Caro Victor,
o Ventura, como qualquer bom populista não renega o poder económico do Estado. Os populistas não são liberais. Pelo contrário, veneram o Estado, nomeadamente para viabilizar os seus intentos de comando unificado da realidade nacional, seja esta americana, alemã, italiana, ou portuguesa.
Assim sendo, o que Ventura, como qualquer populista ambiciona, é ver-se livre da demora burocrática e impedimentos que caracterizam as democracias burocratizadas, indolentes e corruptas que temos — onde uma qualquer agência ambiental, que ninguém sabe como apareceu, nem quem, por sua vez, a controla, é capaz de empatar um país inteiro, ou conduzi-lo ao desastre, porque acredita no Ambiente (como outros acreditam em Deus), e tem mais poder do que o parlamento, o governo e o presidente da república!
Como, no caso português, o bloco central, estável desde o 25 de novembro de 1975, corroído por dentro pela usura e pela corrupção, é incapaz de lidar com a grande crise sistémica em curso, procurando, em vez, agarrar-se ao que aparentemente tem por certo, isto é, a sua teia partilhada de interesses, o Chega chegará inevitavelmente, e em breve, ao poder. Basta olhar para curva de crescimento deste partido e ainda mais para a curva de popularidade do seu líder.
É perante esta deriva populista do regime que convém, a partir de agora, avaliar, em primeiro lugar, as relações políticas entre Ventura e Seguro, e as bases de entendimento que ambos procurarão rapidamente estabelecer. O PSD, tal como o PS são coisas do passado...
Nota: o mistério da transferência de votos da IL para o Chega tem talvez uma explicação: quer uma, quer outro, e em particular os respetivos eleitorados estão fartos do 'sistema' (leia-se o arco parlamentar dos últimos 50 anos) que tomou conta do regime. Dois pontos em comum entre Seguro e Ventura: ambos são 'outsiders' dos dois principais partidos do regime (PS e PSD); e ambos fazem do combate à corrupção a bandeira principal da reforma da nossa democracia. O Luisinho e António Costa que se cuidem!
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Victor Pinto da Fonseca
* … o que retiro dos 33% de Ventura nas presidenciais é que o Chega se vai apropriar da IL nas próximas legislativas e vencer as eleições! A IL nunca realmente se definiu: deve dizer-se que enquanto questão de teoria política existem vários tipos de liberalismo. Existe o liberalismo clássico do século XIX (mercados livres e direitos individuais) e o liberalismo de esquerda do socialismo democrático (propriedade pública e igualdade económica). Um liberal, na concepção da esquerda, é alguém que considera possível atribuir ao dinheiro uma importância meramente razoável. A IL em todo o caso nunca se percebeu, tem um carácter que personifica tudo o que é + superficial, abstrato e retórico na ideologia liberal. Na perspectiva da IL há um caminho aberto para a saúde e a felicidade se o Estado não cobrar impostos (é esta a essência do seu discurso; torna-se menos uma política e + um estilo). Mas sabemos que a vida não é assim tão simples! razão porque a IL é abstrata de facto. Com Ventura sabemos ao que vai. É um trole totalitário com um grupo parlamentar [partido] que me mete medo de verdade, o que confere uma marca partidária ao chega. E Ventura é um grande crente na propaganda, desde logo porque é muito + fácil do que ter ideias. Como a propaganda do Chega coincide com a pretensão da IL que consiste na ausência de Estado, em nome da isenção de impostos, não surpreende, portanto, que Ventura vá tomar como sua a IL, como tantas vezes acontece quando a política é propaganda.
Aquilo de que Portugal sabe, é que 3 em cada dez portugueses gosta de Ventura e 2/3 dos portugueses renega Ventura. É a partir desta matemática estatística, de forma completamente científica, que seremos convidados a votar nas próximas legislativas. Ser de esquerda ou de direita não é um sinal de superioridade mas antes um sinal de diferentes opções. As causas das diferenças entre as pessoas não é a biologia, as escolhas políticas das pessoas são moldadas por algo que é, essencialmente, um condicionamento cultural.
* da série “regresso ao futuro” post de duração limitada






