela de especuladores e candidatos a monopólios privados, incapazes de correr em mar aberto.

Em 2013, 2014 ou 2015 haverá um transiberiano a ligar Barcelona, Saragoça, Valência, Córdova, Sevilha e Madrid a Lisboa, e no sentido inverso, Lisboa a Madrid, Sevilha, Córdova, Saragoça, Valência e Barcelona, entre outros grandes e pequenos destinos ibéricos. Nestas ligações haverá, no entanto, uma única estação internacional, e não será em nenhuma das grandes cidades, mas na fronteira entre Portugal e Espanha, mais perto de Badajoz do que de Elvas, mais precisamente no Caia.

Por um entendimento que não entendo, ou por má negociação da parte portuguesa, a estação do Caia encontra-se apenas do lado espanhol, quando deveria estar literalmente encavalitada na fronteira do Caia, e além do mais, servida por metro de superfície ligando em rede Badajoz, Elvas, Campo Maior, Olivença e Talavera la Real. É preciso ambição, pensar em grande, se quisermos obter resultados que se vejam. Neste caso, lançar a primeira verdadeira eurocidade ibérica!

E é por isso que proponho a deslocação da estação do Transibéria (nome unificado que proponho para o AVE/LAV/TGV) 500 ou 600 metros para Ocidente, por forma a termos uma estação de comboios verdadeiramente internacional, onde cesse por tratado a fronteira entre Portugal e Espanha, havendo em seu lugar um território bi-nacional, bilingue, com a mesma moeda, mas também com a mesma fiscalidade e uniformidade competitiva de preços. Se soubermos resolver a esta escala todos os problemas jurídicos, económico-financeiros, políticos e culturais que naturalmente se colocam, teremos resolvido o problema teórico-prático da criação de uma eurocidade alargada, envolvendo uma comunidade de municípios, onde desde logo estariam incluídas Elvas, Badajoz, Campo Maior, Olivença e Talavera la Real. O nome dessa cidade nova? Caia!

Tenho falado com bons amigos de Elvas e de Badajoz sobre estes temas. É para todos nós claro que a futura estação do transiberiano no Caia, associada à plataforma logística que ali será igualmente instalada, e ao requalificado aeroporto de Badajoz (em Talavera la Real) compõem um mosaico de desenvolvimento a meio caminho de Lisboa, Madrid e Sevilha, com um enorme potencial.

Mas para que esta rêverie se torne realidade teremos que atacar de frente os fantasmas da iberização, nomeadamente aqueles que assustam Portugal — isto é, a iberização como Cavalo de Tróia do sonho de uma grande Espanha com capital em Madrid. Oitocentos e sessenta e sete anos de história portuguesa demonstram à saciedade que esse será sempre um pesadelo sem futuro. Madrid e Castela terão o seu acesso ao Atlântico, por cortesia de Portugal e interesse mútuo. O futuro da Europa passa e passará mais do que se pensa pelo Atlântico, e por isso passa e passará mais do que se pensa pelo renascimento das velhas potências atlânticas, ainda que desta vez para conter e negociar com novos actores mundiais, com que nos damos, aliás, há séculos!


OAM 673—21 Mar 2010 21:00

sexta-feira, março 19, 2010

Portugal 173

Depois dos PECs



Ou fazemos da cura de emagrecimento que aí vem uma oportunidade de saneamento e correcção da nossa maneira de trabalhar, imaginar e conviver, ou não faltarão tumultos e aflição por toda a parte.

Barroso: ‘No country can be expelled from euro zone’

19 March 2010 - In an interview to be broadcast ahead of an EU summit next week, European Commission President José Manuel Barroso says expelling a country from the euro zone, as suggested by German Chancellor Merkel, would be against EU treaty rules. — in EurActiv.

A Eurolândia tem uma moeda forte. Chama-se Euro. Esta nova e revolucionária divisa financeira de sucesso —a primeira das futuras moedas regionais em germinação (haverá uma moeda asiática, e outra pan-americana, pelo menos)— é, por enquanto, um euro-marco, quer dizer, uma moeda cuja robustez depende sobretudo das exportações e da saúde económico-financeira da Alemanha.

Apesar da locomotiva industrial e técnico-científica alemã continuar a precisar de estabelecer o seu "espaço vital" (Lebensraum) a Leste, a verdade é que duas devastadoras e horríveis guerras mundiais com origem na Alemanha convenceram aquele país e o continente (o reino inglês ainda não aprendeu) a optar por uma via pacífica em direcção a uma espécie de Estados Unidos da Europa. Sendo a Alemanha quem mais perderá com uma sempre possível implosão do espaço vital alargado que é a União Europeia actualmente em construção, Berlim, ou melhor Frankfurt, decidiu abrir os cordões à bolsa para financiar os mais atrasados, de Dresden a Lisboa, passando por Atenas e Madrid. O preço foi gigantesco e pesa hoje de forma visível na degradação material do estilo de vida alemão, a começar pelas cicatrizes urbanas que não param de aumentar. Pior: boa parte da poupança europeia esvaiu-se, ao longo dos últimos vinte anos, no consumismo hedonista, no narcisismo burocrático e na corrupção. A crise aguda das chamadas dívidas soberanas em países como a Islândia, Irlanda, Grécia, Portugal, Itália e Espanha, não atingiu ainda a sua fase realmente crítica. Alguns analistas falam de Junho e em todo o caso deste próximo Verão como uma prova de fogo. Veremos até lá se os PIIGs ficam ou saem da Eurolândia!

É por isto que a chanceler Angela Merckel tem vindo a dar sinais sucessivos da sua preocupação perante a leviandade com que os políticos corruptos ou simplesmente irresponsáveis de Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha parecem querer prosseguir com os banquetes orçamentais. A Alemanha tem ela própria sérios problemas económico-financeiros e sociais, tal como a França e o Reino Unido. A situação é explosiva. E o que ninguém quer é que a Grécia ou Portugal, ou sobretudo a Espanha, se transformem de repente nas cavilhas soltas de uma bomba-relógio. O endividamento público e privado que o Ocidente democrático e rico deixou crescer no meio do seu frenético consumismo está mesmo prestes a rebentar!

German Politicians Want Greece to Sell Islands, Bild Reports

 March 4 (Bloomberg) -- German politicians say Greece must sell property, companies and uninhabited islands to raise money for debt payments, the newspaper Bild  reported.

“A bankrupt party must use everything he has to make money and serve his creditors,” said Josef Schlarmann, a member of Chancellor Angela Merkel’s Christian Democratic Union, who heads a lobby representing 40,000 business owners and managers allied to the party. “Greece owns buildings, companies and several uninhabited islands, which can now be used to repay debt.”

Greece must “radically part with company shares and also sell property, for example uninhabited islands,” said Frank Schaeffler, financial expert of Germany’s Free Democratic Party.

Mas o problema dos PIIGS é ainda mais sério no Reino Unido, no Japão ou sobretudo nos Estados Unidos.

Taking On China, by Paul Krugman

March 14, 2010 — Tensions are rising over Chinese economic policy, and rightly so: China’s policy of keeping its currency, the renminbi, undervalued has become a significant drag on global economic recovery. Something must be done.

To give you a sense of the problem: Widespread complaints that China was manipulating its currency — selling renminbi and buying foreign currencies, so as to keep the renminbi weak and China’s exports artificially competitive — began around 2003. At that point China was adding about $10 billion a month to its reserves, and in 2003 it ran an overall surplus on its current account — a broad measure of the trade balance — of $46 billion. — in New York Times.

Talvez por isso os economistas ocidentais, mesmo os mais prestigiados, procurem bodes expiatórios. Erram, porém, o alvo! Quem transformou a economia mundial num gigantesco casino Dona Branca não foram os chineses, mas sim os americanos, ingleses e japoneses, arrastando para esta pirâmide Ponzi boa parte da economia mundial, e certamente todos os especuladores financeiros deste mundo.

US Wants ONLY China To Stop Using FOREX Holdings As Currency Tool, by Elaine Meinel Supkis.

For years and years, I have pointed out the dangers of JAPAN doing this.  Japan invented doing this as a means for keeping the value of the yen cheap so they could infiltrate and destroy US native industries while keeping the US locked nearly totally out of Japan’s domestic markets.  The US struggled for years to force Japan to raise the value of the yen but once Japan began its ZIRP lending coupled with an immense FOREX hoard, all attempts at making the yen ceased.

