segunda-feira, janeiro 23, 2012

Reversão colonial

 Negócios da China? Privatizações? A terminologia da imprensa económica está errada!
O estado chinês avança rapidamente sobre os próprios recursos petrolíferos do Canadá!
“U.S. and Canadian companies have dominated Alberta's oil sands for decades. Now, though, Chinese firms are rushing to snap up Canadian oil sands resources and invest in ongoing projects - to the tune of $15 billion in the past 18 months in Alberta alone” — in China invests billions in Canada oil sands. By JENNIFER A. DLOUHY, HOUSTON CHRONICLE.

EDP, REN, privatizações? Quais privatizações?! É preciso corrigir a terminologia!

Não há nenhuma privatização parcial da REN a favor da State Grid, mas uma transferência de ativos soberanos de um país para outro — obviamente para pagar antecipadamente dívidas da República Portuguesa à China, com algo que se possa tocar! O Economist deste mês escreveu algo (que ainda não li) sobre esta confusão terminológica oportunista... Na realidade, os grandes credores do Ocidente, cujos cofres estão a abarrotar de conversa fiada e quimeras soberanas cada vez mais ilusórias, decidiram duas coisas muito preocupantes para os EUA e para a Europa:
  1. desfazerem-se paulatinamente dos excessos de reservas em dólares, passando a usar o yuan, o iene, o rublo, e o rial, entre outras moedas nacionais, nas trocas comerciais bilaterais, e
  2. trocarem uma parte do excesso de títulos de dívida soberana, que têm recebido para poderem continuar a exportar, por activos materiais efectivos — nomeadamente através da tomada de posições firmes em empresas estratégicas de recursos energéticos e alimentares, sistemas de transportes, e ouro.  
É a versão suave de uma reversão colonial!

Novo Partido Democrata

Pekka Haavisto, candidato presidencial finlandês, uma grande e agradável surpresa eleitoral

E foram mesmo os dois candidatos europeístas que passaram à segunda volta ;)

Helsínquia, Finlândia, 22 jan (Lusa) - Os candidatos pró-europeus Sauli Niinisto (conservador) e Pekka Haavisto (ecologista) vão defrontar-se na segunda volta das eleições presidenciais na Finlândia, anunciou o ministro da Justiça, após a contagem da totalidade dos votos da eleição de hoje.

Niinisto, o grande favorito do escrutínio, obteve 37 por cento dos votos, enquanto Haavisto alcançou 18,8 por cento. Os candidatos eurocéticos Paavo Vayrynen (centro) e Timo Soimi (nacionalista) foram afastados, com 17,5 por cento e 9,4 por cento dos votos, respetivamente, indicou o ministério. SIC Notícias.

Finlândia/ eleições: para quem a moeda única europeia já era, deve fazer alguma confusão o facto de os partidos que lideraram as intenções de voto na primeira volta das eleições presidenciais finlandesas serem claros defensores do euro!

Não foram só os mercados que leram bem o teatro de operações da guerra financeira movida pelo dólar/libra contra o euro, ao passarem ao lado das mais recentes notações das agências de rating (Standard & Poor's, etc.) Os eleitores também já começaram a perceber o embuste. Em breve começarão a pedir as cabeças... dos banqueiros que trocaram a sua função de credores de boa fé pela de croupiers corruptos e gananciosos do Grande Casino dos Derivados!

“O candidato do Partido Verde e amigável à União Europeia, Pekka Haavist, subiu para o segundo lugar nas últimas semanas, saindo da obscuridade para 13% dos votos na última pesquisa.” Diário do Grande ABC.

Na realidade Pekka Haavisto, o candidato presidencial da Liga Verde, chegou aos 18,8% — o que é um facto notável, sobretudo se for o sinal de uma grande viragem eleitoral na Europa. Também em Portugal precisamos dum Novo Partido Democrata (com um coração verde, claro!), defensor do que resta dos nossos genuínos recursos naturais e humanos — e da decência. O PS não voltará ao poder sem coligar-se com um partido credível, que nem o PCP, nem o Bloco, são ou poderão ser.

