quinta-feira, julho 30, 2015

Drogaria eleitoral

Armando Pereira, o emigrante minhoto que regressa para tomar conta da PT, como líder e dono!



Foi você que pediu uma revolução?


Altice corta estrutura de topo da PT Portugal
Económico, 15 jun 2015 Cátia Simões

Será anunciado em breve um presidente-executivo para a PT Portugal, garantiu Armando Pereira ao sindicato. Empresa vai investir em fibra.

“Tomamos consciência que uma nova PT nasceu no dia 2 de Junho. Uma PT menos formal e menos estratificada. Tem uma Administração reduzida (3 Administradores) para todas as empresas do Grupo em Portugal, presidida pelo Sr. Armando Pereira como PCA, que além de “dono” terá a função de acompanhamento regular da Empresa após os primeiros 3 a 4 meses de intensa presença. Brevemente será anunciado um Presidente Executivo português para estar a tempo inteiro”, frisa o comunicado.

O capitalismo indígena, rentista, devorista, clientelar, nepotista, irresponsável e arrogante, tem estado a levar uma tareia histórica. Mas não é do PCP, nem do Bloco, e muito menos dos indigentes socialistas do PS. É de quem emigrou e regressa rico depois de comer o pão que o Diabo amassou, com ideias claras, nomeadamente sobre as relações de mútuo interesse que podem existir entre trabalho e capital, entre crescimento e um estado social inteligente, transparente e mais justo do que aquele que temos neste momento.

Aeromoscas de Beja, cemitério e sucata de aviões

Os partidos da coligação parecem ter finalmente assimilado as ideias simples e as previsões deste blogue independente. A quem enviamos a fatura?

Desde 2005 que O António Maria, primorosamente assessorado, insistiu nisto:

  1. Que o NAL na Ota e o NAL da Ota em Alcochete não passavam de embustes montados pelos piratas do PS e do BES, com algumas fantasias do BPN à mistura;
  2. Que em Beja se derreteram mais de 33 milhões de euros num aeromoscas. Escrevemos a este propósito, em 2009, que a famosa modernização socratina da antiga Base Aérea da NATO, suportada por um estudo hilariante do visionário Augusto Mateus, acabaria  por transformar-se num cemitério e sucata de aviões. A confirmação veio a 29 de julho de 2015!

Portugal não será, apesar da vontade das elites que vivem na corte do orçamento, uma ilha ferroviária. 


Um dia Portugal acabará por colocar a bitola europeia nas ligações ferroviárias transversais das principais cidades e portos portugueses, Lisboa-Setúbal-Sines, Porto-Aveiro-Figueira da Foz, e Porto (Matosinhos-Leça)-Viana do Castelo-Valença, a Espanha e ao resto da Europa.

A ligação Poceirão-Caia, aprovada e quase totalmente financiada pela UE, foi abandonada na sequência de uma decisão estúpida do volúvel Tribunal de Contas, certamente por força dos piratas do NAL, agora finalmente derrotados, mas que não pararam durante toda a vigência do atual governo de coligação, ou pelo menos até à prisão de Sócrates e colapso do Grupo Espírito Santo. O mapa ferroviário europeu forçará, mais cedo ou mais tarde, o governo indígena a construir as ligações ferroviárias prioritárias previstas no mapa europeu da mobilidade económica e cultural.


Drogaria eleitoral

Estamos em plena corrida para as Legislativas. De cada vez que abrem os noticiários da Rádio e da TV parece que entramos numa drogaria eleitoral. A coligação tem marcado pontos, ao contrário do PS de António Costa, que se remeteu à condição de comentador crítico da ação governativa e da coligação PSD-CDS/PP. As poucas ideias do antigo ministro de José Sócrates têm-se desfeito contra o muro das realidades. O PS é o partido da burocracia e de uma burguesia rendeira e devorista cada vez mais acossada pelos credores e pela população escandalizada com o grau de corrupção e nepotismo que o PS promoveu na sociedade portuguesa, perdendo assim a sua verborreia corrente qualquer credibilidade, pelo menos até que mude a sua geração de dirigentes.