This was wrecked by China in August, 2007.  After Japan joined the US and EU in demanding China cease holding US dollars and euros, China snapped back that Japan was doing this, how dare they order China to stop doing what Japan was doing!  Japan then sneered at China, saying, ‘We can do whatever we want because we are allies of NATO countries, HAHAHA.’  China then retaliated by forcing the Japanese to pay China in yen, not dollars.  Then, China began hoarding yen and this drove up the value of the yen against the dollar and this killed the Japanese carry trade which caused all that free ZIRP Japanese credit to suddenly vanish and this is the true trigger of the banking collapse, not US homeowners defaulting on loans. - in Culture of Life News.

Apesar da crise de fundo —que deriva da exportação continuada da capacidade produtiva dos países outrora ricos do Ocidente para a China e outros países de mão de obra e moeda baratas— os países endividados, em vez de arrepiarem caminho pelo único lado possível —que é o do regresso à produção de coisas úteis, da eficiência energética, da penalização dos consumos não essenciais, da eliminação do pseudo-emprego e da moralização do serviço público e da política— prosseguem alegremente no caminho da estalinização do Capitalismo especulativo, da manutenção e reforço dum funcionalismo público desorganizado e hipertrofiado, e na especulação desenfreada, desta vez com as dívidas soberanas dos povos!

Para isto especulam com as moedas nesse casino super aquecido chamado FOREX.

A última colocação de dívida pública portuguesa (soberana) a um ano, no mercado especulativo mundial, pagará uma taxa de juro de 1,73%. Mas a taxa directora actual do BCE é de 1%, e poderá baixar! Imagine-se agora que os compradores da nossa dívida se financiam em mercados ainda mais baratos do que o do BCE, por exemplo estes:

Taxas directoras de alguns bancos centrais que seguem a chamada política ZIRP:
  • Banco do Japão = 0,1%
  • Reserva Federal (E.U.A.) = 0,25%
  • Suécia = 0,25%
  • Suíça = 0,25%
  • Banco de Inglaterra = 0,5%
  • Banco do Chile = 0,5%

O negócio não poderia ser mais apetecível, sobretudo porque os reformados, os trabalhadores produtivos e as classes médias cá estarão para pagar. Negócio melhor do que este não há nas presentes circunstâncias.

A menos que surja por aí uma revolução que estrague tudo, os bancos, os grandes grupos económicos e os especuladores a tempo inteiro não querem outra coisa. Melhor do que isto só mesmo empresas públicas privatizadas ao desbarato por governos falidos, corruptos e traidores.


OAM 672—19 Mar 2010 19:39 (última actualização: 22:43)

quinta-feira, março 18, 2010

Vaticana

Deixai vir a mim os pedófilos!

Abuso de crianças: em cinco anos, dez padres indiciados em Portugal

Seis dos dez casos de abuso sexual de crianças cometidos por padres investigados aconteceram em 2007, revela estudo de inspector da PJ

Por toda a Europa sucedem-se as denúncias de padres pedófilos na Igreja Católica e Portugal não fica fora do leque de suspeitas. De 2003 a 2007, dez padres foram indiciados pelo Ministério Público por abuso sexual de crianças, indica um estudo do investigador da Polícia Judiciária (PJ) Pedro Pombo, a que o i teve acesso. Desses dez casos (num total de 5128), seis ocorreram em 2007. O i contactou o Ministério Público para perceber o desfecho destes casos - arquivamento ou acusação -, mas não obteve resposta até ao fecho desta edição. … in i online.

O Vaticano é a sede de uma seita criminosa, e o actual Papa uma perigosa criatura, ao contrário do que inicialmente me passou pela cabeça. Além dos serviços prestados às SS, na sua qualidade de antigo membro da Juventude Hitleriana, Ratzinger, soube-se entretanto, foi autor em 1962 de um agora desvendado e criminoso decreto chamado Crimen sollicitationis, segundo o qual o Vaticano tem vindo a encobrir centenas, se não mesmo milhares de abusos sexuais por parte de padres da sua congregação, nomeadamente contra crianças. Os casos brasileiro e português são os mais recentemente denunciados.

In his capacity as Prefect, Ratzinger's [1962] letter “Crimen Sollicitationis” which clarified the confidentiality of internal Church investigations into accusations made against priests of certain crimes, including sexual abuse, became a target of controversy during the sex abuse scandal. While bishops hold the secrecy pertained only internally, and did not preclude investigation by civil law enforcement, the letter was often seen as promoting a coverup.[20]  The Pope was accused in a lawsuit of conspiring to cover up the molestation of three boys in Texas, but sought and obtained diplomatic immunity from prosecution. — in Wikipedia.

Além do problema em si, que é quase sempre o da exploração dos mais fracos e a chantagem, soma-se a contradição insanável no interior da teologia e do discurso moral que fundamentam o catolicismo romano. O silêncio dos bispos, cardeais e sumo pontífices é ensurdecedor.

Diz-se que o fim do celibato resolveria, ou atenuaria o problema. Pois é. Mas esse foi o caminho da Reforma luterana, que Roma nunca quis seguir. A corja de batinas carmesim lá saberá porquê!

Surpreendido? De nenhuma maneira. Basta ler o Marquês de Sade e pensar um bocadinho. Se eu fosse pedófilo, ou um insaciável sexual, frio e calculista, teria escolhido a "vocação" de padre católico!

Joseph Ratzinger joined the Hitler Youth in 1941 when, according to him and his supporters, it became compulsory for all German boys. Millions of Germans were in a position similar to that of Joseph Ratzinger and his family, so why spend so much time focusing on him? Because he is no longer merely Joseph Ratzinger, or even a Catholic Cardinal — he is now Pope Benedict XVI. None of the other Germans who joined the Hitler Youth, were part of the military in Nazi Germany, lived near a concentration camp, and watched Jews being rounded up for death camps has ever become pope. — About.com .

Nas vésperas da visita de Ratzinger ao Santuário de Fátima, na sua qualidade de Papa, pergunto à muito desatenta Conferência Episcopal Portuguesa, ao cardeal patriarca de Lisboa e a Frei Bento, que têm a dizer sobre tudo isto? Não sabiam? Ignoram? Só se pronunciarão se a coisa um dia for julgada e vier a transitar em julgado? Poderá esta espécie de anti-Cristo disfarçado de Papa merecer o vosso acolhimento e saudação carinhosa? Deverá ser bem recebido em Portugal?

Merkel wants nazi pope to stop being a nazi.

The Pope is probably the creepiest looking man in robes on this planet.  He is also a clothes horse with delusions of grandeur.  He does love ermine and wine red robes!  And he keeps trying various ways of burying his Nazi past.  Once again, he goofs.  His rehabilitation of a ‘Holocaust denier’ is typical of this guy.  Incidentally, he claims that an encounter in Tübingen, Germany, in the spring of 1968 when a crazy girl hassled him about being a former Nazi is the sole reason he decided to be a hyper-conservative screaming queen.  It was, in other words, all my fault.  Me and my big mouth. — in Culture of Life News.

POST SCRIPTUM
Bavarian bishops pray for abuse victims

A prominent archbishop called Thursday for justice for sexual abuse victims in Germany's Roman Catholic Church, saying they need to feel they can finally speak openly about their suffering.

Reinhard Marx, the archbishop of Munich and Freising, said Catholic bishops in the southern German state of Bavaria — the homeland of Pope Benedict XVI — felt "deep consternation and shame" over the reports of abuse of children in church-run schools and institutions in past weeks. in George Frey And Melissa Eddy, Associated Press Writers – Thu Mar 18, 1:57 pm ET
BAD STAFFELSTEIN, Germany. Yahoo! News.

Sobre as cumplicidades das igrejas cristãs com as ditaduras europeias do século 20, ver também: "Igreja cúmplice do nazismo, fascismo e outras ditaduras" (vídeo)


OAM 671—17 Mar 2010 23:54 (última actualização: 19 Mar 2010 0:50)

terça-feira, março 16, 2010

MC Snake

Quem quer incendiar a cidade?!



A morte em circunstâncias ainda desconhecidas (ler Público) do rapper Mc Snake, na sequência duma perseguição policial automóvel na madrugada desta Segunda Feira é uma tragédia pessoal, familiar e para a tribo urbana do jovem músico que, em 2006, colaborou na produção do álbum "Negociantes" de Sam The Kid — um dos mais criativos e politicamente conscientes músicos urbanos portugueses da actualidade. Estou revoltado!