Um cenário governativo estável e alternativo à coligação PSD-CDS —que acabará por naufragar sob a evidência das suas fraquezas congénitas— parece-me impossível sem o surgimento dum novo partido, mais próximo de todos aqueles que hoje abominam a demagogia e o populismo oriundos das cansadas dicotomias do século passado.

A corrupção partidária e a submissão canina do PSD e do CDS à burguesia rendeira que tem vindo a chupar o sangue e a seiva de um país que merece melhor sorte acabará por destruir o espírito e a ação do atual governo, abrindo as portas a um novo ciclo eleitoral.

A EDP e as suas barragens criminosas, tal como as PPPs rodoviárias, escolares e hospitalares, já para não mencionar o regresso pé ante pé dos embusteiros da Ota em Alcochete, têm vindo a tomar paulatinamente conta da cabecinha fraca de Passos de Coelho, e da agenda governamental.

Quando será que este governo cairá na lama? No fim da legislatura? Antes mesmo? Tudo irá depender do tempo que Álvaro Santos Pereira aguentar. A sua saída ditará simbolicamente o fim da própria presunção de inocência do senhor Passos de Coelho e do cada vez mais irritante Gasparinho. Depois deste cabo dobrado, a corrida eleitoral recomeçará! Porque pensam que anda Sócrates e a corja que deixou plantada no parlamento tão agitados?

O cada vez mais débil António José Seguro precisará em breve de recorrer a uma Unidade de Cuidados Intensivos (estratégica e táctica). Esperemos que saiba encontrar o conselheiro certo. Mas, como venho insistindo, já não chega. Aquela roseira velha não recupera sem uma grande poda!

E nós, ou seja, os que hesitam entre deixar de votar de vez, e a ténue esperança de uma renovação do jogo democrático, precisamos doutro partido para mudar este estafado rotativismo em que estamos metidos há mais de três décadas e cujo triste balanço é a bancarrota. Já não acontecia há 120 anos!

sexta-feira, janeiro 06, 2012

A morte prematura do euro?

Imagem retirada do sítio The Ignorant Fishermen
2012 poderá ser o ano do Armagedão, e até o ano do fim do mundo, mas não o ano da morte do euro!

O euro permanece “muito forte” e uma queda maior ajudaria as exportações, defendeu o governador do Banco de França, Christian Noyer — in Jornal de Negócios online, 6 jan 2012.

Através da desvalorização deslizante do dólar, Washington procura diminuir o preço da sua descomunal dívida externa, refreando ao mesmo tempo o consumismo interno, uma vez que a parte das importações na economia dos EUA é cada vez mais pesada, a começar no petróleo importado, até quase tudo o que é mercadoria manufaturada: carros, computadores, telemóveis, mobiliário, roupa e calçado, brinquedos, etc.

Esta desvalorização da moeda americana (que é uma moeda de reserva mundial), a par de um política de destruição sem precedentes das taxas de juro interbancárias e do crédito a retalho, principais agentes da própria desvalorização do dólar, visa sobretudo equilibrar a balança comercial americana com a China, Japão e com os seus principais fornecedores de petróleo: Canadá, Arábia Saudita e México.

A desvalorização da moeda americana induziu, por sua vez, uma valorização excessiva do euro, segunda moeda de reserva mundial. E a consequência desta apreciação foi a perda acentuada de competitividade das economias europeias, sobretudo daquelas com menor produtividade tecnológica e menor sofisticação de produtos. Esta apreciação tornou as importações muito competitivas e atraentes, pelo seu baixo preço. O Forex especulativo com as subavaliadas moedas japonesa e americana (yen carry-trade e dollar carry-trade), por sua vez, forçou uma queda progressiva do preço do dinheiro na própria Europa, tornando o acesso ao crédito cada vez mais irresistível, e o trabalho produtivo local cada vez mais caro e desinteressante por comparação com as novas economias financeiras assentes no endividamento barato, na especulação bolsista e sobretudo cambial, e na importação de bens e serviços faturados em moedas sub-avaliadas: iene, yuan e sobretudo a moeda em que são cotadas as principais matérias primas energéticas, minerais e alimentares: o US Dollar.