A coligação, pelo contrário, iniciou hoje, 29 de julho, um contra-ataque contra o PS que deixa a esquerda em geral com vários problemas por resolver. Três deles são cruciais para a sua credibilidade imediata: 
  1. Quem é que, afinal, atacou e ataca a corrupção e a sua nomenclatura? 
  2. Quem é que, afinal, tem as melhores propostas para defender o estado social, sem provocar novo agravamento da dívida pública e privada (a começar pela dívida externa) e a consequente derrapagem para um novo resgate?
  3. Qual é, afinal, a posição do PS, do PCP e do Bloco face ao euro? E face à União Europeia?
O Bloco, dada a dislexia óbvia de António Costa, tem nestas eleições uma oportunidade única para se apresentar ao eleitorado como um partido rejuvenescido, menos maniqueísta, menos demagogo e menos populista, mas também mais sofisticado no uso da linguagem, e com uma agenda programática inovadora, realista e propositiva, sem ter por isso que reprimir o saudável radicalismo de uma série de novas causas e preocupações sociais e culturais.

João Oliveira tem trazido uma lufada de ar fresco ao discurso ressequido dos comunistas. Com o tempo que tudo cura, ou leva, talvez ainda possamos assistir a um aggiornamento nesta pequena igreja do pós-estalinismo. Jerónimo de Sousa faria bem em promover uma clara e decisiva passagem de testemunho geracional, em vez de se agarrar a uma simpatia que não anda nem desanda.

A crise grega fez várias vítimas fora da Grécia. A esquerda em geral foi uma delas. Mas também as tentativas de criação de novas forças partidárias, como o Nós, o Livre ou a coisa do Marinho e Pinto. Serão estas as principais vítimas colaterais das eleições de 4 de outubro.

terça-feira, julho 28, 2015

Da transexualidade à transpolítica

Júlia Mendes Pereira, candidata do BE à Assembleia da República

Duas opções para 4 de outubro: PSD ou Bloco de Esquerda


Júlia Mendes Pereira poderá vir a ser a primeira deputada transexual eleita em Portugal
dezanove, Seg, 27/07/15

Júlia Mendes Pereira pode estar a caminho do Parlamento pelo Bloco de Esquerda (BE). O currículo é invejável: feminista, activista dos direitos das pessoas transexuais e intersexo, co-fundadora e co-directora da associação API - Ação Pela Identidade, organização não-governamental para a defesa e o estudo da diversidade de género e de características sexuais, é membro do Steering Committee da TGEU – Transgender Europe, organização europeia de defesa dos direitos das pessoas trans, foi também coordenadora do GRIT – Grupo de Reflexão e Intervenção sobre Transexualidade da associação ILGA Portugal.

Ora aqui está um sinal que poderá levar-me a votar no Bloco!
As agendas populistas dos partidos, em geral, apodreceram. Só dois dos que têm assento parlamentar parecem estar a mudar: o PSD de Passos Coelho e o Bloco de Mariana Mortágua—uma voz que se pode ouvir, sobretudo quando fala do que sabe (economia e finanças), e não mais um realejo.

Os tempos que correm são convulsos, trágicos para muita gente, mas interessantes quando percebemos a charneira de uma grande mudança, ou melhor ainda, o rompimento do casulo da autêntica metamorfose económica, social e cultural que aí vem.

Estamos numa espécie de PREC judiciário,
cujas consequências serão porventura mais profundas que o PREC dos capitães que não queriam perder privilégios para os milicianos. O topo simbólico da velha política corrupta está na prisão. O topo simbólico da casta financeira corrupta está na prisão. E as castas corporativas e nepotistas que proliferaram e incharam desde a queda da ditadura, começam a estar cercadas por uma opinião pública que paga impostos sem perceber para onde vai o dinheiro.

Neste contexto, a maior ameaça à democracia que apesar de tudo temos é deixarmos que a gangrena do regime vá comendo os partidos por dentro até à sua implosão. Como tenho repetido ao longo dos últimos anos, é preciso rejuvenescer os partidos parlamentares que temos, são precisos novos partidos e redes de cidadania capazes de dar a conhecer a realidade que se esconde por baixo das fantasias, da hipocrisia, e das mentiras, e de agir sobre a realidade com novas agendas culturais.

Os realejos maniqueístas tomam os eleitores por burros, ou por oportunistas.

O PS, o CDS/PP e o PCP/PEV continuam a olhar para trás sem perceberem que esse olhar os vai transformando em estátuas de sal.

Pelo contrário, o PSD de Pedro Passos Coelho tem vindo a promover uma rotura sistémica positiva no regime, que nada tem que ver com a política de austeridade imposta pelos credores cada vez mais impacientes.