A notícia é um mau augúrio. Mas o mais preocupante é ler os comentários online sobre o sucedido :-(

O primeiro texto deste blogue foi dedicado à Cova da Moura. Publiquei-o em 24 de Julho de 2003. Nele escrevia sobre o jovem Ângelo baleado mortalmente pelas costas, aos 17 anos, pela PSP, no ido ano de 2001, e da importância de olhar para os guetos deste país com um olhar político e responsável. Organizei então um passeio filosófico à Cova da Moura, com a colaboração da Lieve —uma das impulsionadoras da associação cultural e cívica Moinho da Juventude, e grande defensora dos direitos do bairro. A condução do passeio ficou a cargo dum jovem chamado Joãozinho. Era um rapaz bonito, que prezava o corpo e o traje como qualquer africano genuíno. Sorria como sorri o Sol esplêndido de Lisboa, que dá à Cova da Moura a cor, o som, o cheiro e o pó de África. O grupo de excursionistas (e jantaristas!) percorreu e falou com os mais de quarenta cabeleireiros ali residentes, e que foram desde logo o grande leitmotiv na iniciativa. Terminámos o dia numa longa mesa em volta de uma cachupa, sob o olhar de Lisboa no horizonte. Pouco tempo depois Joaozinho era assassinado, não por polícias, mas por inimigos que a miséria faz.

O West Side Story, agora com rappers pacifistas, mas acordados, voltou a repetir-se. Os tiros pelas costas não têm desculpa!


OAM 670—16 Mar 2010 2:47

sábado, março 13, 2010

Portugal 172

Quando se revoltará a classe média?

O enviado especial das Nações Unidas para a Luta Contra a Tuberculose, Jorge Sampaio, afirmou hoje, no Porto, que "faltam quatro milhões de profissionais de saúde no mundo", principalmente nos países que mais necessitam deles.

…Jorge Sampaio disse ainda que os portugueses devem "relativizar" os problemas que estão a viver com a actual crise, porque muitos outros povos estão a enfrentar situações bastante piores. — in Público (12.03.2010)

Só faltou ao antigo presidente da república acrescentar que os actuais e futuros desempregados do Serviço Nacional de Saúde português têm um emprego à sua espera no Malawi, na Etiópia, no Ruanda, no Zimbabwe, no Haiti, e noutras paragens semelhantes. O devaneio do "enviado especial" não poderia ser mais inoportuno e sujeito às piores interpretações. Se o "enviado" acredita que a receita de sempre —expulsar os portugueses da sua terra e dos seus empregos, pondo-os a render no ultramar ou nos aviários da Irlanda— voltará a dar patacas que cheguem para alimentar o bordel lusitano, desengane-se! A nomenclatura indecorosa que depois de 35 anos de democracia populista levou Portugal à ruína, colocando-o de novo à beira de um colapso de regime, tem que começar a contar pelos dedos —já que há muito perdeu a faculdade de usar o intelecto.

Aquilo a que estamos neste momento a assistir, com a colaboração dissimulada de todas as seitas do actual sistema partidário, é a um endividamento sem precedentes do Estado, ao roubo sem limites do património nacional, e à sangria assassina da escassa poupança acumulada de milhões de portugueses, pela via fiscal directa e indirecta. As receitas da emigração fazem ainda parte desta expropriação sem precedentes da riqueza produzida por muitos de nós.

"Porque é que o Banco de Portugal vende o ouro da República?" — pergunta Jorge J. Landeiro de Vaz, Professor do ISEG/UTL, num artigo publicado pelo Expresso em 5 de Junho de 2009.

Em 1971 as reservas de ouro do Banco de Portugal ascendiam a 818,3 toneladas; em 2001, ou seja 30 anos depois, ainda eram 606,7 tons. mas em Março de 2009 já só existem à guarda do Banco de Portugal 382,5 tons. Porquê?

Será que alguém explica aos Portugueses porque é que em 38 anos a democracia fez voar 435,8 tons de ouro, herdadas do "fascismo" e do "colonialismo", ou seja  53%  daquelas  reservas.

Alguém explica aos Portugueses porque é que nos últimos 8 anos foram vendidas 224,2 tons de ouro; ou seja nos últimos 8 anos, o Portugal da zona euro vende alegremente, em média 28 tons de ouro por ano. A  este ritmo, dentro de 14 anos não haverá ouro no Banco de Portugal.

... Num contexto de empobrecimento económico e endividamento público e privado, o ouro do Banco de Portugal não pode ser visto como activo de liquidação, mas como reserva de soberania. Há uma responsabilidade intergeracional que o exige. Deixemos esse património aos nossos filhos e teremos feito alguma coisa por eles, pelo menos como penhor dos passivos que airosamente lhes vamos legar.

Ainda que admitamos que valor total das reservas de ouro sejam ligeiramente mais elevadas —407,5 toneladas— o resultado assustador não deixa de ser este: aos preços de hoje (805,72 euros a onça troy), uma tal reserva de ouro, que valerá qualquer coisa como 10 556 082 233 euros, não chega a 7% da nossa dívida pública: 164 879 600 000 (OE2010).

Resumindo a grosso modo, a situação portuguesa, que nos aproxima efectivamente da Grécia, apesar dos protestos de quem quer sacudir a água do capote (Teixeira dos Santos, Sócrates, Cavaco Silva...), é esta:
  • PIB previsto para 2010 (OE2010) = 167 367 100 000
  • endividamento das famílias em % do rendimento disponível (2001) = ~96
  • défice externo (anual) em % do PIB (2008) = -10,6
  • divida externa líquida em % do PIB = >100
  • dívida externa bruta em % do PIB (2008) = >200
  • dívida pública em % do PIB (2008) = >108
  • divida pública + divida privada em % do PIB (2007) = ~300
  • dívida externa em % das exportações = ~700
  • taxa de crescimento do PIB (previsão para 2010-2013) = <1%
  • taxa de desemprego oficial (dez. 2009) = 10,2% (567,7 mil desempregados/ procura de emprego)
  • taxa efectiva de desemprego (dez. 2009) = 12,7% (716,9 mil desempregados/ procura de emprego)
  • emigração (1992-2003) = 330 741
Entretanto, o PEC prevê alienar bens públicos —TAP, ANA, CTT, REN, seguradora da CGD, e participações accionistas minoritárias na EDP, Galp e Cahora Bassa— no valor de 6 mil milhões de euros. Se a privatização de certas actividades de exploração (CTT, TAP, CP e Metro) são no limite toleráveis, o mesmo não sucede com a privatização de monopólios e quase monopólios estratégicos, como sejam a ANA, EDP e REN. Alienar o único banco de Estado, ainda que apenas e para já o seu ramo de seguros, é de uma irresponsabilidade bestial! O que está em curso, e não vai parar, a menos que a classe média resolva revoltar-se (e tem meios para tal), é o saque sistemático e inglório da riqueza nacional pública e privada — pela via das privatizações, pela via da punção fiscal, e ainda por via da inflação que não tardará a chegar. Que seja o Partido Socialista a dar este derradeiro passo no longo e fracassado programa neoliberal de privatização do Estado, inaugurado por Reagan e Thatcher, não deixa de ser um epílogo no mínimo obsceno.

O país está falido, é certo. Mas então façamos uma desvalorização criativa da moeda! Como? É simples: reduzamos em 10% os vencimentos da Função Pública e do sector empresarial do Estado, acima dos 1000 euros, até 2013. Os salários do sector empresarial seguiriam naturalmente uma tal medida. Aliás, se tivéssemos moeda própria, a alternativa seria inevitavelmente proceder à sua desvalorização, o que teria os mesmos resultados práticos. Porém, se nada fizermos, corremos o risco de passar por uma quarentena fora do euro, o que provavelmente implicaria uma queda abrupta instantânea do nosso poder de compra na ordem dos 30%. O problema é pois mais de linguagem e de persuasão criativa, do que de substância. Até porque as duvidosas receitas de privatizações inscritas no PEC —6 mil milhões de euros— apenas taparão, se forem integralmente obtidas (o que duvido muitíssimo), quatro meses do nosso endividamento público galopante, ao mesmo tempo que reduzem a nada os poucos anéis que ainda temos no dedo mindinho.

O Capitalismo falido do Ocidente, que desde meados da década de 70 resolveu apostar na destruição das suas capacidades produtivas, exportando os respectivos negócios para as antigas colónias, e inventando ao mesmo tempo uma fórmula de crescimento económico baseada no endividamento dos estados, das empresas e das pessoas, começou agora a roer as unhas, ou pior ainda, a comer os seus próprios filhos, como Urano! Em contraponto, o capitalismo de estado de países como a China, Japão, Rússia, Arábia Saudita, etc., faz exactamente o contrário: protege as riquezas nacionais da voragem ruinosa e assassina dos especuladores individuais.