O endividamento europeu não é apenas, nem sobretudo, público.

O endividamento privado é muito superior, e ambos confluíram para a presente e gravíssima crise de liquidez e de insolvência que aflige pessoas, empresas e governos. Os excessos terão que ser forçosamente corrigidos, assim como, e principalmente, o modelo de crescimento económico baseado na especulação financeira que tudo incha e depois liquida.

Neste contexto, uma desvalorização competitiva do euro, até aos 1,20 dólares, será provavelmente aconselhável, a par de uma revisão sábia do modelo social europeu, e de uma revolução no modo de produção tecnológico em curso, que terá que sofrer uma viragem de 180 graus — do consumismo desmiolado e da produção fictícia, para a sustentabilidade económica efectiva e uma nova cultura de criatividade e partilha social.

O ponto de partida para esta revolução não poderá deixar de corresponder a uma profunda alteração das atuais democracias representativas e seus sistemas de poder. A América caminha perigosamente para uma nova espécie de estado concentracionário, de exceção permanente e de ditadura, cada vez pior disfarçado pelo sofisticado sistema de propaganda desenvolvido desde 1914 (nomeadamente a partir das ideias do duplo sobrinho de Sigmund Freud, Edward Bernays). Não é este o caminho de que precisamos! A Europa tem, também por causa desta degradação cultural americana, uma grande responsabilidade na refundação democrática das sociedades globais e tecnológicas do futuro.

Uma solução militar para a actual crise global seria um desastre completo. No entanto, e infelizmente, é mais provável o fecho do Estreito de Ormuz do que a implosão do euro em 2012.

Por fim, esta previsão não significa que alguns países da zona euro, mais debilitados e prisioneiros de lógicas demo-populistas, consigam evitar um afastamento temporário da Eurolândia. Tal quarentena, porém, onde poderão cair a Grécia e Portugal, não implicará uma expulsão do Sistema Monetário Europeu, e muito menos da União Europeia. Faço figas, no entanto, para que a atual coligação que governa Portugal, e a Oposição, incluindo os sindicatos, percebam a tempo e horas os custos de uma aventura contra a inexorável correção dos nossos próprios desvarios. Isto é: a saída de Portugal do euro!


act.: 7-12-2012 19:09

sábado, dezembro 24, 2011

Um bom ano novo... chinês!

Aos meus pacientes e tolerantes leitores,

perdido neste país bipolar, quase no fundo de uma depressão histórica, de que somos todos responsáveis, uns mais do que outros (claro!), crítico por natureza, sem por isso deixar de ser um optimista avisado, agora na companhia mais próxima dos donos da terra que me viu nascer, Macau, desejo a todos os meus pacientes e tolerantes leitores, como nunca, dentes cerrados para o Ano Novo que aí vem, e uma consoada alegre junto de quem mais amam.

Um Feliz Natal e Um Grande 2012!

quarta-feira, dezembro 14, 2011

Garganta Funda para a EDP?

O estado português não pode ajudar a TAP, a EDP, ou a REN, mas pode vender estas empresas públicas estratégicas a estados comunistas. Que lindo enterro vamos ter!

Três Gargantas, maior barragem do planeta, é o novo ícone, por excelência transmontano, de Durão Barroso, Sócrates, Passos de Coelho, Assunção Esteves, Armando Vara, Edite Estrela e Francisco José Viegas. Coitado do Torga!
Como o Negócios revelou em primeira mão, os chineses da Three Gorges oferecem o preço mais alto (€3,45 por acção, ou quase 2,7 mil milhões de euros pelos 21,4%), seguidos dos brasileiros da Eletrobras e dos alemães da E.ON. (…) As três melhores propostas estão separadas, no entanto, por pouco: cerca de 200 milhões de euros — in Pedro Santos Guerreiro, “O negócio da China”, Negócios online, 12 Dezembro 2011 | 23:30.
A ameaça da UNESCO de retirar ao Douro a classificação de Património Mundial não incomoda Marcelo. Porque será? O professor da TVI boicotou descaradamente, no passado Domingo, a notícia da semana. Porque teria sido? Não é notícia? Claro que é! Terá então MRS algum conflito de interesses, directo ou por interposta pessoa, com a coisa? Se sim, e ao ponto de ter omitido um assunto tão obviamente relevante na sua crónica semanal, esclareça-o, ou deixe de opinar e de dar notas ridículas!