Mariana Mortágua, por sua vez, é uma luz de esperança para o Bloco de Esquerda, sobretudo pela revolução linguística que começou a introduzir no albergue marxista que deu origem ao Bloco. É verdade que foi Francisco Louçã e a sua agenda tipicamente franco-trotsquista que permitiu o Bloco sair da Rua da Quintinha e chegar a São Bento. É verdade que Miguel Portas foi uma voz decisiva na urgência de substituir a geração dirigente. Falta agora promover um verdadeiro caleidoscópio de novas causas, que movem potencialmente milhares de pessoas, como é o caso das agendas da liberdade e da tolerância moral, como é o caso das agendas da justiça social e dos direitos individuais, ou como é o caso das novas agendas sexuais, de que a candidatura de Júlia Mendes Pereira é um testemunho oportuno.

Acredito que no interior do PSD e do Bloco existem forças magnéticas de tipo novo, ideológicas, mas informadas, radicais, mas pragmáticas. Precisamos todos de abandonar a biopolítica, e passar à transpolítica, dando cada vez mais espaço aos inúmeros atores-rede que estão a mudar o mundo.

Já ninguém ouve os realejos maniqueístas.

Se tem a cabeça ao centro, a puxar um bocadinho para a direita, já sabe onde votar.

Mas se o coração palpita à esquerda, não desespere, pois há um quadradinho onde a sua cruz poderá melhorar a nossa democracia.

sábado, julho 25, 2015

Sem pulseira eletrónica

Ex-DDT

1415-2015


O ano 2015 ficará para a História Portuguesa como o ano em que um secular sistema de poder centralista, reacionário, autoritário, endogâmico, clientelar, corporativo, manhoso e corrupto finalmente colapsou ao estatelar toda a sua matriz genética contra um muro de credores insensíveis à prosápia indígena.

Desde 1640 que andámos a financiar o endividamento crónico português, uma sociedade essencialmente extrativa e rural, com o ouro e as pedras preciosas do Brasil, o algodão e o caju de Moçambique, o café e o petróleo de Angola, as remessas dos emigrantes e, finalmente, fundos comunitários e novas remessas de emigrantes.

O ciclo que agora se fecha tem estas cristas assinaláveis
  • 1415 — conquista de Ceita/ expansão
  • 1640 — guerras da Restauração/ início do declínio
  • 1808 — abertura dos portos brasileiros aos ingleses/ declínio
  • 2015 — fecho de um longo ciclo de ascensão e queda

O pânico entre as nossas distraídas elites começa verdadeiramente agora, isto é, depois da prisão domiciliária, sem pulseira eletrónica, de Ricardo do Espírito Santo Silva Salgado, antigo Dono Disto Tudo.

sexta-feira, julho 24, 2015

Grécia, uma vacina contra o populismo



Do PS a Marinho Pinto, passando pelo PCP e pelo Bloco, os efeitos do maremoto grego serão devastadores, nas próximas eleições e depois.


Há dois tipos de populismo: o do regime instalado, dominado por rendeiros, devoristas e corporações egoístas e corruptas, o qual endividou o país para ganhar eleições e para benefício das suas clientelas, e o populismo que aposta na desgraça para alastrar como se fosse uma gripe, mas que tem o efeito dos cilindros compressores do alcatrão—por onde passa arrasa tudo por igual.

Ninguém, no seu perfeito juízo, irá dar o seu voto a espontâneos que ainda não provaram nada no terreno. O exemplo do que tem acontecido na turma de Marinho e Pinto é, aliás, um claro aviso à navegação. Paulo Morais vai pelo mesmo caminho.

É por estas e por outras que os eleitores estiveram ontem pregados aos televisores, cheios de dúvidas, tentando perceber o que poderão esperar do próximo governo de Passos Coelho.

Ou muito me engano, ou acabarão por optar entre o que conhecem, i.e. a coligação entre Passos Coelho e Portas, e o que também conhecem, ou seja, António Costa, ex-ministro de José Sócrates, de quem nunca se demarcou —e não me refiro, obviamente, ao arguido que está detido em Évora, suspeito de corrupção, mas ao político que atirou Portugal para a sua mais grave bancarrota desde o final do século 19, que só não foi declarada, nem caímos imediatamente numa situação grega, porque tivemos as mãos da Troika a impedir que o dique cedesse à pressão dos credores.

