sexta-feira, julho 21, 2017

O Capitalismo das esquerdas



A riqueza atual é expropriada com o fim exclusivo de perpetuar o poder da nova burocracia mundial, ou seja, uma modalidade só na aparência diferente do comunismo financeiro russo, ou chinês.


Pagamentos em dinheiro serão limitados a 3 mil euros 
Observador, 19/7/2017, 8:32357 
A lei, que ainda terá de ser promulgada por Marcelo Rebelo de Sousa, prevê que os pagamentos em dinheiro vivo na maioria das transações, designadamente nas operações comerciais, prestações de serviços e empréstimos, estejam limitados a um máximo de 3.000 euros. 
Há, contudo, uma exceção: os estrangeiros, desde que não sejam comerciantes ou empresários, podem fazer pagamentos em dinheiro vivo até 10.000 euros. Este foi um dos pontos mais criticados pelo Banco Central Europeu no parecer que enviou ao Parlamento, classificando a medida como discriminatória. 
O PSD ainda apresentou uma proposta para que o limite fosse aumentado para 10.000 euros para todos os cidadãos — portugueses e estrangeiros –, mas a proposta foi rejeitada pelo Parlamento.

Quando se proíbe o uso de numerário no pagamento de despesas superiores a 3.000 euros está-se, na prática, a confiscar a liquidez existente nos bolsos das pessoas, em benefício de entidades privadas, os bancos, cujo ofício é, por definição, a usura.

Ora isto só pode ser descrito como uma atividade ilícita a que chamamos roubar!

Através deste género de assalto dissimulado, a liquidez que o Estado força os portugueses a entregar aos bancos acaba por servir para financiar o próprio Estado (ou seja, para aumentar o buraco da sua já incomportável dívida), na medida em que força a transferir, das pessoas para os bancos, a liquidez que estes já não têm, assegurando assim o cumprimento das regras de solvabilidade sem o que não podem ir buscar dinheiro ao BCE em troca de títulos de dívida soberana portuguesa.

As imparidades, boa parte das quais está associada a créditos fraudulentos à burguesia rentista (nomeadamente aos pândegos das PPP), e às insanavelmente desorganizadas, improdutivas e corruptas empresas públicas, agravam a insolvência latente dos bancos, cujo negócio tem aliás sido também seriamente prejudicado pela política de destruição das taxas de juro praticada pelos bancos centrais em nome da monetização de dois buracos negros: a dívida global, e o risco de perda em contratos de derivados especulativos que ascendem a mais de 10x o PIB mundial!

Finalmente, quando os bancos quebram, ou pré-quebram, como quebraram o BPN, o BES e o Banif, e pré-quebraram o BCP, o Montepio e a Caixa Geral de Depósitos, resta uma de duas soluções:

— ou encontrar um cangalheiro da área que compre a sucata (foi o que sucedeu ao BCP e ao BPI), ou forçar os depositantes distraídos, idiotas ou gananciosos, mais a generalidade dos contribuintes do país, a resgatar por dezenas de milhar de milhões de euros os bancos em quebra. Tudo, claro, em nome da dita estabilidade do sistema financeiro e, agora que somos governados por uma Geringonça que ainda não saiu do armário, mas que é Geringonça, em nome também de sacrossantos bancos públicos como a Caixa Geral de Depósitos (concerteza!) e o Montepio abençoado pelo misericordioso Pedro Santana Lopes. Os bancos, depois destas operações de descapitalização intensiva, tornam-se, na realidade, espetros da ruína que nos espera. Ou seja, zombies político-financeiros.

Mas o que é extraordinário hoje é que sejam os indigentes políticos comunistas, maoistas e trotskystas, do PCP e do Bloco, os principais paladinos desta expropriação capitalista e desta destuição de valor, ambas ilegais e criminosas, dos portugueses que poupam, e até dos que não poupam!

