terça-feira, abril 13, 2010

Portugal 179

Passo a passo...



Aos que esperam de Passos Coelho uma varinha mágica que nos traga de novo a fartura fácil do cavaquismo, desenganem-se! O cavaquismo não passou de uma inundação de fundos comunitários que não voltará.

É por isso que o novo líder laranja não tem pressa. O que há para distribuir é pouco, e o que houver para redistribuir vai ser uma arena de conflitos sociais crescentes.

A economia real deslocou-se para a Ásia nos últimos vinte anos, ficando nos Estaods Unidos e na Europa uma economia cada vez mais virtual, alimentada pelos endividamentos (deficit spending) crescentes das empresas, dos governos e das pessoas. A China, mais o Japão e a Coreia transformaram-se nas locomotivas industriais do planeta, corroendo a um ritmo alucinante os potenciais produtivos do Ocidente, nomeadamente dos Estados Unidos, da Alemanha, do Reino Unido, da França e da Itália.

Se a China —que vende bens e serviços baratos a todo o mundo— está hoje enredada na armadilha do endividamento, pelo facto de ter comprado a dívida americana para além de tudo o que seria imaginável, que diremos da Alemanha que (pela via da criação do euro-marco) alimentou nos últimos vinte e cinco anos um gigantesco mercado, a União  Europeia, com bens e serviços caros — cada vez mais caros?!

Tal como a China não conseguirá cobrar tudo o que emprestou aos Estados Unidos, também a Alemanha terá que se habituar à ideia de que uma parte substancial da Europa lhe pagará parte das suas dívidas com Sol e mar. A alternativa das grandes guerras parece-me, para já, irrealizável, além de só poder agravar, e muito, os problemas!

Na origem da crise encontram-se dois fenómenos registados estatisticamente em 1972 no relatório Limits to Growth: o crescimento exponencial da população humana mundial e o consequente desgaste acelerado dos recursos energéticos e alimentares necessários a suportar um tal crescimento sem futuro.

Já em 1956 M. King Hubbert havia chamado a atenção do governo americano para o fim anunciado da era petrolífera (Peak Oil) e para a consequente necessidade de encontrar novas fontes de energia alternativa ao carvão e aos hidrocarbonetos líquidos e gasosos (ele propôs claramente o desenvolvimento da energia nuclear).

Em Fevereiro de 2005 Robert Hirsh veio confirmar estas previsões num hoje célebre relatório encomendado pelo Departamento de Energia dos EUA, Peaking of World Oil Production: Impacts, Mitigation, and Risk Management.

"The peaking of world oil production presents the U.S. and the world with an unprecedented risk management problem. As peaking is approached, liquid fuel prices and price volatility will increase dramatically, and, without timely mitigation, the economic, social, and political costs will be unprecedented. Viable mitigation options exist on both the supply and demand sides, but to have substantial impact, they must be initiated more than a decade in advance of peaking."

A equação energia cara+trabalho caro torna impossível a manutenção de economias competitivas num ambiente onde a própria impossibilidade de tomar de assalto as fontes energéticas mundiais (em resultado dos movimentos anti-coloniais do pós-guerra e sobretudo depois da constituição da OPEP em 1960) obrigou o Ocidente a promover a abertura multilateral dos mercados mundiais e a livre circulação de mercadorias e capitais numa lógica de modificação profunda dos termos de troca mundiais.

Sabe-se hoje que a resposta americana e europeia ocidental foi esta: exportar a economia real para os países de mão-de-obra barata, ou ricos em matérias primas energéticas e alimentares. Um dos objectivos seria levar a uma inflação crescente dos preços dos bens e serviços nas economias industriais avançadas (beneficiando assim os mercados internos), ao mesmo tempo que se pressionava uma simultânea perda progressiva do poder de compra da classe média e dos trabalhadores em geral nestes mesmos países, por via dum ataque constante aos respectivos rendimentos do trabalho. Foi o que aconteceu, embora sem os resultados esperados.

O chamado crony capitalism, que chamou a si a tarefa de realizar este trabalho sujo em nome da liberdade dos mercados, da competitividade e da flexibilidade laboral, porque apenas serviu os especuladores financeiros mundiais, com particular destaque para a cúpula formada pelos grandes bancos e sociedades financeiras americanas: Goldman Sachs, Bank of America Corp., J. P. Morgan Chase & Company, Citigroup, etc., nem sequer se preocupou com as consequências previsíveis dos seus actos.