O problema de Portugal é pois muito grave, ao contrário do que a propaganda do sistema pretende fazer crer. A nossa dívida global cresce a um ritmo exponencial, correndo o sério risco de se tornar incontrolável. Vender os anéis e os dedos é como ir a uma casa de penhores dirigida por sádicos, sabendo que não recuperaremos as jóias de família. Confiar na emigração, como o discurso inconsciente de Jorge Sampaio claramente induz a pensar, é uma ilusão pura, que não compreende um facto histórico essencial: as mesadas coloniais que começaram em 1415, com a conquista de Ceuta, morreram definitivamente!

A partir de agora teremos que começar a trabalhar. Mas para isso teremos primeiro que correr com a corja que se governa em nosso nome.


OAM 699—13 Mar 2010 4:03 (última actualização 17:30)

sexta-feira, março 12, 2010

Internet

Não ao ACTA!

Parliament threatens court action on anti-piracy treaty
Published: 10 March 2010 | Updated: 12 March 2010

The European Parliament defied the EU executive today (10 March), casting a vote against an agreement between the EU, the US and other major powers on combating online piracy and threatening to take legal action at the European Court of Justice.

An overwhelming majority of MEPs (663 in favour and 13 against) today voted a resolution criticising the Anti-Counterfeiting Trade Agreement (ACTA), arguing that it flouts agreed EU laws on piracy online.

The Parliament's resolution states that MEPs will go to the EU Court of Justice if the European Commission, which is leading the negotiation on behalf of the European Union, does not reject ACTA rules that would allow cutting off users from the Internet if caught downloading copyrighted content. — Ler mais.

O ACTA (Anti-Counterfeiting Trade Agreement) é um atentado à liberdade de comunicação, circulação de ideias e de mercadorias no ciber-espaço, e é uma tentativa de os monopólios da comunicação (redes físicas, redes electrónicas e conteúdos) se apropriarem da propriedade virtual que é a Internet. Sob o pretexto da defesa dos direitos de autor alguns americanos, europeus e asiáticos, conspiram há muito para transformar o ciberespaço numa coutada global. A isto teremos que dizer não.

Devemos ainda e desde já exigir aos deputados da Assembleia da República, aos partidos políticos portugueses e aos anunciados, e confirmados, candidatos presidenciais, que tomem posição imediata sobre este assunto.

A crise económico-financeira é um assunto prioritário. Mas não podemos esquecer que é precisamente durante estas crises, em que a atenção pública se encontra demasiado focada num só tema, que as negociatas e por vezes atentados às liberdades públicas se insinuam e por vezes conseguem impor-se.

Speak out against ACTA

ACTA, the Anti-Counterfeiting Trade Agreement, is a proposed enforcement treaty between United States, the European Community, Switzerland, Japan, Australia, the Republic of Korea, New Zealand and Mexico, with Canada set to join any day now.

Although the proposed treaty’s title might suggest that the agreement deals only with counterfeit physical goods (such as medicines), what little information has been made available publicly by negotiating governments about the content of the treaty makes it clear that it will have a far broader scope, and in particular, will deal with new tools targeting “Internet distribution and information technology”. — in Free Software Foundation.

EU Parliament votes 663-13 against ACTA's enforcement measures
Cory Doctorow at 7:40 AM March 10, 2010

The European Parliament resoundingly voted against the secret Anti-Counterfeiting Trade Agreement (ACTA), in a resounding 663 to 13 tally. The parliamentarians defied the EU executive and threatened to take the issue to the European Court of Justice if the EU doesn't reject ACTA's provisions on disconnection for infringement and other enforcement provisions.  — in Boing Boing.

OAM 698—12 Mar 2010 11:39

quarta-feira, março 10, 2010

Pico petrolífero

O petróleo regressou aos 80 $/b.
Se o Pico Petrolífero Mundial chegar em 2014 (previsão mais recente), ou mesmo em 2020, esqueçam os aeroportos!
Published Mar 10 2010 by Eureka Alert!, Archived Mar 11 2010
World crude oil production may peak a decade earlier than some predict
by American Chemical Society press release

In a finding that may speed efforts to conserve oil and intensify the search for alternative fuel sources, scientists in Kuwait predict that world conventional crude oil production will peak in 2014 — almost a decade earlier than some other predictions. Their study is in ACS' Energy & Fuels, a bi-monthly journal.

Ibrahim Nashawi and colleagues point out that rapid growth in global oil consumption has sparked a growing interest in predicting "peak oil" — the point where oil production reaches a maximum and then declines. Scientists have developed several models to forecast this point, and some put the date at 2020 or later. One of the most famous forecast models, called the Hubbert model, accurately predicted that oil production would peak in the United States in 1970. The model has since gained in popularity and has been used to forecast oil production worldwide. However, recent studies show that the model is insufficient to account for more complex oil production cycles of some countries. Those cycles can be heavily influenced by technology changes, politics, and other factors, the scientists say.

The new study describe development of a new version of the Hubbert model that accounts for these individual production trends to provide a more realistic and accurate oil production forecast. Using the new model, the scientists evaluated the oil production trends of 47 major oil-producing countries, which supply most of the world's conventional crude oil. They estimated that worldwide conventional crude oil production will peak in 2014, years earlier than anticipated. The scientists also showed that the world's oil reserves are being depleted at a rate of 2.1 percent a year. The new model could help inform energy-related decisions and public policy debate, they suggest. — in "World crude oil production may peak a decade earlier than some predict" | Energy Bulletin.
A dependência portuguesa do petróleo e do gás natural é enorme. Ao contrário do que as barragens de contra-informação do governo e da EDP têm vindo a fazer crer, a energia eléctrica que consumimos depende muito do gás natural e do fuel diesel, e mais grave ainda, a circulação de mercadorias por esse país fora depende quase exclusivamente do transporte rodoviário, como ficou demonstrado durante a crise provocada pela greve internacional de camionistas de Junho de 2008.

A destruição da linha férrea portuguesa, iniciada por Aníbal Cavaco Silva, o actual presidente da república (que talvez por estas e outras se mostra muito satisfeito com o PEC), e o atraso na mudança de bitola das fracas ligações ferroviárias existentes entre Portugal e Espanha, coloca Portugal numa situação particularmente frágil quando projectamos os impactos previsíveis de uma antecipação do Pico Petrolífero. Com o petróleo de novo nos $80/b, e a previsão da sua escassez a curto prazo, precipitará inevitavelmente uma crise económica, social e política sem precedentes no mundo.

Daqui que há muito venha desvalorizando os devaneios governamentais em volta do seu irrealista plano de transportes, invariavelmente ao serviço dos objectivos de curto prazo do Bloco Central do Betão.

OAM 697—10 Mar 2010 (última actualização: 13 Mar 11:25)

segunda-feira, março 08, 2010

Portugal 171

A declaração de Andorra
Cavaco falou de Atlantismo, não sei se repararam...


Greece's problems are indeed Germany's problems. Germany's problems are indeed the United States' problems. And the United States' problems are indeed the world's problems.  -- in Immanuel Wallerstein, "Greek Mess, Euromess, Western Nations Mess, World Mess?"

Given the increased strength of western Europe and Japan in the early 1970s, the United States offered them promotion to the status of junior partner. France and Germany opted to proceed further to an independent world role in 2003. And Japan, in its national election in 2009 and its mayoral election in Okinawa in 2010, seems to be opting for it now. Brazil, given its increased strength, was offered junior partnership only in 2009. It seems to be insisting on an independent world role almost immediately. -- in Immanuel Wallerstein, "The United States Misreads Brazil's World Policy"

Quem me lê com alguma regularidade já estará habituado às minhas mudanças de humor crítico. Por exemplo, acabei de criticar asperamente o presidente da república pelo seu titubeio em volta do tema do novo aeroporto de Lisboa, que se prevê venha um dia a ser construído em Alcochete.  Eu defendo, como muita gente neste país, algumas ideias simples sobre esta matéria, tendo nomeadamente presentes as actuais circunstâncias económico-financeiras do país (endividamento extremo e estrutural) e a crise sistémica do Capitalismo que continua a varrer o planeta, sem sinais de acalmia. Tal como as réplicas do grande terramoto que atingiu o Chile no passado dia 27 de Fevereiro continuam a destruir e a aterrorizar aquele país (1), também as falências do Lehman Brothers e do Royal Bank of Scotland não só não deixaram de reverberar em todo o sector da especulação imobiliária, como abriram caminho ao colapso iminente de vários países, por causa das suas insustentáveis dívidas soberanas. É nesta conjuntura dramática, que há muito aqui venho caracterizando como consequência previsível das deslocações aceleradas das placas tectónicas do poder económico mundial, que uma opinião ponderada sobre o nosso sistema de mobilidade e transportes deve ser equacionado. Infelizmente, o debate sobre este assunto tem-se tornado ensurdecedor, e aparece inevitavelmente contaminado por questões laterais que, apesar da sua importância, não deveriam impedir a percepção clara do que está efectivamente em jogo.