Votem no vermelho, e na rosa, mas depois não se queixem. O 'depois', no entanto, acabará por chegar, talvez mais cedo do que alguns pensam e a maioria deseja.

domingo, julho 16, 2017

PCP quer entrar no Governo


Uma ideia lógica, mas tardia?


Jerónimo de Sousa: “O PCP sempre afirmou que fará parte de um Governo que corresponda a avanços, uma interrupção com a política de direita. Propomos uma política alternativa, patriótica e de esquerda, com grandes eixos centrais no plano económico, social, europeu. Insisto nesta ideia, o PCP será Governo se o povo português quiser”. DN, Lusa 16 DE JULHO DE 2017 09:00.

O padre Jerónimo tem o missal da Frente Popular cada vez mais à vista de todos. Álvaro Cunhal chamou-lhe Patriótica, na boa linha estalinista do socalismo num só país (1). Ao contrário dos outros padres, não segue a máxima que garantiu a reconhecida longevidade do Crisitianismo: a César o que é de César, a Deus o que é Deus.

Assim sendo, pela promiscuidade evidenciada entre o Padre Nosso marxista-leninisa-estalinista, as infiltrações no aparelho de estado (sobretudo nos braços judicial, educativo, e cultural), a força, embora declinante, nas burocracias sindicais e nas autarquias, somadas à não despicienda receita fiscal do Estado e da União Europeia de que vivem, sobra-lhes cada vez menos credibilidade e consistência. Ou seja, tal como o marxismo-leninismo em geral, o PCP foi um breve sonho de inverno. Até os santos pastorinhos e Nossa Senhora de Fátima os ultrapassaram, em audiência local, mas sobretudo no plano do internacionalismo militante!

As declarações de Jerónimo de Sousa à Lusa, em 16 deste mês, têm no entanto um significado na espuma dos dias que convém analisar. Desde logo, exprimem um desejo há muito reprimido da nova geração de dirigentes comunistas. Por outro lado, ultrapassaram uma vez mais o Bloco no que é a evidente estratégia desta frente de extrema-esquerda que Francisco Louçã (2) persegue desde que o conheço: converter os socialistas burgueses e pequeno-burgueses do Partido Socialista ao verdadeiro socialismo revolucionário de Léon Trotsky.

Desde que a Geringonça nasceu, apesar do seu oportunismo desesperado, que defendo a sua formalização numa verdadeira frente popular pós-moderna. Defendi e defendo, sim, a constituição de um governo de coligação entre o PS, o PCP e o Bloco, onde o PS seria claramente predominante, mas onde comunistas e socialistas revolucionários teriam pastas ministeriais de relevo em domínios como a educação, a cultura, o emprego, o ambiente, a agricultura e o poder local.

Só assim podemos fazer a prova do algodão das esquerdas!

E só assim, também, haverá lugar a uma refundação do corrompido, decadente, e incompetente sistema partidário que temos.