O resultado está à vista: ao disfarçarem a destruição efectiva dos tecidos produtivos do Ocidente com um inefável manto de consumismo festivo e ensino permanente, e a promessa de uma protecção social ilimitada, esconderam uma realidade que se viria a revelar fatal: a implosão sucessiva das capacidades produtivas competitivas do Ocidente e o endividamento geral das sociedades. Este foi o Cavalo de Tróia que a ganância financeira do Ocidente comprou ao Oriente. O declínio da Europa e dos Estados Unidos parece, pois, um cenário irreversível.

Resta saber se teremos uma aterragem suave, ou com muitos acidentes de permeio.


POST SCRIPTUM — a entrevista dada por Pedro Passos Coelho a Miguel Sousa Tavares confirma a boa impressão que tenho deste candidato a primeiro ministro do meu país.


OAM 681—13 Abril 2010 11:07

Crise global 75

Empire - What future for capitalism?



Empire - What future for capitalism? - Part 2

Um debate esclarecedor sobre as implicações profundas da crise actual. Participam Joseph Stiglitz,  Tariq Ali,  Ann Pettifor,  Ruth Lea,  entre outros.


OAM 680—13 Abril 2010 00:14

domingo, abril 11, 2010

Portugal 178

Uma esperança cor-de-laranja
Afinal parece que há um diamante no PSD


Se as sondagens não descolarem em Janeiro [de 2009, Manuela Ferreira Leite] deveria mesmo demitir-se e dar lugar aos jovens turcos do partido. O Pedro Passos Coelho, se não tiver teias de aranha nos sótãos por onde andou, talvez seja a melhor alternativa do PSD nas presentes circunstâncias. — in O António Maria (25 Novembro 2008)

Acabei de ouvir o discurso de encerramento do congresso laranja da boca do seu novo e jovem líder, Pedro Passos Coelho.  O contraste com José Sócrates, e mesmo com a generalidade dos políticos que nos trouxeram até à crise aguda em que estamos (Cavaco Silva incluído), foi flagrante. Em vez de papaguear pelo tele-ponto o discurso escrito por qualquer coacher contratado para o efeito, falou durante cerca de uma hora, claramente, com eloquência que baste, sem floreados, indo directo à ideologia, e chamando os bois da falta de decência e da corrupção pelos nomes, sem por isso precisar de entrar em pormenores mais ou menos sórdidos. Falou sem rede dos problemas sérios que temos pela frente, das correcções inadiáveis que é preciso fazer no actual regime constitucional, e sobretudo do pouco tempo que temos para dar a volta ao estado miserável em que os piratas do PS e os barões do PSD, mais os anões à esquerda e à direita do espectro parlamentar, deixaram Portugal ao fim de 35 anos de democracia.

A quase ausência dos barões, condes e escribas neste congresso é um sinal muito revelador do que poderemos esperar da nova liderança do PSD. Não terá sido por acaso que este congresso teve lugar em Carcavelos, onde vivo e onde o PSD domina desde 1974 (apesar do meu voto ter ido sempre parar ao PS, até às penúltimas eleições). A presidente da Junta de Freguesia, Zilda Costa da Silva, é uma mulher prática e tem motivos para estar hoje muito satisfeita. O congresso que confirmou a nova maioria dirigente do PSD ocorreu a escassos quinhentos metros da minha praia, onde todos os dias, chova ou faça Sol, centenas de surfistas e praticantes de bodyboard, contribuem para fazer de Lisboa (à grande urbe me refiro) o melhor destino europeu para 2010. O congresso não foi na Quinta da Marinha, mas em Carcavelos (mais precisamente nos Lombos Sul), e este simples facto faz toda a diferença que era preciso fazer!

Ao preparar esta reacção à confirmação de Passos Coelho dei-me conta que já lhe havia dedicado (1) sete artigos favoráveis e uma referência desagradável, desde 2008. E sabem uma coisa: acertei no vaticínio inicial! Além de ter previsto em Novembro de 2008 que o jovem político sucederia a Manuela Ferreira Leite, confirmou-se o meu desejo de que houvesse uma separação de águas ideológica entre o PSD e o PS.