Em plena fase crucial da privatização da EDP, Marcelo, o governo e ainda o patético (in)Seguro do PS, não querem ouvir nada que possa perturbar a venda ao desbarato, e sem cautela estratégica aparente (a qual deveria ser clara e pública), do sobre endividado, mas nem por isso menos estratégico activo do país chamado EDP.

Medina Carreira disse ontem e bem ao Público que:
“O Governo quer ganhar competitividade vendendo a investidores estrangeiros posições que o Estado detém nas grandes empresas monopolistas e onde antecipa arrecadar seis mil milhões de euros“. “O Estado vai perder os rendimentos que essas empresas geram anualmente“ e “daqui a seis meses” Portugal “não terá activos, não terá rendimentos e estará na mesma situação”. Os seis mil milhões, assegura, “não resolvem nenhum problema”. Público, 13-12-2011.

A imagem do que pode suceder em Portugal se o gigante alemão da energia ganhar a corrida ao controlo da EDP foi dada pelo anúncio do despedimento de onze mil dos seus oitenta mil funcionários. Ou seja, para aumentar a escala e a concentração num tempo de escassa liquidez a solução passa, já imaginávamos, por aliviar a carga humana num lado, e aumentar os activos no outro.

Vai a E.ON limpar o passivo da EDP, de mais de 16 mil milhões de euros, retomando o acesso aos mercados para financiamento do mesmo? Quantos empregos tenciona a E.ON efectivamente criar em Portugal? Que prometeu Passos Coelho à E.ON? Prometeu as mensalidades chorudas dos CIEG e as rendas do Baixo Sabor e do Tua? Prometeu uma entrada no Brasil e nos campos eólicos americanos? Que mais prometeu?

Apesar de as perspectivas serem péssimas, tendo a crer que a alienação da EDP é infelizmente inevitável. A dívida é demasiado grande e as perspectivas a curto-médio prazo das renováveis, em matéria de custo e competitividade face às energias convencionais —sobretudo a hidroeléctrica e a de ciclo combinado a gás natural (dadas as recentes descobertas em África)— são menos que sofríveis.

Salvar a EDP do colapso financeiro tornou-se, em suma, assunto para outros campeonatos.

É aqui que entra a China!

A Alemanha, o Brasil e os Estados Unidos não querem a China a entrar nos seus territórios energéticos pela porta do cavalo lusitano. Espero bem que tenham explicado bem este melindre ao Gasparinho e aos nossos ansiosos sábios.

Por outro lado, dar a EDP à China seria o mesmo que entregar o domínio de uma empresa portuguesa privada com capitais públicos a uma empresa 100% pública do Estado Chinês — China Three Gorges Corporation (“a wholly state-owned enterprise”). Que é feito da legislação europeia sobre a liberalização das "utilities"? O Estado Português não pode ajudar a TAP, etc., mas o Estado Chinês pode comprar a EDP, a REN, a ANA e a TAP. Se for assim, é caso para repetir: pobre Europa!

Eu até defendo a entrada da China em Portugal, de preferência no negócio portuário e na indústria naval, mas sempre com conta, peso e medida. Nunca permitindo que um estado, ainda por cima extra-comunitário, tome conta dum sector estratégico mal liberalizado, só porque temos um ministro com uma grande carreira de tecnocrata pela frente. A insanidade da perspectiva é por demais escandalosa e configura problemas de soberania evidentes. Imaginem que o Alberto João deixa de pagar as facturas da iluminação pública do Funchal (se é que alguma vez pagou) —que aconteceria?