Comecemos pela posição que aqui temos vindo insistentemente a defender, sintetizando para tal o trabalho persistente e sistemático levado a cabo generosamente por um bom número de cidadãos sem interesses materiais na matéria.
  1. Há um compromisso de Estado com Espanha para construir a linha de Alta Velocidade ferroviária entre Lisboa e Madrid, a qual ligará a capital portuguesa às principais cidades espanholas e ao resto da Europa antes de 2014. Esta decisão deverá ser respeitada. Por outro lado, é crucial que a ligação sirva para a circulação de comboios de passageiros e de mercadorias. Mais: esta linha deveria terminar, numa primeira fase, na estação de Pinhal Novo, por forma a permitir uma de duas soluções: o transbordo dos passageiros vindos de Espanha para os comboios da Fertagus, ou então permitir ao LAVE (Linha de Alta Velocidade) fazer a pausa necessária para adaptar os eixos das rodas à bitola ibérica, e assim atravessar a Ponte 25 de Abril em direcção ao Campo Grande (onde deveria situar-se a futura Estação Central de Comboios de Lisboa). Finalmente, desta mesma linha deveria sair um ramal (em bitola europeia, claro!) dirigido a Sines e passando por Setúbal, com o objectivo de satisfazer um dos principais componentes estratégicos e de rentabilidade desta ligação.
  2. No que respeita ao resto da rede de Alta Velocidade/Velocidade Elevada prevista, a mesma deveria sofrer um compasso de espera de 3-4 anos, revendo-se o plano em duas direcções: restringir a velocidade média para 220 Km/h, do que decorreriam custos de construção, manutenção e uso economicamente sustentáveis; projectar todas as futuras linha de bitola europeia para circulação simultânea de comboios de passageiros e de mercadorias.
  3. Manter a aeroporto da Portela em funcionamento, independentemente da construção de um Novo Aeroporto de Lisboa. Esta é uma decisão de realismo económico e uma medida de precaução. Se um terramoto, seguido muito provavelmente de maremoto, atingir Lisboa com intensidades semelhantes às dos que têm atingido o Chile desde 1960, é bem possível que as pontes até Santarém colapsem ou fiquem temporariamente intransitáveis, tornando assim muito complicadas as operações nacionais e internacionais de socorro às vítimas.
  4. A decisão de construção do NAL de Alcochete deve ser ponderada com muito cuidado (2), não deve depender nem do fecho da Portela, nem da privatização da ANA (duas ideias muito estúpidas e  fraudulentas), deve ser equacionada na perspectiva de uma parceira público privada rigorosamente vigiada —sem encargos futuros para os contribuintes—, e deve contar à partida com parcerias estratégicas com o Brasil, Angola, Moçambique, China, Rússia e Japão.
  5. A construção/consolidação de uma linha de portos competitivos ao longo da costa portuguesa é uma prioridade estratégica, tal como é também a criação complementar de um cluster marítimo de indústrias, comércio e investigação e desenvolvimento (I&D) — aquilo que, se não erro, é uma ideia próxima da "economia do mar" de que fala Hernâni Lopes.
É neste contexto que devemos agora interpretar a aparente guinada de Cavaco Silva em relação ao estuporado "TGV", e a insidiosa declaração estratégica que proferiu em Andorra.

Cavaco diz que TGV não é determinante para Portugal

O presidente da República considera que a alta velocidade ferroviária pode ter «algum efeito» mas não é determinante para definir a posição de Portugal, considerando que o país é central em relação ao mundo, e não periférico.

«Somos um porta para África, para a América Latina, para a América do Norte. Estamos no centro do mundo global. Chegar mais cedo a Barcelona ou Madrid pode ter algum efeito mas esta é uma questão da geografia no mundo global, não algo que seja determinado por mais ou menos velocidade na chegada a um ponto europeu», afirmou Cavaco Silva.

Para Cavaco Silva «não menos importantes» que o TGV «são as ligações marítimas que podemos e devemos estabelecer com Angola, com Moçambique, com o Brasil, com a América do Norte».

«Isso é que mostra bem a nossa centralidade. Se olharmos apenas para a Europa, podemos ver-nos como periféricos. Se olharmos para África, para toda a América Latina, para os Estados Unidos, vamos ver-nos como um centro», afirmou. — in Sol.

Não citei, mas Cavaco disse ainda, desta vez em Barcelona, capital da Catalunha, que a Espanha deve deixar-se de proteccionismos relativamente a Portugal. Ou seja, se o não fizer, dificilmente se compreenderá que Portugal venha a dar prioridade à pressa do Palacio de la Moncloa em estender a sua rede de Alta Velocidade ferroviária a Lisboa e... Sines. Foi Zapatero que disse que a Rede do AVE é o melhor instrumento para a unidade da Espanha!

A Alemanha e a França distanciam-se da ruína estratégica dos Estados Unidos, ocupando-se com intensidade redobrada da Eurolândia, dos Balcãs, do Leste Europeu e da Rússia e, claro está, da Ásia. Ao contrário do Reino Unido, preso geneticamente aos Estados Unidos, e de uma Espanha recentemente convertida às novas qualidades estratégicas do mar Atlântico (mas que conta ainda com razoável número de anti-corpos na América Latina), Portugal só tem uma escapatória: as mesmas rotas que há seiscentos anos impedem a sua submissão a Castela!

Só por aqui vejo a relevância potencial de se construir um aeroporto intercontinental (para os Airbus A-380, Boeing 787, e para os futuros cargueiros aéreos desenhados e desenvolvidos pela China e pelo Brasil) na cidade-região de Lisboa. Este cenário depende, porém, de um factor altamente crítico: o preço futuro do petróleo.

Seja como for, o importante é registar a extrema importância das declarações de Cavaco Silva na Catalunha —onde decorrem os movimentos democráticos mais avançados de secessão da Espanha—, e em Andorra, onde existe uma importante comunidade de emigrantes portugueses.

Na linha do que Manuela Ferreira Leite anteriormente esclareceu, o actual presidente da república, com o qual certamente concorda Durão Barroso, decidiu esclarecer o país, e os espanhóis, que os interesses estratégicos do nosso país não são necessariamente os mesmos de Madrid.

Perante isto, teremos todos que rever a discussão sobre o estuporado TGV. E quanto à pergunta da Time, leio-a assim: a Europa não desapareceu, deixou apenas de ser o aliado sim-sim do império americano!



NOTAS
  1. Ao longo deste domingo, e até ao momento em que escrevo este comentário, registaram-se já sete abalos no Chile, entre M4.6 e M5.5.
  2. Nem toda blogosfera imersa nesta discussão partilha a defesa que tenho feito da incidência estratégica positiva que um aeroporto transcontinental poderá ter no difícil processo de adapatação de Portugal à mudança tectónica dos poderes comerciais e futuramente políticos e militares do planeta.

OAM 696 —08 Mar 2010 0:43

    sábado, março 06, 2010

    Portugal 170


    Educação: não deitem fora o bebé com a água do banho!



    An illustration: I challenged one student about why he always wore headphones in class. He replied that it didn't matter, because he wasn't actually playing any music. In another lesson, he was playing music at very low volume through the headphones without wearing them. When I asked him to switch it off, he replied that even he couldn't hear it. Why wear the headphones without playing music or play music without wearing the headphones? Because the presence of the phones on the ears or the knowledge that the music is playing (even if he couldn't hear it) was a reassurance that the matrix was still there, within reach. — in Mark Fisher, Capitalist Realism.

    Uma das consignas eleitorais de Paulo Rangel foi directamente importada de Medina Carreira: disciplina nas escolas! Todo o poder aos professores!! Aconselho, porém, o ansioso Calimero que quer ser primeiro-ministro de Portugal a rever o slogan.

    Medina Carreira, que tem a cabeça no sítio, e resolveu dizer umas verdades que a maioria dos economistas conhecia, mas fingia ignorar, é curto na sua análise e na receita lapidar que dá para o problema da educação em Portugal: mais ensino profissional e disciplina. Não chega, ou melhor, não será por esta via de serviço, algo retrógrada, que iremos lá.

    Em primeiro lugar, convém esclarecer que o problema da educação, tal como tem vindo a ser desvendado, não é português. Tal como noutros domínios, apenas importámos a epidemia. E o vírus da entropia educativa, tal como outros vírus, tem propensão para desenvolver pandemias, resiste aos contra-ataques, e é mutante!