A nova liderança cor-de-laranja defende um posicionamento muito próximo do dos democratas norte-americanos — espécie de feliz fusão criativa das ideias dos três mosqueteiros agora encarregues de preparar uma alternativa certa à falida farra "socialista". Não foi por acaso que Passos Coelho deu ao seu livro de combate para esta caminhada o título Mudar (Change), numa clara referência à principal consigna programática que levou Barack Obama ao poder. A mensagem é clara e vai originar uma praxis correspondente, sob pena de morrer à nascença. Tal como Obama chegou a uma América exangue e desmoralizada, com o firme propósito de alterar algumas regras do jogo e de impor decência ao mais poderoso país do planeta, também nós esperamos que Passos Coelho e a nova direcção do PSD sejam capazes de instaurar uma nova linguagem política e de renovar a democracia no sentido de uma radicalmente diversa cooperação entre os eleitos e os respectivos eleitores.

Pedro Passos Coelho começou desde hoje a impor um novo ritmo ao país. Cavaco Silva, pelo semblante esverdeado de Nunes Liberato, já terá percebido o recado: se o actual presidente da república se sente bem com os poderes que tem, o melhor mesmo é fazer-se a revisão constitucional antes das eleições presidenciais. Além do mais, a Assembleia da República não tem que pedir licença, nem ao governo, nem ao presidente, para fazer a sua obrigação, ou exercer os seus poderes próprios. O recado foi uma carambola certeira para Sócrates e Cavaco. Sempre quero ver como irão reagir estas duas desacreditadas criaturas do regime.

Fortalecer o Estado onde este precisa, e libertar a sociedade civil da presença burocrática, autoritária e corrupta do Estado onde quer que este asfixie a liberdade e a criatividade democráticas, é a revolução tranquila de que precisamos. Estabelecer uma verdadeira rede social —física, pessoal e electrónica— entre o poder delegado pelo voto e a cidadania, é outra mudança inadiável de que o actual regime necessita urgentemente para atacar com sucesso a presente crise, e sobretudo livrar-se do demo-populismo que nos conduziu ao actual estado de coisas. Finalmente, olhar o mar de frente e retomar o pensamento estratégico como a única alavanca efectiva que nos permitirá sair do aperto diplomático em que estamos, é o caminho certo que Luís Amado, sendo um bom ministro, não conseguiu seguir com a determinação desejável. Estamos a um passo de sermos postos temporariamente fora do euro-marco, e a outro de vermos a Espanha de Madrid substituir Portugal no nosso próprio território aéreo-marítimo. As velhas alianças atlânticas estão sob pressão, se é que não ruíram já. E as novas querem nascer e nascerão em breve. A oportunidade para Portugal é de ouro. Mas se a desperdiçarmos, ficaremos sob um domínio efectivo espanhol por todo este século, ou mais!

A vitória de Pedro Passos Coelho —um pai de família normal, com profissão e morada certas— acaba de colocar uma nova geração no poder. O caso de polícia em que se transformou o PS e o seu intolerável líder facilitarão sem dúvida a vida ao próximo poder laranja que em breve assumirá a governação do país. Mas já agora, os tempos que se vão seguir poderiam ser também uma boa oportunidade para levar Francisco Assis e António José Seguro, entre outros, a unir esforços para refundar o Partido Socialista, como Passos Coelho acaba de refundar o Partido Social Democrata.


NOTAS
  1.  Passos em frente; A armadilha de Cavaco; Para Passos Coelho, Cavaco é um empata; Se o Pedro Passos Coelho...; O PSD precisa de sumo novo!; Geração Europa e a proximidade de Aquarius (este artigo versa, na realidade, o furacão Paulo Rangel, e é de facto injusto para Passos Coelho); Economistas lentos; Excitações da semana/ "Relvas lança ‘think-tank’ para preparar 2009".


OAM 679—11 Abril 2010 17:57

sexta-feira, abril 02, 2010

Crise Global 74

Quem irá saldar as dívidas públicas?

Depois de os governos terem resgatado os bancos, emprestando-lhes dinheiro virtual (boa parte dele só existe nos computadores!) a custo zero, ou quase, para que depois estes estejam agora numa corrida às dívidas soberanas bem remuneradas de um número crescente de Estados falidos, com grande colaboração dos famigerados paraísos fiscais, quem irá resgatar os países atolados em contas por pagar depois deste Verão?

Irish Banks Need $43 Billion on ‘Appalling’ Lending (Update4)

March 31 (Bloomberg) -- Ireland’s banks  need $43 billion in new capital after “appalling” lending decisions left the country’s financial system on the brink of collapse.