Nasci em Macau, e as boas peças de arte chinesa que possuo foram ganhas pelo meu pai numa noite de sorte em casas de jogo macaenses. À época, estamos a falar do princípio dos anos 1950, em frente à rua onde se situavam as casas de jogo, cresciam como cogumelos casas de penhores. Os que perdiam tudo na vertigem da especulação, acabavam vendendo o que tinham e o que não tinham, às vezes só pelo preço do bilhete do barco de regresso a Hong Kong. O valor das coisas passa, quando menos se espera, de zero a infinito e vice-versa. Quem perder esta realidade antiga de vista não se poderá depois queixar!

POST SCRIPTUM
24-12-2011 — Tenho andado a monte por este país bipolar, desligado da rede e dos média em geral, numa espécie de sauna das ideias! Soube ontem que a EDP sempre foi parar à China, como de algum modo intuí neste artigo. Preferia que a China se ficasse pelos portos e por duas plataformas logísticas, uma a norte, que já está em formação, perto de Vila do Conde e outra em Sines. Mas o dinheiro está onde está, e é tempo de a China se abrir ao Mundo. Bem-vinda!

PS: Caros administradores das três Gargantas, não se esqueçam de despedir o senhor António Mexia tão depressa quanto possível, pois este cabotino foi o irresponsável pela maior dívida privada do país, tendo entregado uma empresa outrora pública (como a vossa é) valendo hoje em bolsa substancialmente menos do que valia quando para lá entrou!


segunda-feira, dezembro 12, 2011

Parar a barragem!

O crime do anterior governo prossegue com a subserviência do actual perante os piratas de sempre

Protestaram pelo homem não ser ministro. Este transmontano do Pocinho nem para director-geral serve!

O Bloco de Esquerda acordou bem, mas acordou tarde!

Não teria sido mais produtivo para este partido sem estratégia, nem realismo, nem alma — e ainda por cima a desfazer-se..., ter trabalhado a sério neste assunto com os Verdes (abraçados pelo PCP) assim que o sobressalto cívico começou a ganhar expressão, e as opiniões técnicas fundamentadas desmascararam o embuste? Quando será que estes esqueletos caricatos do marxismo acordam para a realidade, já que perderam há muito a capacidade de sonhar?

Seja como for, é o que temos no nosso desgraçado espectro partidário. E assim sendo, suspender o embuste escondido no Plano Nacional de Barragens e parar as obras em curso no Baixo Sabor e no Tua são prioridades absolutas que não devemos largar, e para as quais todos os santos ajudam — a começar, claro está, pelo santo UNESCO, sobre quem recairão agora todas as pressões negativas dos transmontanos poderosos apostados inacreditavelmente em queimar de vez a terra que os viu nascer: Durão Barroso, José Sócrates, Passos Coelho, Francisco José Viegas, Assunção Esteves, e ainda essas figuras sombrias que dão pelos nomes de Edite Estrela e Armando Vara. Gente estranha esta!

O Gasparinho que acorde! Não basta atacar (ainda que sob o pretexto razoável da correcção do défice) os direitos adquiridos das pessoas, até que estas se revoltem e corram com este governo, como correram com o anterior. Antes destes gestos de coragem fátua, é preciso atacar o cancro do betão e do endividamento especulativo — é preciso suspender imediatamente o Plano Nacional de Barragens, e é  preciso renegociar de alto abaixo todas as PPPs, com particular relevo para as PPPs hospitalares e rodoviárias. Ou será que, senhor Gasparinho, tenciona entregar o ouro que Salazar e os desgraçados lusitanos à época pouparam a penas muito duras, durante mais de quarenta anos, ao BCE — para sustentar os piratas de sempre a Pão-de-Ló?

O argumento idiota da estagiária elevada a ministra, Assunção (sa)Cristas, sobre os supostos direitos adquiridos pelos piratas da Mota-Engil, Grupo Mello, BES, BCP-Teixeira Duarte, Berardo e Cª, não tem qualquer precedência nas actuais circunstâncias excepcionais. O interesse nacional invocado para retirar remunerações constitucionalmente protegidas (13º e 14º meses), sem o pronunciamento de uma maioria qualificada no parlamento, nem um referendo nacional sobre o assunto, é exactamente o mesmo que terá que ser invocado para corrigir o verdadeiro assalto à poupança nacional e ao próprio potencial de crescimento do país pelos contratos ruinosos realizados por uma nomenclatura de piratas que já deveria estar a responder em tribunal pelos seus assaltos continuados ao erário público. Eles e os seus queridos advogados! Que pensa o Tó Zé (in)Seguro disto? Que tal parar de orar orações pueris, e começar a trabalhar?!