    If, then, something like attention deficit hyperactivity disorder is a pathology, it is a pathology of late capitalism — a consequence of being wired into the entertainment-control circuits of hypermediated consumer culture. Similarly, what is called dyslexia may in many cases amount to a post-lexia. Teenagers process capital's image-dense data very effectively without any need to read — slogan-recognition is sufficient to navigate the net-mobile-magazine informational plane. 'Writing has never been capitalism's thing. Capitalism is profoundly illiterate', Deleuze and Guattari argued in Anti-Oedipus. 'Electric language does not go by way of the voice or writing: data processing does without them both'. Hence the reason that many successful business people are dyslexic (but is their post-lexical efficiency a cause or efect of their success?)

    Teachers are now put under intolerable presure to mediate between the post-literate subjectivity of the late capitalist consumer and the demands of the disciplinary regime (to pass examinations etc). This is one way in which education, far from being in some ivory tower safely inured from the 'real world', is the engine room of the reproduction of social reality, directly confronting the inconsistencies of the capitalist social field. Teachers are caught between being facilitator-entertainers and disciplinarian-authoritarians. Teachers want to help students to pass the exams; they want us to be authority figures who tell them what to do. Teachers being interpellated by students as authority figures exacerbates the 'boredom' problem, since isn't anything that comes from the place of authority a priori boring? Ironically, the role of disciplinarian is demanded of educators more than ever at precisely the time when disciplinary structures are breaking down in institutions. With families buckling under the pressure of a capitalism which requires both parents to work, teachers are now increasingly required to act as surrogate parents, instilling the mst basic behavioral protocols in students and providing pastoral and emotional support for teenagers who are in some cases only minimally socialized. — idem.

    Tal como noutras matérias, a metodologia honesta aconselha a não confundir efeitos com causas. Não é a falta de disciplina que apodrece o ensino, mas o apodrecimento sistémico do ensino que se revela como indisciplina, permitindo de forma perversa justificar todas as guinadas da política, e em última análise servir (com aplauso público condicionado) a tendência manifesta, desde a década de 1980, para a desestruturação do ensino público. A educação gratuita, paga pelos impostos, tornou-se basicamente um processo de formatação cognitiva de massas, suportado por uma burocracia imensa, apto a melhor, ou pelo menos, mais pacificamente, administrar a força de trabalho globalmente disponível, ocultando por outro lado, e desta forma subtil, as verdadeiras taxas de desemprego (e sobretudo a destruição paulatina e aparentemente irreversível do trabalho produtivo), sob o manto simpático e diáfano da formação permanente, ou das "novas oportunidades".

    O assunto merece mais e melhor reflexão. Não se precipite pois o candidato Paulo Rangel em promover receitas expeditas, que além de mal informadas, podem não passar de demagogia.

    Voltarei ao tema.


    OAM 695 —06 Mar 2010 20:40

    sexta-feira, março 05, 2010

    Portugal 169

    Entre Paulo Rangel e Aguiar Branco



    O ponto de partida de Paulo Rangel —a dita "ruptura"— colocou-o numa posição complicada. Nunca se sabe se a ruptura é com o PS, ou com o próprio PSD, ou mesmo com o País (ainda que em nome da necessidade de mudar de vida e de maus hábitos). O facto de ter que se explicar permanentemente sobre esta espécie de radicalismo retórico, coloca-o numa posição pelo menos desconfortável. Talvez por este motivo, mas também pela solidariedade com a actual direcção de Manuela Ferreira Leite, Paulo Rangel tem uma especial dificuldade em clarificar a sua estratégia, sem ferir essa mesma filiação. Passar entre os pingos da chuva —o intervalo ideológico e partidário—, propondo simultaneamente uma "ruptura, exige inevitavelmente uma precisão programática, que não se limite a medidas pontuais para um governo pós-socialista.

    O País precisa de estancar o agravamento das assimetrias regionais, precisa de entender de uma vez por todas que a periferia raiana não é nenhuma periferia, mas uma nova centralidade  (pois está mais perto de Espanha e do resto da União Europeia) e é, de facto, uma nova oportunidade para as empresas, para as cidades, vilas e aldeias. Mas para que tal ocorra não basta criar uma regionalização ad hoc, de cima para baixo, sob tutela governamental, e com mais burocracia. Aliás, assim definida e proposta, não passa dum voto piedoso. O importante para atingirmos uma regionalização realmente oportuna, que aumente a riqueza do país e devolva efectiva capacidade de gestão às regiões é isto:
    1. harmonizar imediatamente o peso da fiscalidade com a vizinha Espanha, propondo a Madrid uma comissão bilateral encarregue de estudar e estabelecer rapidamente a paridade fiscal entre os dois países da União;
    2. recriar o ministério do planeamento, agregando em seu redor um conjunto de novos e reformados institutos técnicos do Estado, independentes e com uma forte e prestigiada vertente técnica — para os quais deveriam ser atraídos parte da nossa melhor competência profissional, hoje dispersa pela nova diáspora lusitana;
    3.  criar um ministério das regiões-plano com importância hierárquica logo abaixo do ministro das finanças, responsável por todas as CCRs;
    4. elevar as cidades-região de Lisboa e Porto à categoria de regiões autónomas, à semelhança das já existentes, mas inspirando-se nos modelos de governo das grandes cidades regiões existentes um pouco por todo o planeta: Madrid, Londres, Pequim, São Paulo, etc. (1)
    5. completar criteriosamente o plano rodoviário efectivamente necessário ao país, e lançar um ambicioso projecto ferroviário, onde seja prioridade a compatibilização da actual ferrovia, sistema de sinalização e material circulante, com os padrões europeus, dando prioridade a este investimento — uma geração—, e não à estéril discussão do TGV. Salvo a ligação de Alta Velocidade entre Lisboa, Madrid e Barcelona (velocidade média na ordem dos 250-300Km), todas as demais ligações devem apontar para velocidade médias na ordem dos 200 Km, aplicando a poupança no excesso de velocidade (que é caríssima, tanto a construir, como sobretudo a manter!) na densidade da malha de bitola europeia, e na sofisticação tecnológica e conforto das composições. Para tal seria da máxima utilidade estratégica criar um cluster ferroviário ibérico, propondo para tal uma aliança estratégica à Espanha, que dá cartas nesta matéria;
    6. adiar sine die o Novo Aeroporto de Alcochete, levando entretanto até ao limite o potencial ainda por esgotar da Portela (um dos melhores aeroportos naturais do mundo), obviamente com uma nova gestão;
    7. por fim, para coerir estrategicamente o território português, potenciando a continuidade produtiva, económica, fiscal e cultural entre a periferia atlântica e o centro da Europa, em aliança estratégica com a Espanha, Portugal precisa menos de uma pesada burocracia regionalista, do que de mais meios, poderes e responsabilidades atribuídos a esse motor esquecido da coesão territorial que são as freguesias rurais.


    Paulo Rangel pode, se quiser e souber, romper e romper para gáudio de todos nós. Mas terá que fazê-lo com ideias amadurecidas e bem informadas. O papel de Calimero que Aguiar Branco com inesperada agilidade sacou da cartola para desmontar o queixume de Rangel a propósito da sua juventude no PSD não fica bem a este último (embora goste da caricatura!) A acusação inerte que os seus concorrentes lhe atiram —ter chegado ao PSD há apenas quatro anos—, como se a antiguidade no PSD, tal como em todos os partidos e sindicatos não fosse, precisamente, sinal de responsabilidade pela situação desgraçada a que o país chegou, deve ser devolvida com a pergunta: "e que fizeram Vocês —José Pedro, e Pedro— no tempo todo que levam no partido?!" Há picardias que se resolvem de uma penada.

    José Pedro Aguiar Branco é uma personalidade sedutora. Tem aliás a pose e o cabelo adequados a um futuro primeiro-ministro. Argumenta bem e não podemos deixar de gostar dele. Mas temo que lhe falte, como faltava a Guterres, aquela dose da proteína FDP que os líderes sempre trazem escondida algures no respectivo DNA. O povo pressente estas coisas. Será que os esfomeados e desesperados militantes do partido laranja terão a mesma sensibilidade? Desde Cavaco Silva que não acertam!

    Eu sou socialista por convicção. Estou porém profundamente desiludido com o que os piratas da tríade de Macau e a matilha de oportunistas insaciáveis que a segue fizeram do PS. Estou, por assim dizer, órfão. Talvez seja por isso que hoje pugne pela derrota do PS e pela sua saída da área do poder. O PSD é o veículo, por assim dizer, da cura de que o Partido Socialista precisa urgentemente, para não morrer de vez. Mas se o voto laranja voltar a errar, e errará se eleger Passos Coelho, ou mesmo Aguiar Branco, em vez de Paulo Rangel, então o PS terá que esperar por melhores dias para arrumar a casa.