The fund-raising requirement was announced after the National Asset Management Agency said it will apply an average discount of 47 percent on the first block of loans it is buying from lenders as part of a plan to revive the financial system. The central bank set new capital buffers for Allied Irish Banks Plc and Bank of Ireland Plc and gave them 30 days to say how they will raise the funds.

“Our worst fears have been surpassed,” Finance Minister Brian Lenihan said in the parliament in Dublin yesterday. “Irish banking made appalling lending decisions that will cost the taxpayer dearly for years to come.”

Post-Apocalyptic zombie finance

March 23 (ASIA Times Online) -- Governments averted a financial apocalypse in 2009 by bailing out the bankrupt banking system. But who will bail out the governments? The answer for the time being is that they will bail themselves out at the expense of the private economy. In the post-apocalyptic financial world, private banks have turned into flesh-eating zombies that cannibalize the private economy in order to finance government borrowing requirements not seen since World War II.

… The US Treasury has become dependent on global private banks. According to Treasury data, $108 billion of the $180 billion in net foreign purchases of US Treasury securities during the three months through January came from London and the Cayman Islands. — By Spengler


Lipsky Says Debt Challenges Face Advanced Economies (Update1)

March 21 (Bloomberg) -- Advanced economies face “acute” challenges in tackling high public debt, and unwinding existing stimulus measures will not come close to bringing deficits back to prudent levels, said John Lipsky, first deputy managing director of the International Monetary Fund.

All G7 countries, except Canada and Germany, will have debt-to-GDP ratios close to or exceeding 100 percent by 2014, Lipsky said in a speech today at the China Development Forum in Beijing. Already this year, the average ratio in advanced economies is expected to reach the levels seen in 1950, after World War II, he said. The government debt ratio in some emerging market nations had also reached a “worrisome level.” — By Joyce Koh.

O grande dilema é este:
  1. a China acaba de proibir a compra-e-venda de terrenos para construção no país, ao mesmo tempo que lança um vasto programa de habitação social nova e reparação de casas e infraestruturas degradadas (The Daily Bell). Por outro lado, diminui drasticamente as suas compras de moeda (1) e de dívida americana (2). Razões para estas duas decisões cruciais? Não pode continuar a financiar as suas exportações para o seu maior cliente, os Estados Unidos, pois de volta apenas recebe IOU sem garantias — i.e. dinheiro puramente virtual.
  2. a Alemanha ameaçou os PIIGS de expulsão da moeda única europeia (ou pelo menos de uma quarentena apertada), pois percebeu que não pode continuar a financiar as suas exportações para países que há muito esgotaram os respectivos recursos estratégicos e cujo endividamento público e privado entrou numa curva exponencial. Basta reparar no crescimento assustador do serviço da dívida em Portugal, Espanha, Irlanda, Grécia, mas também em França, Itália, Japão, Reino Unido e Estados Unidos (5 dos G7), para imaginar onde tudo isto vai acabar por levar a economia mundial.
Os maiores exportadores globais de bens transaccionáveis (União Europeia, China, Alemanha, Estados Unidos e Japão) estão numa situação potencialmente mais explosiva do que aquela em que encontram os detentores das principais reservas energéticas do planeta (Arábia Saudita, Irão, Iraque, Rússia, Brasil). Estes últimos continuarão sem grandes problemas, na medida em que o petróleo (3) e o gás natural escasseiam e a população mundial continua a expandir, precisando de quantidades crescentes de água potável e alimentos. Os exportadores de bens industriais, pelo contrário, precisam de vender bens de que não precisamos ou que não podemos comprar por estarmos demasiado endividados.

A recessão mundial está assim para durar. E a inflação galopante pode estar apenas ao virar de uma esquina. Na Irlanda, em Atenas, Madrid, Lisboa ou Londres!


NOTAS
  1. Reserves Shifting Away from the Dollar? — Mar 31, 2010 (Roubini) -- Global central banks, which managed over US$8 trillion in reserves at the end of 2009, according to IMF, estimates have been gradually diversifying their portfolios. The dollar share has inched down since 2000. The appreciation of the U.S. dollar and central bank participation in the global flight to safety slightly boosted the dollar share in 2008 to around 65% of the institutions that report their currency composition.
  2. China sells $34.2bn of US treasury bonds -- February 17, 2010 (Guardian) -- China sold $34bn (£21.5bn) worth of US government bonds in December, raising fears that ­Beijing is using its financial ­muscle to signal that it has lost confidence in American economic policy.