Por fim, sobre as tergiversações do consultor literário que colocaram ao comando dos assuntos culturais do país, melhor seria, desde já, despromovê-lo à categoria de mero contínuo de Passos de Coelho. Um qualquer Alexandre Melro não faria pior!

sábado, dezembro 10, 2011

Os piratas de sempre

A bomba lançada por David Cameron na cimeira europeia foi encomendada pela City e pelos paraísos fiscais de sua majestade

David Cameron conduz um Mini Cooper fabricado pela BMW em Oxford.
Foto© Sang Tan/AP (The Guardian)

Nick Clegg deu provavelmente o tiro de partida para o fim da coligação presidida pelo conservador e primeiro-ministro inglês David Cameron, na sequência do veto inglês imposto por Cameron à revisão do Tratado Europeu. Já todos sabíamos que esta seria a posição britânica, mas talvez fosse razoável esperar um pouco mais de tacto e mediação.
Deputy prime minister Nick Clegg is no longer prepared to take the hits for the coalition on policies he does not agree with.

Just 24 hours after appearing to back Cameron, sources close to Clegg made clear that the deputy prime minister believed the PM had been guilty of serious negotiating failures that risked damaging the national interest, British jobs and economic growth. The Guardian, 10-12-2011.

 O Reino Unido tem tido desde sempre uma posição oportunista relativamente à União Europeia: quer todas as suas vantagens, mas nenhum dos seus preços. No entanto, apesar da tolerância demonstrada pelo "continente" (onde é que já ouvimos este tipo de idiossincrasia?) o resultado tem sido a desindustrialização acelerada do país (primeiro, a favor do Japão, e depois da Alemanha) e o seu empobrecimento deslizante, só disfarçado pela sua ainda formidável indústria de serviços, nomeadamente financeiros.

A City londrina e os seus paraísos fiscais são responsáveis por uma verdadeira rede de especulação à escala global (1), curiosamente protegida pelo direito europeu, ao mesmo tempo que disfarçam na sua actividade frenética boa parte do descomunal endividamento da economia e da sociedade britânicas. O Reino Unido tornou-se, embora esconda a realidade o mais que pode, um gigantesco banco negro (shadow bank) cujos contornos começam agora a ser revelados.

Ora foi precisamente a pressão exercida pelo eixo franco-alemão para limitar os graus de liberdade desta actividade financeira não regulada e obscura (2), maioritariamente sediada em Londres e nos off-shores do reino e da rainha, que acabaria por quebrar a tradicional fleuma britânica. O primeiro ministro inglês levava um veto no bolso acompanhado de uma única instrução: usar em qualquer caso!

O endividamento descontrolado da Europa e dos Estados Unidos da América é um fenómeno complexo (3) cuja análise deixaremos para outra oportunidade. Mas importa reter o facto de que o mesmo decorre de fenómenos aparentemente tão diversos quanto o crescimento demográfico global, o envelhecimentos das populações, a maior redistribuição dos recursos naturais, energéticos e tecnológicos disponíveis que se seguiu à descolonização mundial, a urbanização em massa, a automação tecnológica e a desmaterialização de uma gama imparável de processos de produção, organização, informação, comunicação e gestão, ou ainda da especulação financeira generalizada que acabaria por tomar conta das economias empresariais, públicas e pessoais.