    Post scriptum
    1. Nem Pedro Passos Coelho, nem Paulo Rangel, estão na Assembleia da República, ao contrário de José Pedro Aguiar Branco e... Manuela Ferreira Leite. A menos que Aguiar Branco tenha já decidido aliar-se a qualquer dos vencedores, o que não é líquido —depois do que julgo ter entendido da sua prestação televisiva—, uma provável vitória de aparelho favorável a Passos Coelho lançará o PSD num impasse tremendo, do qual poderá resultar uma cisão do partido. Pelo que há muito defendo, tal cisão seria útil ao PPD/PSD, ao sistema partidário (pois provocaria a própria cisão do PS) e finalmente ao País, criando condições para verdadeiras maiorias de coligação. Neste cenário, Cavaco Silva desistiria do segundo mandato —o que seria uma felicidade para todos nós— abrindo-se assim caminho para uma refundação democrática e geracional da democracia. O colapso económico-financeiro que se aproxima não exigirá menos do que uma ruptura de semelhantes proporções!
    2. A entrevista de Cavaco Silva a Cândida Pinto —onde teve a distinta lata de recuar na questão do aeroporto de Alcochete— significa que o homem quer mesmo recandidatar-se, que já antevê o impasse no PSD pós-Directas, e que por isso o melhor mesmo é declarar desde já que não se lembra das duas comunicações que fez ao País (sobre os Açores e sobre o Watergate de Belém), que morre de amores por José Sócrates (leia-se pelos votos do PS que não forem para Alegre), e que, por conseguinte, se está nas tintas para os dramas do PPD-PSD, como aliás sempre esteve. Esta criatura saiu-me uma boa peça. Terá neste blogue, a partir de agora, um declarado opositor à sua sede de poder.

    NOTAS
    1. Não creio que as populações das cidades-região de Lisboa e do Porto chumbassem um referendo convocado para o efeito, nem mesmo que o resto do país o fizesse. Bastará estudar bem o problema, fazer um estudo comparativo com casos internacionais de sucesso, e garantir que o resultado final será uma administração da coisa pública, mais eficaz, mais coerente, mais democrática e mais barata!


    OAM 694 —05 Mar 2010 14:39 última actualização: 06 Mar 2010 0:29

    quarta-feira, março 03, 2010

    Portugal 168

    E se o PS volta a ganhar?



    Escritório de advogados de Aguiar-Branco presta assessoria jurídica à Parque Escolar
    Por Margarida Gomes (Público)
    02.03.2010 - 08:02

    O escritório de advogados José Pedro Aguiar-Branco & Advogados, com sede no Porto, está a prestar serviços de assessoria jurídica na área da contratação pública à empresa pública Parque Escolar, responsável pela gestão do programa de modernização das escolas públicas, que envolve um investimento que poderá rondar os 3,5 mil milhões de euros.
    Minutos antes de começar o debate entre Paulo Rangel e Pedro Passos Coelho, José Luís Arnaut fez, no mesmo canal da SIC, uma pomposa proclamação de apoio a Paulo Rangel. O debate seguiu-se poucos minutos depois, mal animado, diga-se de passagem, por Ana Lourenço. Os floreados e as trocas de mimos entre os dois noviços do PSD (Coelho porque já nasceu daquela maneira, e Rangel, porque estava visivelmente tenso) foram deprimentes. Nem uma ideia nova. Nem nada que fosse mais crítico do que o que a actual líder já disse sobre os erros de Sócrates. Nem, sobretudo, qualquer esperança oposta ao vazio da actual governação socialista. Seja como for, a notícia do Sol é verdadeira: Paulo Rangel obedeceu mesmo a uma ordem de marcha de Durão Barroso. Veio de Bruxelas para impedir a eleição do eterno JSD Pedro Passos Coelho, e para impedir também que a alma mater do até há semanas único candidato à sucessão de Manuela Ferreira Leite, e sócio na Fomentinvest, Ângelo Correia, acabasse por reeditar uma vasta confabulação bloquista (central) à maneira antiga, i.e. à maneira do tempo das vacas gordas, quando ninguém via a extensão do tráfico de influências, nem a corrupção, nem a sangria canina do Estado pelos gangs do tal Bloco Central. Alguém teria que ser enviado para travar este desastre anunciado!

    Na iminência de uma queda prematura do actual governo socialista —que só não cairá se Sócrates for levado a perceber que saindo salva o PS e o Governo— os poderes subterrâneos do PSD agitaram-se e Barroso percebeu que não havia tempo a perder. Será preciso imaginar e negociar, por cima e por debaixo da mesa, um futuro governo de coligação, que poderá mesmo ser editado em duas fases: na primeira, sob a forma de um acordo de incidência parlamentar, entre um PS sem Sócrates e um PSD com Rangel; e nas próximas eleições legislativas, que teriam assim lugar no tempo certo, na configuração de uma grande aliança patriótica entre o PS, PSD e CDS. Um terceiro cenário, claro, implica a demissão do governo por indecência e má figura, e a dissolução do actual parlamento, seguido de eleições antecipadas — para o que seria também necessário promover uma aliança eleitoral capaz de garantir um quadro de estabilidade institucional e governativa, pois a crise económico-financeira e social está para durar e lavar, e nem sequer passou ainda pela sua fase mais crítica.

    José Pedro Aguiar Branco é, neste jogo, uma carta fora do baralho, fruto da precipitação do caos causado pela face oculta do polvo à moda de Sócrates. O assunto é sério e por isso digo que a denúncia ontem mesmo feita sobre a sua falta de tino e isenção no modo como gere ou deixa gerir o seu escritório de advogados, que há menos de quinze dias assinou um contrato de assessoria jurídica, por ajuste directo, no valor de 75 mil euros, com a duvidosa Parque Escolar, é apenas o início da sua derrocada como candidato à liderança do PSD. Se não desistir entretanto —e tem agora um excelente motivo para o fazer, sem comprometer o seu futuro político— o caso do ajuste directo terá certamente muitos mais episódios!

    Ou seja, para sermos claros, Paulo Rangel já tem ao seu lado forças poderosas. Barroso, Balsemão, Arnaut, deram o mote e avisaram as hostes. O resto será mais ou menos trivial. Não creio sequer que a ganga dependente dos jobs cor-de-laranja se arrogue travar o que tem muita força. Podem, em teoria fazê-lo, mas pagarão por isso. E a ganga sabe!

    Um líder fraco (Aguiar Branco), ou eternamente juvenil e sem história (Passos Coelho) seriam maus para as expectativas governativas do PSD, seriam maus para o próprio PS que ainda existe para além da tríade de piratas que o tomou de assalto, e seriam maus para a governança do país. Rangel, apesar da hesitante prestação de hoje (alguém lhe disse já para amaciar o discurso da "ruptura"), tem fibra de líder, e pode muito bem servir a essência do PSD — um partido tipicamente da classe média, das PMEs, sem teias marxistas no sótão, nem o provincianismo glutão da esquerda caviar que hoje se pavoneia nas cúpulas do Partido Socialista. Não pode é voltar a falar de "Trabalhos de Casa"! E tem que estudar um bocadinho mais sobre o fundo dos problemas que nos afligem — que não é certamente a indisciplina nas escolas que Medina Carreira colocou na moda do discurso apressado sobre os males da Educação.
    The Innovation Delusion
    By Ralph Gomory
    March 1, 2010 (Huffington Post)

    Cheap labor abroad is cited as the incurable handicap that explains why the United States cannot compete. But cheap labor doesn't explain the fact that Japan and Germany, both high-wage countries, are successful in the automobile industry. Nor does it explain how semiconductors, a model of a high investment, low-labor content industry, are mainly made in Asia. The premise that the inescapable burden of competing against low wages means failure is simply not correct.

    El drama del paro alcanza a otras 82.132 personas en febrero
    02.03.10 - 18:16 - AGENCIAS | MADRID (HOY)

    Por sectores, casi el 55% del total de los parados de febrero se concentró en los servicios, con un aumento de 45.420 desempleados (el 1,94%); en el colectivo sin empleo anterior se incrementó en 14.810 (5,07%); en la construcción subió en 9.915 (1,26%); en la agricultura en 6.871 (6,44%) y en la industria en 5.116 (0,99%).
    En Grande-Bretagne, la victoire annoncée des conservateurs devient incertaine
    Virginie Malingre
    03.03.10 (Le Monde)

    Et si Gordon Brown gagnait les élections législatives prévues d'ici à juin ? Ce qui semblait inenvisageable il y a quinze jours - quand le premier ministre travailliste était, dans les sondages, dix points derrière son concurrent conservateur, David Cameron - est devenu une hypothèse plausible.
    O que une estas três notícias é a destruição de alguns mitos comuns: que a salvação depende de mais choques tecnológicos e de mais educação; que a salvação depende de mais obras públicas de construção civil; e que o eleitorado está tão desesperado, que entregará o poder a qualquer novato de direita que prometa tirar o país da crise com palavras. Não é bem assim, e importa compreender porquê.