    US treasury figures for the period ending in December 2009 show that, following the sale, China is no longer the largest overseas holder of US treasury bonds. Beijing ended the year sitting on $755.4bn worth of US government debt, compared to Japan's $768.8bn.

    China Slows Purchases of U.S. and Other Bonds -- HONG KONG, April 12, 2009 (The New York Times) -- Reversing its role as the world’s fastest-growing buyer of United States Treasuries and other foreign bonds, the Chinese government actually sold bonds heavily in January and February before resuming purchases in March, according to data released during the weekend by China’s central bank.
  3. Energy prices rally on hopes for demand — SAN FRANCISCO, April 1, 2010(MarketWatch) -- Energy futures rallied Thursday, with oil rising for a fourth consecutive session to nearly $85 a barrel and natural gas prices rising after a smaller-than-expected increase in storage levels in the U.S.


OAM 678—2 Abril 2010 1:59 (última actualização: 11:56)

terça-feira, março 30, 2010

Portugal 177

Passos em frente

A artilharia pesada de Pedro Passos Coelho já começou a desbastar o terreno. Ângelo Correia bombardeia Cavaco, Mira Amaral atinge o cabotino Mexia nas pernas, a Assembleia Municipal de Lisboa bloqueia António Costa, e Morais Sarmento desfaz Granadeiro por K.O. em 10 segundos.

Este fogo de barragem vai continuar. Prevejo que o próximo ataque ocorra em plena Assembleia da República e leve a virtual maioria parlamentar do PS ao tapete quando esta começar a tentar aplicar as suas fantasias orçamentais, e a usar o PEC para safar a tríade de Macau e os aristocratas do BCP e do BES (por sinal em muito maus lençóis!)

Entretanto o novo líder laranja vai consolidar a sua maioria no próximo congresso do PSD, já em Abril, e formar um governo sombra à boa maneira inglesa. Depois..., bem depois é o ataque final ao bando de piratas que tomou de assalto o PS e tem levado o país à ruína. Não creio que esperar pela eleições presidenciais —a armadilha de Cavaco e de Sócrates— seja uma boa ideia. Assim que as sondagens mostrarem claramente que a derrocada "socialista" está em marcha (e já está em marcha), o senhor Sócrates deve levar com a merecida moção de censura pela espinha acima.

Ninguém compreenderia que Passos Coelho deixasse, por mero cálculo político, o país entregue a um vigarista compulsivo e a uma criatura inerte subitamente agarrada ao poder. E a explicação é simples de entender: se Pedro Passos Coelho deixasse passar a janela de oportunidade que em breve se abrirá (mas por pouco tempo), para dar uma vassourada urgente no regime —exibindo argumentos que não poderiam deixar de ser considerados oportunistas—, o resultado mais provável seria ter dois inimigos consolidados pela frente durante os próximos quatro e seis anos, o primeiro em São Bento, e o segundo em Belém. Não creio que erro tão crasso venha a ser cometido.

O caminho faz-se caminhando, mas no caso em apreço o caminhante fez já uma longa caminhada. Agora é preciso que convença os portugueses, mostre o seu patriotismo estratégico e a sua ética democrática, e por fim tome as rédeas do poder. Antes que seja tarde!

Do que sei, não vejo como poderá a Alemanha deixar de colocar os PIIGs numa espécie de quarentena do euro durante pelo menos quatro anos, ou seja, até 2015. O colapso das dívidas soberanas actualmente em curso de forma subterrânea precipitar-se-à em força e em cascata antes do fim deste ano. Há mesmo quem preveja o próximo mês de Junho para início da derrocada. Se for assim, a tentação de impor um governo de crise por parte de uma aliança contra-natura entre Cavaco e Sócrates será bem mais plausível então do que agora parece.

  
OAM 677—30 Mar 2010 22:48 (última actualização: 23:27)

domingo, março 28, 2010

Portugal 176

A armadilha de Cavaco


Passos Coelho deve dar sinais claros de que a sua agenda não está sincronizada com a do actual presidente da república, até que este perceba que o melhor mesmo é desistir da recandidatura.

Cavaco felicita Passos Coelho e diz que Portugal precisa de estabilidade

Segundo o Presidente, o país deve ter “muito cuidado” para não contribuir para que os mercados internacionais julguem mal o programa português porque assim as famílias e as empresas terão ainda de pagar “juros mais elevados”. — in Público.