NOTAS

  1. O chamado socialismo num só país resulta de uma teoria contra-intuitiva do marxismo-leninismo, desenvolvida por Nikolai Bukharin, em 1925, e adotada por Estaline na sequência das sucessivas derrotas das revoluções socialistas na Europa. A discussão teórica desta polémica levar-nos-ia muito longe, mas importa aqui reter que o revisionismo da revolução socialista mundial preconizada na consigna Proletários do Todo O Mundo, Uni-vos! gozou de alguma plausabilidade num país como a Rússia, dada a sua extensão territorial e autonomia energética. O socialismo num só país chamado Rússia exigiu, todavia, uma condição a priori: jamais ser uma democracia, mas tão só uma ditadura burocrática (propagandisticamente apelidada de ditadura do proletariado), onde o antigo czar fora substituído pelo presidente do comité executivo do comité central do partido único que comandava o estado e toda a sociedade russa. O velho despotismo asiático russo, dirigido por uma aristocracia rural e por um príncipe absoluto rodeado de cortesão e burocratas, tão bem caracterizado por Karl Marx, não deu lugar a qualquer forma de socialismo, mas apenas à transição forçada (na realidade, acelerada e brutal) de uma secular sociedade campesina para uma sociedade industrial. Ou seja, o que a burguesia fraca e essencialmente clientelar da Rússia não soube, não quis, não pôde fazer, isto é, introduzir o capitalismo na Rússia, fizeram-no Lenine, Trotsky e sobretudo Estaline, ainda que em nome de uma liturgia completamente degenerada. O resultado foi, sobretudo depois da derrota de Hitler, um arquipélago continental (a URSS) politicamente herdeiro do cesarismo autocrático que sempre predominou na Rússia, onde se fez a experiência, não do socialismo num só país, mas antes do capitalismo de estado num só país. Este começou por falhar desde o início da Revolução Russa (1917), isto é, desde o assassinato do czar e da família próxima, prolongando a miséria e o sofrimento de milhões de pessoas até ao colapso da União Sociética em 1991. O capitalismo de estado num só país procurou alternativas alargando o espaço vital da Rússia até às capitais do que viria a ser conhecido como Europa de Leste. A descida desta cortina de ferro estalinista, como lhe chamou Churchill (1946), foi ainda uma maneira de acelerar a entrada da revolução industrial em países atrasados sob todos os pontos de vista. A guerra e a indústria de guerra a isso ajudaram. Mais tarde, a mesma receita estendeu-se à Ásia (protagonizada pela China e pelo seu principal líder, Mao Tsé-Tung), e o mundo bipolarizou-se de vez, entre duas formas de capitalismo: uma democrática, caracterizada pela separação institucional de poderes (legislativo, executivo e judicial), pela liberdade de expressão, de organização e de iniciativa, e sobretudo pela afirmação dinâmica do Estado de Direito, outra, cesarista e burocrática, onde nunca houve qualquer expressão de democracia, nem de liberdade. Sabemos bem como o capitalismo de estado, cesarista, burocrático e despótico, num só país, ou mesmo estendido a mais de metade do mundo demográfico viria a fracassar redundou num estrondoso fracasso. A prova do nove viu-se no colapso da antiga União Soviática. A prova real será em breve observada na China, quando os picos do crescimento (demográfico, energético e financeiro) originarem o colapso do mandarinato sediado em Pequim. A tensões externas que realmente afetarão a China começaram onde menos se esperava: na Coreia do Norte. Regressando a Portugal, parece evidente que o querido Governo Patriótico de Esquerda desejado por Jerónimo de Sousa, por maioria de razão, se não é uma forma de puro oportunismo destinado a segurar a relação parasitária que o PCP mantem há décadas com o aparelho e os orçamentos de estado, então será uma de duas coisas: ou uma perigosa fuga em frente pressionada pela desagregação da classe média (o populismo tem várias máscaras), ou então, o início de uma lenta reconversão ideológica do partido que ainda hoje se confunde com Álvaro Cunhal. Perceberemos em breve, certamente depois da spróximas eleições autárquivas, o que poderemos esperar das palavras de Jerónimo de Sousa. 
  2. Como não renunciou publicamente a esta forma de fé, presumo que o Professor Francisco Louçã, além de conselheiro do estado burguês que temos, continue a ser um dos principais dirigentes da obscura IV Internacional.



quinta-feira, julho 13, 2017

Gafanhoto Lula


A corrupção é uma forma de canibalismo e fuga.


URGENTE: Lula é condenado a nove anos e meio de cadeiaJuiz Moro o sentenciou por corrupção e lavagem de dinheiro. É a primeira vez na história do Brasil que um ex-presidente é condenado por receber propina 
VEJA. Por Rodrigo Rangel access_time 12 jul 2017, 19h09 - Publicado em 12 jul 2017, 13h57 

O juiz Sergio Moro condenou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva a nove anos e meio de prisão pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. A sentença, anunciada nesta quarta-feira, é a decisão derradeira de Moro no processo em que o petista foi acusado pela força-tarefa da Lava-Jato de receber propina da OAS, uma das empreiteiras do chamado clube do bilhão, que se refestelou nos últimos anos com contratos bilionários na Petrobras. Entre as vantagens recebidas por Lula, segundo a acusação, está um apartamento tríplex no balneário do Guarujá, em São Paulo. É a primeira vez que um ex-presidente do Brasil é condenado por corrupção.

