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| London Steam Carriage, Road locomotive by Trevithick and Vivian, demonstrated in London in 1803 — Wikipedia. |
— a revolução dos transporte que tudo mudou
O mundo tal como o conhecemos hoje – articulado por grandes redes ferroviárias, navegação a vapor e diesel, estradas asfaltadas, aviação comercial e satélites – é surpreendentemente recente na história humana.
No século XIX, transportar mercadorias por rios, canais e mar era, em regra, várias vezes mais barato do que fazê‑lo em terra com carruagens puxadas por animais. Quando o transporte ferroviário se difundiu, graças à produção em massa de carris de ferro forjado em laminadores alimentados por fornos a carvão – primeiro vegetal, depois, de forma crescente, coque – o custo do transporte terrestre caiu de forma brutal. A ferrovia continuava, em geral, mais cara do que as vias aquáticas, mas podia ser muito mais barata e rápida do que o transporte rodoviário de tração animal, permitindo uma circulação de pessoas e mercadorias até então impensável. Assim, as grandes redes de caminho‑de‑ferro aceleraram de forma decisiva uma revolução industrial que tinha começado décadas antes, com os teares mecânicos, as máquinas a vapor e a siderurgia a carvão.
Em pleno século XXI, as vias aquáticas (rios, canais e mares) e a ferrovia continuam a ser meios de transporte estruturantes para as economias nacionais e para a globalização. Apesar da concorrência dos automóveis e aviões, estes modos mantêm uma elevada eficiência energética, sobretudo em grandes volumes de carga, enquanto o transporte rodoviário e aéreo consome quantidades muito elevadas de combustíveis fósseis, principalmente derivados de petróleo, e exige grandes volumes de metais e outros recursos nas suas infraestruturas e veículos.
As estradas asfaltadas e o transporte rodoviário automóvel garantem, por sua vez, uma capilaridade essencial à economia global desde o fim da Segunda Guerra Mundial. É essa malha fina de camiões, furgões e automóveis que liga portos, estações ferroviárias, aeroportos, armazéns e pontos de venda, costurando a logística de última milha que os grandes modos não cobrem diretamente.
O transporte aéreo encurtou drasticamente as ligações logísticas e humanas entre regiões afastadas, sobretudo em rotas intercontinentais e em muitas distâncias de algumas centenas de quilómetros para cima. Ao comprimir o tempo de viagem, redefiniu escalas de decisão política, económica e cultural, tornando plausíveis, por exemplo, reuniões presenciais e cadeias de valor distribuídas por vários continentes.
O transporte aeroespacial mudou ainda mais a perceção que temos do mundo e de nós próprios, permitindo observar o planeta como sistema único e encurtando, de forma invisível, as distâncias entre pessoas, mercadorias e destinos. Sem satélites de telecomunicações, observação da Terra e posicionamento, o comércio eletrónico global, tal como hoje funciona, seria praticamente impossível, e a logística em tempo real perderia grande parte da sua precisão. O comércio em linha representa já uma fração significativa do comércio mundial e continua a crescer, apoiado precisamente nessa infraestrutura orbitante. Em 2024, o comércio eletrónico terá representados, de acordo com algumas estimativas, mais de 20% das vendas globais. Em Portugal, em 2024, cerca de 49% da população com idades entre 16 e 74 anos efetuou compras online, com o peso das vendas online no total das vendas do setor do retalho a situar-se nos 8%.
Em suma, os sistemas de transporte acima descritos, e a sua articulação – a intermodalidade – constituem a espinha dorsal do desenvolvimento humano contemporâneo e da globalização. Qualquer colapso prolongado de um destes sistemas implicaria transformações profundas, e provavelmente traumáticas, no modelo de civilização que conhecemos.
NOTA
A ferrovia moderna tornada possível pela associação e proximidade geográfica entre as minas de ferro e as minas de carvão de coque ocorreu na Inglaterra, garantindo-lhe a dianteira da Revolução Industrial que mudou o mundo. Sobre este tema recomendo este link.