Os militantes e simpatizantes do PSD têm uma costela de sadomasoquismo e outra de estupidez. Só assim se pode explicar a sua fidelidade canina a Aníbal Cavaco Silva. Para o actual presidente da república o PSD tem sido apenas uma caixa de Kleenex cujos lenços —i.e. dirigentes— usa e deita fora com displicência, para sua óbvia e estrita conveniência. Daí ter feito tudo para impedir a eleição de Passos Coelho —um velho inimigo (que eu, na minha ignorância da história do PSD ignorava)—, incluindo a cunha que seguramente meteu a Durão Barroso e Manuela Ferreira Leite para que estes empurrassem Paulo Rangel para a arena eleitoral contra o recém eleito presidente do PSD. O objectivo seria, no mínimo, impedir uma vitória expressiva da Pedro Passos Coelho. Mas o tiro saiu pela culatra. E o morto, desta vez, foi (ou será) Cavaco Silva.

Repararam como o homem de Boliqueime se pôs em bicos de pés no dia seguinte à vitória, por uns clarificadores 62%, de Passos Coelho? E viram como o comentador-mor Marcelo começou já a perfilar-se como redentor candidato laranja para defrontar Fernando Nobre e Manuel Alegre?

O argumento de Cavaco Silva sobre a estabilidade política é pacóvio. Agita o espectro da subida dos juros maus que vêm de fora (se não estivermos muito caladinhos), como se não fosse a banca portuguesa que anda por aí há mais de dois anos a executar hipotecas e a cobrar juros usurários —chegam aos 24,9% na CGD! Alguém lhe ouviu uma palavra sequer em defesa dos mais fracos?
Cavaco ignora ou faz por ignorar uma realidade simples: os nossos credores estão-se nas tintas para o barulho que fazemos ou deixamos de fazer. O que eles querem saber, e medem com os seus próprios instrumentos de avaliação, é se vamos continuar o bacanal da despesa pública improdutiva, ou não; se os escandalosos orçamentos da Assembleia da República, do Conselho de Ministros e da Presidência da Republica vão sofrer cortes decentes, ou não; se a corrupção galopante vai ser travada, ou não; se os tribunais e a burocracia vão ser postos nos eixos, ou não. Em suma, se o lugar do Estado na sociedade vai reduzir-se a proporções razoáveis, ou se o Leviatã vai continuar a engordar como uma serpente-sanguessuga insaciável até rebentar de gula.

O espantalho que um Cavaco Silva subitamente enamorado pela prudência de José Sócrates agita entre dentes e sorrisos amarelos não passa, na realidade, duma tentativa desesperada para se fazer ao caminho da reeleição presidencial. Acontece, porém, que o senhor decepcionou completamente o seu eleitorado ao longo deste seu primeiro e esperemos que último mandato. E por conseguinte, por mim, a manobra não pega!

Lipsky Says Debt Challenges Face Advanced Economies

March 21 (Bloomberg) -- Advanced economies face “acute” challenges in tackling high public debt, and unwinding existing stimulus measures will not come close to bringing deficits back to prudent levels, said John Lipsky, first deputy managing director of the International Monetary Fund.

All G7 countries, except Canada and Germany, will have debt-to-GDP ratios close to or exceeding 100 percent by 2014, Lipsky said in a speech  today at the China Development Forum in Beijing. Already this year, the average ratio in advanced economies is expected to reach the levels seen in 1950, after World War II, he said. The government debt ratio in some emerging market nations had also reached a “worrisome level.” 

O problema do nosso endividamento é semelhante ao da Grécia, Espanha, Itália, Irlanda, Islândia, Reino Unido, França, Japão, Rússia, etc. Todos chegaram já, ou ultrapassaram, ou vão chegar em breve, e ultrapassar, níveis de dívida pública superior aos respectivos produtos internos brutos. Ou seja, a gravidade do problema ultrapassa-nos e muito. Para já, a Irlanda e a Grécia são, e em breve nós e a Espanha seremos, os Porquinhos-da-Índia de uma experiência nunca tentada: esvaziar o monumental endividamento soberano sincronizado de boa parte dos países outrora ricos do planeta.