A corrupção é uma forma de canibalismo e fuga. E o problema maior surge quando o impulso predador dá origem a enxames de animais dominados pela serotonina. Esta conclusão —"...quando um gafanhoto se lança para devorar um dos seus pares, produz mais serotina, e tem, em princípio, algo que poderíamos arriscar dizer ser um estado de profundo prazer"— apresentada por Emanuel Dimas de Melo Pimenta no seu mais recente livro, O Homem Gafanhoto, é o resultado de um estudo, apresentado em 2008, da autoria do biólogo Stephan Rogers, da Universidade de Cambridge.

Esgotada em boa medida a retórica da política partidária, que foi entretanto capturada por burocracias que já só lutam pela sua própria sobrevivência, babando na maoiria dos casos fórmulas mais ou menos elaboradas, ou alarves, de demopopulismo impotente, a análise das causas orgânicas da decadência em curso de uma civilização abraços com os limites do seu próprio crescimento tem migrado com extaordinários resultados para a Teoria Geral dos Sistemas, os Estudos de Ciência, Tecnologia e Sociedade, a Biologia, a Ecologia e as Neuro-ciências. O Marxismo-Leninismo, Hobbes e o darwinismo social estão claramente ultrapassados, e são no essencial inúteis para compreender os limites do nosso crescimento e a necessária metamorfose por que as sociedades humanas terão que passar se quiserem sobreviver. O tempo que nos resta para provocar esta metamorfose é já muito curto, mas se o não conseguirmos, o canibalismo e a corrida para o precipício de uma possível extinção em massa da espéce humana parece cada vez mais provável.

Será possível vacinar centenas de milhões de pessoas com um inibidor dinâmico de serotonina? E se fosse, seria este o caminho necessário à emergência de uma sociedade humana global diferente da que temos? Não sei.

O que sei, e me parece crucial num momento em que tantos políticos, financeiros e empresários, já para não falar da arraia miúda, mergulham na corrupção, tanto mais brutal e insaciável quanto mais elevado é o patamar da cadeia alimentar, é que será menos difícil atacar o problema em estados democráticos, por mais fragilizados que estejam, do que em ditaduras e estados falhados.

Nos estados de direito democrático, pois só nestes o estado de direito existe a plenos pulmões, quando fenómenos de corrupção grave como os que envolvem um ex-presidente da república, Lula da Silva, ou um ex-primeiro ministro, José Sócrates, se multiplicam, no quadro da separação de poderes que os caracterizam, o poder judicial assume claramente um ascendente compreensível e necessário sobre os poderes legislativo e executivo.  Ou seja, o equilíbrio rompe-se momentaneamente em nome da restauração do próprio estado de direito. Se fosse o poder executivo, ou o poder legislativo, a assumir predominância em semelhante estado de necessidade institucional, tal significaria automaticamente que estaríamos perante uma ditadura ou quase-ditadura.

Ou seja, e para terminar com uma referência a Portugal, a hipótese da queda de um anjo chamado António Costa ocorrer mais cedo do que se crê não é totalmente disparatada, apesar da cortina de fumo e fantasia estendida diariamente nos principais órgãos de comunicação social por verdadeiros agentes de propaganda e contra-informação. O downburst que limpou do seu governo meia dúzia de secretários de estado que, recorde-se, o primeiro-ministro há meses declarara como obviamente inamovíveis, prova que o valor substancial das suas palavras está a sofrer uma depreciação acelerada.

