sábado, novembro 07, 2015

O bluff e a astúcia de Costa


Será que António Costa tem outro plano?


Substituir uma minoria que ganhou as eleições por uma minoria que as perdeu é uma aberração democrática que Cavaco Silva não poderá engolir sob nenhum argumento. Ou seja, a menos que houvesse um governo de coligação formado pelo PS, Bloco de Esquerda, PCP e PEV, ou no mínimo, um governo PS protegido por um acordo único de incidência parlamentar que garantisse ao PS, não só a aprovação de todas as suas iniciativas parlamentares, mas também uma cláusula de liberdade da bancada do PS face às iniciativas dos partidos à sua esquerda, que o PS decidisse rejeitar, a solução que tem andado no ar —debaixo, é certo, de uma chuva de ambiguidade, propaganda e contra-informação—, ou qualquer outra do mesmo estilo, é inaceitável, pois seria uma falsa alternativa ao que está, sem coerência, nem consistência, expondo-se aos olhos de todos como uma usurpação do poder, ou seja, como um golpe de estado parlamentar, cujas consequências seriam imprevisíveis.

Os factos têm, no entanto, vindo a confirmar a hipótese (que cedo coloquei) de a jogada arriscada de António Costa não passar dum bluff. A inflexão da análise reside agora no objetivo do bluff.

Ao contrário do que cheguei a supor, António Costa não está apenas a lutar pela sua sobrevivência política, mas lançou-se mesmo num programa estratégico novo, que não deitará a perder numa solução de governo oportunista e minado à nascença por uma convergência de esquerda que ainda não existe de facto. Ou seja, António Costa não derrubará o governo do PàF, passará à oposição parlamentar, mas dirá Urbi et Orbi que o caminho iniciado com os partidos à sua esquerda é para continuar, e deverá ter como resultado a formação de uma coligação pré-eleitoral destinada a derrotar 'a direita' nas próximas eleições. Até lá, a maioria de esquerda parlamentar transformará a vida do PàF numa espécie de inferno seguido de morte súbita.

A lógica deste raciocínio encontra-se nestas citações:

“Quando houver esse acordo, ele deverá ser comunicado e é importante que esse acordo seja aclarado, evidentemente, antes da discussão do programa do governo”, disse Carlos César aos jornalistas no final do encontro com o ministro dos Assuntos Parlamentares. 
Sem revelar pormenores sobre as negociações, o líder da bancada socialista sublinha que o PS só irá chumbar o programa de governo [discutido nos próximos dias 9 e 10] se chegar a acordo com PCP, BE e PEV para uma “alternativa responsável, estável e com sentido duradouro”. (TSF, 3/11/2015
O líder do PS, António Costa, assumiu em entrevista à SIC, esta sexta-feira à noite, que  falta finalizar as negociações políticas com o PCP, para que possa ser assinado um acordo que garanta a viabilização parlamentar de um governo minoritário do PS, apoiado pelo BE e pelo PCP. (Público, 6/11/2015)
O líder socialista adiantou que a opção pela formação de um Governo do PS, sem a presença de elementos de outras forças políticas, foi uma opção do PCP e do Bloco de Esquerda, salientando, depois, que, em matéria de formato desse novo executivo, os socialistas não colocaram qualquer restrição. (Jornal de Notícias, 6/11/2015
“Não basta um programa de governo nem as condições para iniciar funções. Não basta para o PS e não basta para um governo que eu chefie. Não estou disponível e eu não estou disponível para um governo que não tenha condições reais que seja de legislatura”.
António Costa chegou à reunião da Comissão Nacional do PS sem grandes explicações aos jornalistas. Quando questionado sobre se o PS está refém do PCP, Costa apenas disse: “O PS é um partido livre, não está refém… nem dos jornalistas”. (Observador, 7/11/2015)

“Eu prefiro um Governo de direita refém do PS, do que um Governo do PS refém da esquerda radical”. (Observador, 7/7/2015)

Cá estaremos para comentar as cenas do próximos capítulos ;)

3 comentários:

Anónimo disse...

Meu caro A.C.P.

Às vezes leio os seus posts e, em geral, concordo com eles.
Não é o caso deste. Se a esquerda derrubar um governo de direita que tome medidas equilibradas corre o risco de nas próximas eleições o eleitorado entregar a maioria à direita. Este encosto à esquerda está a cair mal em muito eleitorado do centro. Nas estruturas dos partidos é preciso muita coragem para enfrentar a maré dominante. Nas eleições para a Assembleia a votação é secreta.
Claro que o Costa está numa situação difícil (meteu-se nela).
Não obstante, a sua (do A.C.P.) capacidade de antecipação é notável.

antonio cerveira pinto disse...

A hipótese que coloco neste post é precisamente António Costa recuar no derrube do governo do PÀF... lançando-se na formação paulatina de uma frente eleitoral de esquerda para as próximas eleições... É possível que haja uma cisão no PS, e que o próprio centro-direita entre num movimento frenético de recomposição.

Maria Celeste Ramos disse...

Este indiano é um caso sério