Post scriptum — tenho defendido a necessidade da emergência de novos partidos e a necessidade de uma renovação e reforma profunda dos partidos existentes e com assento no sistema. A primeira hipótese mostra-se, neste momento, demasiado frágil para caminhar até ao próximo parlamento, por falta de ideias realmente inovadoras, maniqueísmo partidário e, sobretudo, falta de juventude; a renovação interna dos partidos, por sua vez, tem progredido no PSD e no Bloco, no PCP só quando os velhos guardiões caírem todos da cadeira é que poderemos esperar mudanças mais sensíveis, e no CDS e Partido Socialista continua congelada à volta de gerações gastas e demasiado comprometidas com o descalabro do país. Não interessa saber se vou votar ou não, ou se prefiro o Bloco ou o PSD. O que aqui faço é escutar a sensibilidade dos eleitores potencias. Neste patamar da realidade prevejo uma maioria da coligação PSD-CDS nas próximas eleições (possivelmente absoluta).

Atualizado em 25/7/2015 11:10

quinta-feira, julho 23, 2015

Ler antes de votar

PIETRA, António Onofre Schiappa, fl. ca 1830
Marquez de Pombal : nasceo em Lisboa a 13 de Maio de 1699... / Schiappa. - [S.l. : s.n., entre 1830 e 1852] ([Lisboa] : : Off. Lithog. de Santos). - 1 gravura : litografia, p&b ; 16,3x12,1 cm (imagem com letra); pormenor. BNP.


Precisamos de uma maioria reforçada na próxima legislatura


O Presidente da República foi muito claro no discurso desta noite: o próximo Governo tem de ter uma maioria estável, porque senão não conseguirá resolver os problemas do país. Não o disse explicitamente, mas deu a entender que não aceitará um Governo sem maioria.
Jornal de Negócios, 22 Julho 2015, 21:37 por Bruno Simões

Tenho zero simpatia pelo senhor Silva, mas a verdade é que Cavaco tem andado bem no fim de um mandato que ainda vai dar muito que falar. Definiu uma posição estratégica correta face à Grécia; respondeu de modo certeiro ao beijoqueiro Jean-Claude; e exige, bem, uma maioria reforçada na próxima legislatura. É que sem revisão constitucional, ou sem uma nova Constituição, e sem uma maioria bem atada, não será possível conduzir a casca de noz portuguesa no mar cada vez mais encapelado que aí vem. A próxima coligação de governo terá que ser não só maioritária, como gozar da maioria qualificada para uma revisão inadiável do presente texto constitucional.

Portugal tem uma dívida pública, privada e externa colossal, gerada em grande medida pela corrupção endémica do país, e pelo populismo genético da democracia saída Revolução de Abril.

Salvo se reduzirmos o estado às suas funções essenciais, eliminando as redundâncias e entregando à sociedade o que esta pode fazer melhor e mais barato, salvo se reduzirmos o poder de bloqueio corporativo das agremiações rendeiras e devoristas do país —dos sindicatos dos funcionários públicos e equiparados, ao exército partidário que proliferou como uma praga, passando pelos banqueiros e industriais a soldo do orçamento de estado e dos subsídios comunitários—, salvo se libertarmos a iniciativa dos cidadãos e das suas empresas e associações livres, da canga burocrática que os reprime e esfola em sede fiscal, salvo se aprendermos a criar e proteger instituições democráticas sólidas, contra o nepotismo, a partidocracia e a predominância de uma aristocracia nova que herdou a iniquidade e repete os mesmos vícios de sucessivas gerações, pelo menos desde 1640, atirando e mantendo ainda hoje Portugal na cauda do mundo, o que nos espera é um enorme buraco negro, muito semelhante ao da Grécia, onde, se não pararmos um momento para pensar antes de votar, cairemos miseravelmente e sem retorno.

A aliança tipicamente provinciana e reacionária entre Francisco Louçã e João Ferreira do Amaral é a imagem mais fiel das resistências indígenas que teremos que vencer se quisermos finalmente criar um país civilizado, produtivo e justo.

Cá, como na Grécia, as velhas elites caricatas e obscurantistas, economicamente retrógradas e politicamente autoritárias, unem-se por conveniência oportunista a uma esquerda radical zombie cujo realejo disléxico há muito alienado da realidade é incapaz de apresentar uma ideia prática que se veja. Não precisamos de passar pelo suplício de ver um dia o senhor Louçã num ministério. O pesadelo proporcionado pelo Syriza aos gregos, e o senhor Varoufakis, chegam e sobram!

Não sei se os economistas (nomeadamente os sábios de António Costa) e os jornalistas da nossa ilustrada praça leram Trade and Power—Informal Colonialism in Anglo-Portuguese Relations, de Sandro Sideri, publicado em 1970. Se não leram, está na altura de lerem.

