domingo, fevereiro 13, 2011

O fim do Bloco

O BE é uma aberração partidária desde início, com prazo de validade à vista!

Se a direita a chumbar, termina a guerra de alecrim e manjerona entre PSD e PS: quem viabilizou o PECs e o orçamento, mantém o apoio ao governo, configura a sua maioria parlamentar e deve responder por isso.

Se a direita votar a moção, vamos a eleições. E então que paguem o PS e o PSD pelas políticas nocivas que são de ambos. Que as submetam à democracia do voto, coisa que não fizeram nas eleições de 2009. E que se levante uma nova maioria social e política, à esquerda, capaz de governar para um rumo novo no país, capaz de romper com Merkel e de enfrentar a crise partindo das necessidades populares. É para essa mudança que o Bloco existe — in Porquê agora? Jorge Costa, Esquerda Net.
A jogada desesperada de Francisco Louçã pode muito bem ter sido o canto do cisne do líder vazio dum saco de gatos insuflado por uma base eleitoral maioritariamente assente em funcionários públicos (sobretudo professores) e um programa político fatalmente contaminado por uma sangria de ideologias mortas e enterradas.

A sofisticação ideológica do Bloco de Esquerda é nula, e a sua verborreia lembra um repertório de filmes antigos que fazem sorrir de nostalgia os mais velhos. Pais dogmáticos e filhos sem imaginação da UDP, do MRPP e do PSR, os dirigentes eternos deste albergue partidário vivem literalmente na primeira metade do século passado, continuam a odiar-se como dantes, e posam para o presente sob o disfarce de uma "mesa" que controlam sofregamente como se do pão para a vida se tratasse. Que tal introduzirem o saudável princípio da limitação de mandatos? Sempre arejavam a coisa, e permitiam alguma esperança de vida à "mesa"! Assim, como estão, nem crescem, nem melhoram. E a propensão para asneira tende a aumentar exponencialmente.

Francisco Louçã, o homem com menos imaginação que conheci em toda a minha vida, resolveu apresentar uma moção de censura ao governo de José Sócrates uns dias depois de ter desvalorizado a intenção do PCP, pela voz de Jerónimo de Sousa, de fazer o mesmo. Aos olhos da opinião pública, este simples volte-face revelou em toda a sua desgraça a natureza instável do personagem e o oportunismo intolerável do pequeno político que nunca deixou de ser.

Mas para piorar o episódio, este acto aparentemente irreflectido e repentista mergulhou o albergue bloquista numa indescritível balbúrdia. Fazenda explicou que não queria o voto do PSD, e outra voz ainda acrescentou que a moção também era contra o PSD, como que implorando a Passos de Coelho uma reacção rápida rejeitando liminarmente a iniciativa que também o visava. Rapidez foi coisa que não houve da parte do actual líder laranja, como seria previsível. Ou seja, Louçã conseguiu instalar a confusão na nomenclatura partidária, deixando a porta aberta a José Sócrates para este se recompor do susto e contra-atacar.

E no entanto, objectivamente, a Caixa de Pandora que levará a tríade de Macau e o Mubarak das Beiras ao tapete foi mesmo aberta.

Uma moção de censura não é um jogo floral, nem uma admoestação moral, nem uma agenda de retórica parlamentar, mas um instrumento regimental criado para derrubar governos. Ou seja, quando se propõe à Assembleia da República uma moção de censura a um determinado governo, o objectivo é mesmo derrubar esse governo — para recomeçar em melhores condições o jogo democrático. Como tal, a redacção e fundamentação da moção devem garantir pela sua forma e conteúdo a eficácia da acção parlamentar assim desencadeada.

O objectivo legítimo e democraticamente regulador da moção de censura é permitir a emergência de um novo governo, por efeito de um novo acordo entre partidos, ou da dissolução da assembleia legislativa e a convocação de novas eleições. Não é provar a temperatura das alianças tácitas existentes, nem muito menos diminuir a eficácia constitutiva do acto com manobras de demagogia barata.