O caso Siresp ainda vai no adro. E porque o poder judicial tem neste momento mais força legítima do que os outros dois, onde, não por acaso, as redes de corrupção se instalaram profundamente e há muito, eu recomendaria ao presidente da república Marcelo Rebelo de Sousa um Plano B para o governo e a geringonça que o sustenta. Na minha modesta opinião, talvez não venha a ser necessário dissolver o parlamento. Bastará, quando outro downburst ocorrer, substituir António Costa por outro "socialista".

segunda-feira, julho 10, 2017

Marcelismos

Marcello Caetano (Primeiro Ministro): "Conversas em Família"

No primeiro marcelismo o Expresso salvava o país do Big Brother, neste segundo marcelismo, felizmente, temos o Observador.


A substituição de duas insignificâncias por duas insignificâncias iguaizinhas não alteraria nada. O prolongamento das férias do dr. Costa por 20 ou 30 anos alteraria imenso.
Não tem sido um espectáculo agradável, excepto para apreciadores da incompetência, do descaramento e da radical ausência de dignidade. É, em suma, uma gente literalmente abjecta. Perante a tragédia, eles decretam o caso resolvido. Perante o desleixo, lembram desleixos maiores. Perante as dúvidas, confessam sentimentos. Perante as câmaras da TV, dão abraços. Perante a culpa, acusam eucaliptos e furriéis. Perante o caos, pedem avaliações de popularidade. Perante a obrigação, partem de férias para Ibiza, a subjugar espanhóis com a barriga e um par de cuecas (Alberto Gonçalves, Observador).
E não, não é a falta de dinheiro que explica o roubo em Tancos ou as mortes no incêndio de Pedrogão Grande. Se há menos dinheiro é preciso definir prioridades e aplicá-lo no que é importante e não no que serve objectivos eleitoralistas ou de vida de rico com casa de pobre (Helena Garrido, Observador).
O BE lamenta agora que o governo de António Costa tenha “ido além da meta estabelecida para fazer, em Bruxelas, o número do défice mais baixo da história”. Parece assim que temos mais um governo que foi “além da troika”, sendo neste caso a troika composta pelo PS, o PCP e o BE. Enfim, nesta matéria não há milagres, embora haja ilusões. Algumas ficaram expostas nestas semanas de tragédia, caos e irresponsabilidade (Rui Ramos, Observador).

History Does Not Repeat Itself, But It Rhymes
, disse ou escreveu alguém um dia na América.

Assim, e mudando o que há a mudar, a verdade é que no mês em que um primeiro ministro português foge de férias para Espanha depois de duas gravíssimas falhas de segurança e uma tragédia humana que só encontra precedente nas tristemente famosas inundações de 1967, algo feriu gravemente a credibilidade do regime e do país.

Em 1967, inundações bíblicas afogaram centenas de pessoas na região de Lisboa. A censura de então emendava os titulares da imprensa, de "centenas", para "dezenas" (ver vídeo).

No incêndio da Pedrógão Grande também se fala de 64 mortos e 200 feridos (como se fosse uma contagem definitiva), ocultando-se invariavelmente o número de feridos muito graves ainda internados, um dos quais foi entretanto transferido para uma unidade hospitalar em Valência (Espanha) para complexas intervenções cirúrgicas de implantação de pele.

Em 1967 reinava ainda em Portugal um ditador chamado António de Oliveira Salazar. Caiu por causa de uma cadeira, durante umas férias no Estoril, em 1 de agosto de 1968. Desta queda resultou um traumatisma craniano irrecuperável. O regime seria derrubado por um golpe militar cinco anos e nove meses depois.

No intermezzo, hesitante, fraco, governou um professor universitário muito querido entre os seus alunos chamado Marcello Caetano. A degradação do regime era gritante. A economia, que andara tão inesperadamente bem na década de 1960, sofria em 1973-74 os efeitos financeiros nefastos da primeira grande crise petrolífera. Mas o pior mesmo foi uma guerra colonial teimosa e estúpida, que durava desde 1961, sem solução à vista, levada a cabo por umas forças armadas desfalcadas no seu quadro permanente de oficiais, e a que o regime, no entanto, estava desesperadamente agarrado.