A Europa e os Estados Unidos são os olhos de um furacão financeiro sem precedentes na história económica. A ameaça de colapso do sistema é real (4)! O olho esquerdo deste furacão foi o Lehman Brothrers (e em geral, a chamada crise das hipotecas subprime), o olho direito chama-se Grécia (e em geral, a chamada crise das dívidas soberanas na zona euro). Os impactos do subprime na Europa e no resto do mundo foram tremendos, em grande medida por causa da concentração existente no sistema financeiro e da globalização da sua actividade. No entanto, se as dívidas soberanas europeias degenerarem num verdadeiro colapso do crédito e da circulação monetária, as suas repercussões na economia americana seriam provavelmente fatais. Daí a inevitabilidade de a Eurolândia ter que passar por alguma forma de Quantitative Easing (5), isto é, de criação de liquidez assente em nada mais do que quimeras! No entanto, a Alemanha só aceitou ir por este caminho de forma mitigada (envolvendo os bancos e os especuladores) e ancorada (no FMI), depois de garantir que a esmagadora maioria dos países da União Europeia aceitaria implementar previamente mecanismos de convergência tributária, prudência orçamental e supervisão financeira mais transparentes e confiáveis.


POST SCRIPTUM

Acabo de ler o discurso de Helmut Schmidt ao congresso ordinário do SPD — uma reflexão de grande sabedoria cuja leitura a todos recomendo (versão portuguesa aqui; transcrição original neste pdf; registo vídeo integral aqui). Recomendo ainda, muito a este propósito, a audição do histórico discurso de Wiston Churchill na Universidade de Zurique um ano depois da capitulação alemã (1946), no qual o primeiro ministro inglês apelou à constituição dos Estados Unidos da Europa sob iniciativa do eixo franco-alemão (registo áudio aqui.)

É muito curiosa a ausência, no discurso de Schmidt, de qualquer referência ao Reino Unido, a não ser indirectamente, no ataque claro dirigido à banca pirata mundial que hoje desafia de forma descarada os estados soberanos, os governos democráticos e centenas de milhões de pessoas em todo o mundo. 11-12-2011 18:40


NOTAS E REFERÊNCIAS
  1. “MF Global and the great Wall St re-hypothecation scandal”, by Christopher Elias (UK). Reuters, 12/7/2011.
    “Rumours, disasters and ‘re-hypothecation”, by Golem XIV, December 8, 2011.
    “Shadow Rehypothecation, Infinte Leverage, And Why Breaking The Tyrany Of Ignorance Is The Only Solution”. Tyler Durden, ZeroHedge, 12/10/2011.
  2. Entre os múltiplos esquemas destinados, por um lado, a criar liquidez do nada (ou melhor dito, da expropriação potencial intempestiva do valor intrínseco a várias categorias de activos financeiros e não financeiros), e por outro, a especular com a sorte dos investimentos, numa lógica autofágica do sistema financeira enquanto tal, o buraco negro dos derivados financeiros OTC —com um potencial de destruição na ordem dos 10x o PIB mundial— e o agora evidenciado esquema das rehipotecas financeiras (que gozam de especiais privilégios na City e nos ilhéus propriedades pessoais da rainha de Inglaterra) são as principais armas de destruição maciça do sistema financeiro global. A tentativa de colocar a zona euro a suportar as fugas de radioactividade financeira resultantes da implosão em curso deste sistema deu origem à verdadeira guerra movida pelo par dólar-libra ao euro. Menos mal que os alemães ainda sabem pensar e têm os ditos no sítio!
  3. “Chris Martenson and James Turk talk about Europe and the global economy” (video). E ainda este quadro sobre o descontrolo do défice na União Europeia. 
  4. “Eurozone banking system on the edge of collapse.” By Harry Wilson
    “The eurozone banking system is on the edge of collapse as major lenders begin to run out of the assets they need to keep vital funding lines open.” Telegraph, 10:01PM GMT 09 Dec 2011.
  5. “The ECB Decision – A Detailed Analysis”, by Pater Tenebrarum. Acting Man, December 9th, 2011.
    “ECB as Pawnbroker of Last Resort (POLR)”, by Izabella Kaminska. ft.com/Alphaville, Nov 29 2011.
    “True ‘Austrian’ Money Supply update”, by Michael Pollaro. Forbes, Jul. 17 2011.

act. 11-12-2011 11:30; 18:44; 22:58