Uma moção de censura é pois um acto grave em democracia, que só deve ser desencadeado em consequência de uma crise governativa, ou no caso de um patente impasse parlamentar — por exemplo, na falta sistemática de maioria para aprovação de leis. Promover a sua apresentação com meros objectivos tácticos de guerrilha partidária é um acto não só censurável, como condenável. Uma moção de censura deve, pois, ser negociada previamente entre os partidos da Oposição!

Será com base neste tipo de argumentos que, certamente, o PSD se recusará a votar favoravelmente a moção do BE. Uma eventual moção do PCP terá seguramente o mesmo destino. E no entanto, Passos de Coelho, ao recusar alinhar com os comunistas e os esquerdistas do Bloco no derrube do governo Sócrates, irá ficar de mãos mais atadas do que já estão, ao mesmo tempo que deixará o terreno praticamente livre a Cavaco Silva.

Passos de Coelho não poderá aprovar o orçamento de Estado de 2011, sob pena de se suicidar como alternativa de governo, e como direcção partidária. Mas a tríade de Macau está disposta a tudo, e governar sem orçamento não é algo que a assuste. Logo, tudo ficará nas mãos de Cavaco Silva a partir do momento em que Passos de Coelho rejeite a desajeitada iniciativa do trotskista Louçã.

Mas será que a tomada de consciência destes factos poderá ainda levar Passos de Coelho a dizer ao grupo parlamentar do PSD para votar favoravelmente a moção de censura do Bloco, ou do PCP, ao lado do CDS-PP, do PCP e do BE? Eu não sei.

3 comentários:

Carlos Alberto disse...

Criaram o animal, deixaram o bicho crescer e agora querem matá-lo?

Mas este Louçã, não era do PSR? Mas o Bloco não provém da UDP? Onde estavam os analistas comentadores e jornalistas que levaram estes 'meninos' ao colo para os corredores do poder sem se preocuparem com a agenda deles? Como é possível que, nas ultimas eleições, por exemplo, só num debate entre o favorito dos média e o bicho de estimação dos jornalistas é que se percebeu as incoerências do Bloco pois até aí a coisa estava censurada!

A esquerda 'chique' que sai das faculdades de comunicação e que se revê num PS (já) que não existe adoptou os trostkistas como elegem o bar da moda, ou a loja onde se vendem melhores malas Louis Vuitton sem se preocuparem que estavam a 'dar trela' a cães raivosos!

Agora aguentem-se e era bem feito que o PSD e o CDS votassem a favor da moção para o Pureza ter um ataque do coração e ao Louça cair um pouco da mascara como vimos na noite das presidenciais.

Carlos disse...

Meu caro Antonio Maria.
Muito obrigado pelo seu texto que,como sempre,ilustra a realidade do que se vem passando neste desgraçado País.
A minha opinião foi bem exposta pelos seus textos anteriores "Passos Coelho" e "Censura e Populismo Parlamentar".
Sócrates tem que sair e tem que ser julgado pelo que fez.Ele e os outros ajudantes.Ponto final!
E não me venham dizer (como alguns proxenetas sociais) que os Governos de Cavaco Silva entram no julgamento que tem de ser feito,pois nessa ordem de ideias é preciso chamar à demanda o Afonso Henriques "himself".Não porque Cavaco Silva tenha sido um bom Primeiro Ministro,antes pelo contrário, mas o que está em causa são os Governos do PS que deixaram Portugal como ele está.
Mais uma vez,muito obrigado pelo que tem escrito e,aceite os meus cumprimentos
Carlos Monteiro de Sousa

Carlos Pereira Gomes disse...

Caro António:
chamo a atenção de todos para que vejam o programa da SIC Notícias "O EiXO do MAL" (13-02), onde o simpatizante do BE, Daniel Oliveira faz uma brilhante e honesta crítica sobre a recente atitude do Bloco.
Bom fim de semana!
Carlos