A receita abastardada de Keynes não funciona no circuito aberto da globalização. E é fácil de entender porquê. Toda a liquidez injectada numa economia para estimular o consumo, que por sua vez faça retomar a produção, só pode funcionar na condição de que o mercado onde tal esquema é ensaiado cumpra a condição de ser um mercado homogéneo em matéria de moeda e preços.  De contrário, a liquidez injectada no mercado esvai-se nas importações de produtos e serviços mais baratos que o mercado concorrencial aberto internacional é capaz de oferecer. Foi isto que se passou nos Estados Unidos a partir das presidências de Reagan e Clinton — ao abrirem as fronteiras ao México e sobretudo à China. E é isto que também viria a suceder à Alemanha quando financiou as suas exportações para o espaço comunitário através da criação de uma moeda forte generosamente oferecida sob a forma de subsídios ao desenvolvimento (leia-se ao consumo), mas que acabaria por resultar num maná traiçoeiro para os países menos desenvolvidos da União, que assim se foram sobre-endividando muito para além do sustentável. Esta deriva, já de si arriscada, desembocou num desastre financeiro cuja gravidade foi largamente potenciada pela entrada entusiasta da União Europeia no barco neoliberal da globalização e da desregulamentação financeira.

A globalização acabaria por ser dominada por fenómenos poderosos mas mantidos invisíveis durante mais de uma década. Um deles foi a lenta mas finalmente maciça exportação das indústrias produtivas (siderurgia, automóvel, informática, telecomunicações, audiovisuais, etc.) dos Estados Unidos e posteriormente da Europa para o continente asiático (Coreia do Sul, Formosa e sobretudo China). Outro é a desmaterialização galopante da moeda americana e a sua consequente desvalorização. Finalmente, e não menos importante, é a especulação financeira sem limites, a qual tem permitido expandir para níveis inimagináveis o crédito mundial disponível — nomeadamente através do pouco estudado esquema FOREX conhecido por currency carry-trade (de que o Japão foi, até 2007-2008, o principal protagonista global), e ainda dos seguros em cascata das operações de crédito recorrendo a derivados financeiros cada vez mais complexos e fora do radar regulador e fiscalizador das entidades de supervisão económica, financeira e monetária.

Ou seja, para além dos fundos comunitários que os países pobres da União receberam de Bruxelas, existiu uma disponibilidade sem precedentes de liquidez financeira suplementar às empresas, pessoas e governos, oriunda da especulação financeira e cambial. Quando a China descobriu que estava a financiar as importações americanas muito para além do poder de compra efectivo daquele país, ou a Alemanha percebeu que andava a vender BMWs e Mercedes a países europeus falidos —ocorrência provocada pela exposição súbita das imparidades financeiras que explodiam por todo o lado depois de a torneira do yen carry-trade ter sido fechada (pelos chineses!)— o colapso sistémico da globalização capitalista teve o seu início. E está longe de terminar!

É por tudo isto que as ditas grandes obras públicas têm um importância estratégica decisiva na actual situação do país, e poderão ter graves consequência para a paz social portuguesa, caso não sejam objecto de uma reavaliação imediata e radical. Como disse e bem Bagão Félix, no Plano Inclinado (SIC-N) desta semana, o novo aeroporto de Alcochete, as novas autoestradas previstas, linhas de comboio mal planeadas, barragens assassinas, etc., se forem realizados, tal implicará mais e muito mais endividamento público. E uma tal loucura —que é sobretudo uma cedência dos políticos corruptos que temos à aristocracia financeira e às endividadas empresas de construção civil e energéticas— traduzir-se-à na destruição do actual estado social. Se vier a acontecer, o PS de Mário Soares será o grande responsável pela óbvia destruição anunciada da democracia que ajudou a fundar.

Cavaco Silva tem-se revelado um presidente inútil perante um primeiro-ministro intolerável em qualquer democracia decente. As próximas semanas mostrarão se a eleição de Pedro Passos Coelho para líder do PSD tem ou não virtualidades para evitar o desastre para onde estamos a caminhar muito rapidamente.


POST SCRIPTUM (28-03-2010 13:19) — Estará o Presidente da República doente?

Recebi um SMS alertando-me para possíveis problemas de ordem neurológica que estarão afectando a saúde do presidente da república. A este aviso, que por enquanto não passa de hipótese, junta-se uma estranha sugestão do candidato presidencial Fernando Nobre para submeter os candidatos aos altos cargos públicos do Estado a exames médicos preventivos — tal como acontece nos Estados Unidos da América e em muito outros países. Estará Cavaco Silva doente? A especulação e o rumor estão instalados. Conviria pois que o presidente esclarecesse os cidadãos sobre esta dúvida antes que se torne alarme público. A própria análise política precisa de saber o que realmente se passa com a saúde da principal figura do Estado, sob pena de especular em cima de falhas graves de informação.