    Não é fácil inverter o movimento de deslocação das indústrias, desde há algum tempo também, dos serviços, e agora da própria investigação científica e tecnológica, que tem decorrido desde a década de 70 em direcção à Ásia, se continuarmos a substituir o emprego produtivo por consumo e a financiar este consumo com uma lógica de endividamento e burocratização das sociedades.

    O mais preocupante do desemprego actual na Europa e nos Estados Unidos é que o mesmo afecta sobretudo o sector de serviços e as pessoas à procura do seu primeiro emprego, além de não contabilizar um verdadeiro exército de estudantes eternos e bolseiros que dificilmente encontrarão emprego no futuro e que, apesar de exercerem actividade, não descontam para a segurança social, pelo que ajudarão objectivamente a precipitar mais depressa o colapso dos sistemas de pensões, de saúde e de segurança social.
    Wall Street Pursues Profit in Bundles of Life Insurance
    By JENNY ANDERSON
    Published: September 5, 2009 (New York Times)

    After the mortgage business imploded last year, Wall Street investment banks began searching for another big idea to make money. They think they may have found one.

    The bankers plan to buy “life settlements,” life insurance policies that ill and elderly people sell for cash — $400,000 for a $1 million policy, say, depending on the life expectancy of the insured person. Then they plan to “securitize” these policies, in Wall Street jargon, by packaging hundreds or thousands together into bonds. They will then resell those bonds to investors, like big pension funds, who will receive the payouts when people with the insurance die.
    Finalmente, a recuperação do colérico Gordon Brown face ao Conservador que pretende substitui-lo no número 10 de Downing Street —o que não deixa de ser um remake sintomático do que ocorreu a Manuela Ferreira Leite nas últimas eleições legislativas— obriga-nos a pensar até que ponto o eleitorado está assustado, e o perigo que daí potencialmente pode vir.

    Há um problema geral que é afinal simples de entender: ninguém quer perder o emprego, nem a reforma, nem a assistência médica, nem pagar o dinheiro que não tem por um ensino prolongado e virtualmente obrigatório (i.e., sem o qual aceder a um salário mais do que mínimo é impossível).
    É por esta razão que a Direita tem uma tarefa muito complicada, se não mesmo uma missão impossível pela frente em todos os países ocidentais desenvolvidos —EUA incluídos....

    As receitas liberais e neoliberais já foram provadas (a frio e a quente, i.e com eleições "livres" e com botas militares), para atacar o mesmíssimo problema estrutural, ou sistémico do Capitalismo. Lembre-mo-nos de Thatcher, Reagan, Pinochet, Videla, entre outros. E no que deram, para além dos casos trágicos, foi um compasso de espera que em substância apenas disfarçou durante 30 anos a lógica de desindustrialização e desemprego das forças produtivas nas economias ocidentais. O preço deste compasso de espera, com governos de direita ou social-democratas, foi o endividamento geral das nações mais desenvolvidas do planeta, e uma alteração estrutural dos termos de troca à escala global.

    O que agora temos pela frente é a ameaça de uma explosão desta situação insustentável. A possibilidade, e sobretudo a tentação, de uma III Guerra Mundial nos próximos anos não está fora dos radares de muitos caldeirões cognitivos e hotéis sinistros!

    Não é pois possível resolver o problema sem regressar a uma Nova Divisão Internacional do Trabalho assente numa saudável rede de vasos comunicantes, na qual antes de redistribuir a riqueza seja redistribuído o trabalho produtivo, e onde se ponha termo sem cerimónias à especulação financeira. É inevitável fazer regressar a economia mundial a um sistema de regulação fronteiriça capaz de manter equilíbrios regionais, e para tal a OMC (WTO) terá que ser esventrada e refundada! Por outro lado, o dólar americano deve terminar como moeda-padrão, criando-se em seu lugar uma moeda mundial nova fundada pelas principais moedas regionais do planeta: o USD, o Euro, o Yen, o Yuan, o Real e uma Moeda Árabe Unida.

    É pena que o debate político esteja tão contaminado pelas necessidades tácticas e sobretudo pelo desespero e desorientação dos políticos.


    OAM 693 —03 Mar 2010 03:32

    segunda-feira, março 01, 2010

    Portugal 167

    Até onde chegará o próximo maremoto em Portugal?


    As elipses amarelas assinalam zonas de formação de maremotos

    Quando pensávamos que a Madeira era a última vítima da inclemência climática deste Inverno, eis que a agitação tectónica, muito activa ultimamente, e a mesma debilidade do anti-ciclone dos Açores, abrem caminho a múltiplas e bem mais destruidoras catástrofes em várias partes do mundo.

    Portugal e a Europa atlântica continuam a ser fortemente fustigadas por ventos ciclónicos, chuvas violentas e cheias, causando prejuízos brutais e um número crescente de vítimas humanas. A deslocação para Oeste da placa americana acaba de causar no Chile o segundo maior sismo até hoje registado (depois do Grande Sismo de 1960, também ocorrido naquele país). O Japão, por sua vez, sofre não apenas, no dia anterior, um terramoto de intensidade 7, como é depois atingido (embora sem grande intensidade) pelo maremoto decorrente do sismo do Chile. É provável que ambas estas crises —climática e sísmica— não tenham ainda terminado.

    No meio da maior recessão mundial desde 1929, que vem acompanhada pela maior crise de endividamento público de que há memória, a acumulação de mortes humanas e prejuízos materiais oriundos da destruição de infraestruturas e bens materiais diversos, não poderia vir em pior momento. Quando mais precisamos de poupança, para restaurar as finanças públicas e privadas, e para restaurar a economia, constatamos a pouco e pouco, estupefactos, que a mesma se esfumou ao longo de 30 anos de consumismo e hedonismo irresponsáveis. A contenção de despesas, por sua vez necessária para impedir o colapso e a falência de vários estados desenvolvidos da Europa, América e Ásia, vê-se agora comprometida pelos impactos financeiros que os esforços irrecusáveis no auxílio às vítimas, e na reparação urgente das infraestruturas essenciais atingidas por estas catástrofes, irão inevitavelmente ter nos mercados financeiros mundiais.

    A probabilidade de haver nos próximos anos um grande sismo na Califórnia é altíssima, como é muito alta a probabilidade haver um grande terramoto em Portugal até 2050. Estaremos preparados então, como hoje estão, apesar de tudo, países como o Japão, e até o Chile? Relatos recentes de especialistas dizem-nos que não há nenhuma supervisão sobre o cumprimento da legislação anti-sísmica aplicável ao ordenamento do território português (o imprestável primeiro ministro que temos, e o imbecil da EDP, já estão a construir a barragem assassina do Baixo Sabor e querem construir mais barragens assassinas, desta vez no rio Tâmega, em plena falha sísmica!) Nem sequer as construções nos principais centros urbanos do país são objecto de uma supervisão, certificação e vigilância efectivas e transparentes. O desastre da Madeira mostra até onde foi a incúria, ganância, nepotismo, corrupção e irresponsabilidade criminosa dos políticos, empresários e técnicos supostamente credenciados e comprometidos com éticas profissionais. Mas o pior pode mesmo estar para acontecer!

    Os terrenos onde os idiotas e corruptos governamentais queriam construir o aeroporto da Ota estão neste momento cobertos de água. E se um tsunami, ou seja um maremoto, da dimensão daquele que ontem varreu a costa chilena, entrar pelo estuário do Tejo dentro, que sucederia às povoações ribeirinhas do Seixal, Moita, Montijo, Alcochete, Alhandra e Vila Franca de Xira? Que ocorreria na zona da Expo? Que aconteceria ao aeroporto de Alcochete se entretanto tivesse sido construído?

    Não peço ao turbo-caricato Augusto Mateus que se pronuncie sobre isto, pois não passa dum vendilhão do templo. Pergunto, sim, aos engenheiros, geólogos e arquitectos deste país o que se lhes oferece dizer sobre estes cenários verosímeis. Não acham que chegou o momento da ombridade profissional, e da responsabilidade cidadã?


     OAM 692 —01 Mar 2010 03:50