Nesse intermezzo penoso o então primeiro ministro Marcello resolveu substituir a ação pelo afeto televisivo numa coisa paroquiana a que chamou Conversas em Família. A situação, essa, foi-se agravando semana a semana, como era previsível.

Marcelo Rebelo de Sousa (Presidente da República)

Estamos em 2017. Ainda não é agosto. Mas António Costa caiu metaforicamente da sua cadeira de governança oportunista e arrogante. Pior, fugiu (de férias) para Espanha. Há quem diga que foi apenas para evitar perguntas incómodas dos jornalistas, na esperança de que tudo se esfumasse em duas semanas de Sol e praia. Não esfumou.

Não sabemos se a Geringonça aguentará mais cinco anos e nove meses, como o anterior regime aguentou, ou mesmo se chegará ao fim da presente legislatura. O que sabemos, para já, é que António Costa partilha o poder com outro Marcelo, desta vez Rebelo de Sousa, numa espécie de cesarismo bicéfalo, destinado, porém, a cair sob o impacto do próximo abalo financeiro global. Se, até ao estalar da bolha de crédito incobrável que continua a inchar, este Marcelo não despedir António Costa, é o que acontecerá.

Há quem preveja este abalo para daqui a uns meses, e há quem aposte na segunda metade de 2018. Não sabemos. O que sabemos é que a austeridade das esquerdas é mortal.

E também sei outra coisa: a direita portuguesa continua a ser estúpida que nem uma porta!

Ou seja, está na hora de rever as opções da ação política democrática.

Atualização: 10 Jul 2017 19:29 WET

domingo, julho 09, 2017

Por uma micro-revolução agrária


Depois da migração industrial virá a migração agrária


La deslocalización a Portugal amenaza a los sectores más vitales de la economía gallega 
LA VOZ 09/07/2017 05:00 H 
Imaginemos un empresario gallego que necesita expandir su empresa. Comienza a buscar suelo y lo más barato (no lo mejor) que encuentra no baja de 100 euros el metro. Necesita ampliar plantilla, y los costes se le disparan. Hacienda no le va a echar una mano. Todo lo contrario, el año que viene ya ni siquiera le va a permitir fraccionar el IVA. Y entre tramitaciones, planes y licencias la obra acabada se le pone en el 2020.  
No le salen las cuentas. Desesperado, acude a un parque empresarial de Valença. Ve el cielo abierto cuando le ofrecen suelo urbanizado y listo para ocupar a 20 euros el metro cuadrado, bonificaciones a la contratación de portugueses que, sumadas a los sueldos más bajos, reducen el coste salarial en un 50 %. Y en materia fiscal, exención del IBI, deducción de hasta un 25 % en sociedades si reinvierte cada año un 10 % de los beneficios obtenidos. Los número cuadran.

O preço do trabalho não qualificado, dos solos e do edificado tornam Portugal neste momento um país atrativo no quadro europeu e norte-americano. Os turistas afluem como nunca de ambos os lados do Atlântico, sobretudo porque têm à sua disposição voos low cost, alojamento local barato potenciado por plataformas eletrónicas, uma enorme diversidade de oferta num território, para este efeito, confortavelmente pequeno, e, por enquanto, a segurança de um pais homogeneamente cristão.

A bolha imobiliária da requalificação urbana, e a compra maciça de casas nos centros históricos das principais cidades e vilas do país, sobretudo Lisboa, Porto e Cascais, ainda tem pano para mangas (talvez para uma década...) na Grande Lisboa e Península de Setúbal, Porto, mas também em pequenas vilas e povoações do Alentejo, Beiras e Douro Litoral.

Uma nova revolução agrária, mas desta vez sem a obsessão coletivista das esquerdas.