OAM 676—28 Mar 2010 3:21 (última actualização 13:29)

sábado, março 27, 2010

Portugal 175

Para Passos Coelho, Cavaco é um empata
Para Cavaco, o novo líder pode significar o fim da reeleição presidencial

Eu teria preferido ver Paulo Rangel ganhar as eleições do PSD (1) apesar de saber que a sua candidatura fora precipitada pelos acontecimentos e pressionada por Durão Barroso, Manuela Ferreira Leite e Cavaco Silva. Simplesmente preferi Rangel pela sua rapidez de manobra e instinto predador apesar das fragilidades manifestas. Mas as iminências laranjas, incluindo o comentador Marcelo, preferiram Rangel a Passos Coelho por motivos muito diferentes.

Como o pensamento político do novo líder eleito do PSD, apesar de estar no partido laranja há décadas, é absolutamente desconhecido (diz-se vagamente que o homem é mais liberal do que social-democrata), deduzo que os barões e Cavaco não gostam dele há muito tempo por motivos meramente partidários. Consideram-no, suponho, um produto fabricado, intelectualmente vazio e politicamente artificial. Em suma, um oportunista esperando a sua oportunidade.

Mas a verdade é outra. O homem de família, jovem, alto, cordato, algo tímido, que ganhou a pulso estas eleições directas no PSD é afinal um político profissional. Daí que os seus opositores internos tenham sido tão implacáveis. Suspeito agora (fez-se luz no meu espírito!) que a sua não inclusão na actual bancada parlamentar social-democrata foi uma decisão premeditada de Cavaco Silva executada por Manuela Ferreira Leite. E se assim foi, o tempo começou esta noite a jogar contra estes e outros velhos dirigentes do PSD, Pacheco Pereira incluído. E sobretudo contra a reeleição de Cavaco Silva!

A crise gravíssima que Portugal atravessa não tem apenas uma marca cor-de-rosa. As marcas do betão cavaquista e da hipertrofia do Estado são bem visíveis, e serão cada vez mais notadas à medida que se desbobine a história do endividamento estrutural do país. Passos Coelho não tem realmente nenhuma responsabilidade efectiva no descalabro actual. Ao contrário de José Sócrates, que acabou por se tornar no seu último protagonista.

Por sua vez, o estado catatónico em que se encontra o actual presidente da república, por mais medos atávicos e infundados que se atirem sobre a população relativamente ao bem supremo da estabilidade necessária para sangrar fiscalmente e esmagar socialmente a maioria dos contribuintes, não impedirá a justa e crescente indignação da democracia. Só uma nova maioria, um novo governo e um novo presidente poderão comprar o tempo necessário à dolorosa recuperação da nossa capacidade de produzir e exportar, e à mudança de comportamentos em todos os níveis da sociedade e em todos os departamentos de actividade profissional.

Por mim, a recandidatura presidencial de Aníbal Cavaco Silva e o cavaquismo morreram. E seria muito útil que o homem compreendesse e aceitasse rapidamente a evidência dos factos. Fernando Nobre poderia ser um bom substituto.

Ao contrário do que pensa a generalidade dos analistas, não vai ser o inquérito parlamentar ao primeiro ministro a prova de fogo de Passos Coelho. A prova de fogo serão as grandes obras públicas que a Mota-Engil, o BCP e o BES querem prosseguir no meio de um país que empobrece a olhos vistos e onde o desemprego, a emigração e o declínio dos serviços de saúde e dos apoios sociais acabarão por conduzir a uma tremenda instabilidade social.

Recomendação ao novo líder do PSD: não fale sobre o apoio do PSD à recandidatura de Cavaco Silva antes de este se pronunciar sobre o tema. Aliás, que sentido faz emitir uma opinião sobre um não acontecimento. Cavaco Silva diz que tem muito tempo para decidir. O PSD também!


NOTAS
  1. Ler "O PSD precisa de sumo novo!", "Se o Pedro Passos Coelho…", "E se o PS volta a ganhar?", "Entre Paulo Rangel e Aguiar Branco".


 OAM 675—27 Mar 2010 2:55