Em breve chegará ao nosso país uma corrida às quintas e quintinhas, para viver e descansar, mas também e principalmente para produção vinícola, hortícola e florestal especializada, recorrendo nomeadamente à agricultura dinámica e biológica. Estes produtos podem vender-se mais caros do que os que saem das estufas de Andaluzia e Marrocos. Os mercados norte-americanos e europeu, sobretudo os mercados urbanos e as classes profissionais educadas, preferem cada vez mais uma alimentação livre dos OGMs, adubos e pesticidas que contaminam a terra, as plantas e os animais, incluindo as pessoas.

No plano florestal, PPR europeus têm vindo a investir em Portugal milhões de euros, em carvalhais de tenra idade (nascedio). É bem possível que estes mesmos fundos de pensões estejam já a olhar para a micro-produção alimentar do futuro. 

De mais de 811 mil explorações agrícolas existentes em 1968, passámos para pouco mais de 264 mil em 2013 (Pordata). Presumo que houve, mais do que concentração capitalista, um grande abandono de explorações. No entanto, há outro e importante ponto a reter: existem mais de 11,6 milhões de prédios rústicos no nosso país, para um pouco mais de 8 milhões de prédios urbanos (O Cadastro e a Propriedade Rústica em Portugal). Nos Estados Unidos, em 2007, havia tão só 2,2 milhões de quintas!

Que tal agregar os micro-proprietários rurais em associações de investimento alavancado com capital importado, em vez de permitirmos que o insaciável estado burocrático e partidocrata que temos leve a cabo uma espécie de gentrificação rural, como me cheira que o rescaldo de Pedrógão Grande venha a permitir?

Está na hora de reunir o pouco capital que resta e atrair capital externo para apostar em rendimento futuro. Este passará, em grande medida, por um renascimento da agricultura e da silvicultura. No nosso país, pela dimensão das propriedades e pela topologia e natureza dos terrenos, só especializando-nos na qualidade e na ecologia chegaremos a algum lado.

Demografia e complexos coloniais


Nações Unidas | demografia


(cenários intermédios)

2030

África: +493 milhões (1.186 para 1.679 milhões)
  • Península Ibérica: -700 mil
  • Portugal: -500 mil
  • Espanha: -200 mil
  • Brasil + Angola + Moçambique: +47 milhões
    • Brasil: +20 milhões (207.848 > 228.663)
    • Angola: +14 milhões(25.022 > 39.351)
    • Moçambique: +13 milhões (27.978 > 41.437)
2050

África em 2050: + 1,292 milhões (2.478 milhões)

De que estamos à espera para potenciar a sério a CPLP, apesar dos complexos e ignorância do PCP, Bloco e PS em matéria colonial?

sábado, julho 08, 2017

O crescimento real acabou




Estagnação endividamento = cocktail implosivo


Não é por acaso que as coisas começam a correr mal, muito mal aliás, na política portuguesa. Casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão —diz o provérbio. Mas neste caso, a penúria é mais grave, pois corresponde a uma mudança de paradigma.

Como tenho vindo a escrever há anos, a procura agregada começa a cair naturalmente quando a taxa de crescimento demográfico inverte a sua tendência progressiva, mas também à medida que a tendência crescente do consumo de energia per capita atinge um pico absoluto e começa a declinar. O endividamento público e privado pode atrasar esta inversão de tendência durante algum tempo, algumas décadas até. A proliferação de bolhas especulativas pode ter o mesmo efeito de retardamento, sobretudo quando associada a políticas monetárias expansionistas e à destruição das taxas de juro que, por sua vez, forçam a transferência das poupanças das classes médias para os cofres vazios de estados socialmente insustentáveis, e para as elites dedicadas à extração de rendas e à especulação financeira.

Sobre esta verdade crua e socialmente explosiva pousa um véu de mentira e formação artificial de consensos, que nos ilude a cada dia que passa até que o inevitável desastre nos bata à porta—sob a forma de um despedimento, da ruína fiscal, ou da gentrificação urbana (o novo desporto do Partido Socialista na cidade de Lisboa) que nos empurra de volta à aldeia dos nossos avós, ou mesmo para a indigência pura e dura.

É pela natureza desta metamorfose anunciada, que as democracias representativas degeneraram em regimes de mentira demopopulista, essencialmente impotentes e corruptos. E é substancialmente por causa do esvaziamento fiscal dos estados que as suas burocracias, e em particular as suas castas partidárias, se agarram desesperadamente aos lugares que conseguiram pela via dos vasos comunicantes que ligam esta elite cada vez mais desajustada à riqueza criada. Por enquanto, esta componente dos 1% mais afortunados (a começar pelos deputados que elegemos em número excessivo, de quatro em quatro anos) continua protegida pela abstenção eleitoral de quem há muito deixou de confiar nas instituições democráticas. Mas tal almofada de conforto tem necessariamente os dias contados. Bastará analisar as causas de fenómenos como o Brexit, ou as eleições de Trump e Macron, para vermos como, também em Portugal, a situação partidária do regime (PCP, PS, PSD, CDS/PP) está por um fio.

Mas voltemos ao fundo da questão. Os gráficos não enganam. Por exemplo, a evolução dos consumos de energia nalguns países de referência revelam uma coincidência entre pico do consumo energético e pico do crescimento. Ou seja, a realidade conhecida do crescimento entre 1870 e 1970, e entre 1970 e 2004-2005, morreu.

Picos do consumo de energia per capita:

Estados Unidos: 1978
Alemanha: 1979
Japão: 2000
França: 2004
Canadá: 2005
Espanha: 2005
Portugal: 2005
Noruega: 2010
China: ?

Vejamos agora, no caso de Portugal, a situação por fonte energética.







Apenas a importação de gás natural e a produção de energia hídrica (barragens) tem crescido significativamente. Em ambos os casos trata-se, creio, de compensar a intermitência da produção eólica.

Constata-se, em suma, que tanto a produção/consumo total de energia, como o consumo per capita, começaram a declinar entre 2004-2005.

Esta constatação deve, por sua vez, ser cotejada com o declínio demográfico para completarmos uma perceção mais compreensiva do findar de um paradigma económico sobre o qual perdura ainda um discurso e metodologias, nomeadamente no terreno da macro-economia, que já pouco tem que ver com a realidade.

Por fim, há que ter bem presente a importância do petróleo, do gás natural e do carvão na civilização moderna e afluente que conhecemos. 

1 barril de crude equivale a 23.200 horas de trabalho humano produtivo (David Pimentel).

Em 2016 foram sensivelmente produzidos 80 milhões de barris de crude por dia (29,2 mil milhões/ano). Esta quantidade de crude produzido diariamente equivale a 1,856 biliões de horas de trabalho humano, i.e. 677,44 biliões de horas de trabalho/ano. Ou seja, num planeta com 7,5 mil milhões de almas, o crude consumido num ano equivale a 90.325 horas de trabalho humano. Ou seja, se todas as pessoas do planeta trabalhassem 8hr/d e consumissem a mesma quantidade de energia, cada uma delas precisaria de quase 31 anos para produzir a mesma energia que o petróleo lhe dá em cada ano que passa. É fácil, pois, perceber a importância do crude, quer na era de crescimento exponencial a que assistimos entre 1870 e 1970, quer quando esta fonte de energia começa a escassear sem que surjam alternativas com as mesmas características petroquímicas e de valor energético, acessibilidade, portabilidade e preço. Em 2015 o petróleo correspondia a 33% de todos os combustíveis consumidos (gás natural: 24%, carvão: 30%, hidroelétrica: 7%, nuclear: 4%). Mas o preço para quem consome é demasiado alto, e para quem produz, demasiado baixo.

LEITURA RECOMENDADA



The Next Financial Crisis Is Not Far Away 
Our finite World. Posted on July 2, 2017, by Gail Tverberg 

...we should expect financial collapse quite soon–perhaps as soon as the next few months. Our problem is energy related, but not in the way that most Peak Oil groups describe the problem. It is much more related to the election of President Trump and to the Brexit vote.

Atualização: 9/7/2017 1):13 WET