Duas citações apenas de um livro que vale cada vírgula, para o debate que deveria haver entre os beatos do PS, do PCP e do Bloco de Esquerda, e o famoso liberalismo de Passos Coelho. O primeiro ministro, apesar de contaminado pela pressão dos poderosos fregueses que o rodeiam, percebeu o essencial: endividados até ao tutano não iremos a parte alguma. Ou melhor, estando onde estamos, se não travarmos a fundo a despesa pública e o endividamento privado, se não libertarmos o estado de quem dele se serve sobretudo para proveito próprio e da casta, se voltarmos a ser governados por quem pensa que a obsessão do défice é uma doença, então sim, iremos àquela parte. Tal como foi a Grécia. E não será nada agradável de ver, menos ainda de viver.

...the potential contribution of capital to development is minimal without the necessary ‘institutions’ to really take advantage of it.

[...]

“In fact the partial success that Pombal did achieve with his commercial policies and the reduction of the trade deficit with Britain, encouraged him to move into a vast programme of industrialization. He could not fail to realize that without a strong manufacturing sector, his country’s dependence on the old ally might be somewhat lessened, but certainly not eliminated. Commercial measures alone could not substantially improve the Portuguese economic situation; if her destiny was to rest in Portuguese hands, and if a modern nation was to be reborn from what had become a colony then they had to be part of a large plan geared to the development of manufactures. Thus, it was necessary to redress the situation that had been created by the previous Anglo-Portuguese commercial treaties and which had forced the country into such a specialization that in the middle of the 18th century ‘two-third of her physical necessities were supplied by England’. This situation could not have been changed without breaking the regulations on which such a dependence was based. It is this emphasis on national interests, without war as the final aim of his development strategy, that makes Pombal more a forerunner of F. List [Friedrich List] than the last mercantilist, especially of the Colbert type.

There is another element in Pombal’s development strategy that reminds us of List’s industrial education, namely his constant effort to strengthen the young and  small bourgeoisie and gain its participation in the economic process. It was through his efforts that some of the most successful merchants and industrialists were made noblemen; this introduced a new mentality and outlook into the old ultra-conservative Portuguese nobility whose parasitic role had been increasing during the first half of the 18th century.”

(S. Sideri, 1970)

quarta-feira, julho 22, 2015

Porque cresce o turismo em Portugal e Espanha?

Photo: ruispotter.blogspot.com

O mérito dos políticos, neste caso, é nulo


Há oito causas essenciais para o crescimento do turismo em Portugal e Espanha, muito acima das suas economias, e nenhuma delas é mérito dos governos e políticos de turno, nem da sua propaganda:
  1. a queda do preço do petróleo;
  2. a queda continuada das taxas de juro;
  3. as guerras que assolam praticamente todos os destinos turísticos do Mediterrâneo oriental e os países do Magrebe; 
  4. o avanço das companhias aéreas Low Cost na Europa; 
  5. o aumento exponencial da emigração em Portugal e Espanha; 
  6. a deflação, que torna as estadias economicamente mais convenientes;
  7. o impacto da austeridade europeia e mundial nos bolsos dos viajantes (a Ásia e o Pacífico ficam mais longe);
  8. and last but not least, o colapso da Grécia :(

Aviso

A economia do turismo só não é sazonal e sujeita a contingências como as crises na Tunísia, Síria, Líbano, Egito, Turquia ou Grécia, se os países que recebem turistas forem económica e culturalmente fortes e diversificados, e não assentarem em regimes extrativos, nomenclaturas rentistas, estados devoristas e burocráticos, nem em setores económicos protegidos pelo corporativismo e pela corrupção político-partidária. Capiche?

Prova disto mesmo: a queda abrupta do turismo na Grécia ( Forget  Greece, We're Going to Spain, by Henrique Almeida, Maria Tadeo and Elco Van Groningen. Bloomberg Business, July 3, 2015)

terça-feira, julho 21, 2015

Crime e castigo

Dominatrix—Wikipedia


A corrupção combate-se com transparência


Francisca Almeida deixa bancada do PSD


A deputada que criticou a norma interna do PSD que obriga os futuros parlamentares do partido a renunciarem ao mandato em caso de "persistente divergência com as orientações do grupo parlamentar" anunciou ontem que não voltará a ser candidata no próximo mandato.

J.P.H, DN, 21/7/2015

A corrupção que arruina as nações é uma hidra com centenas de cabeças, que voltam a crescer depois de cortadas. Só as regras de transparência e punições automáticas e abrangentes podem travar este cancro instalado no regime.

Bastará aprovar meia dúzia de regras de transparência, nomeadamente sobre declaração de interesses, conflitos de interesses, incompatibilidades, e sobre as portas giratórias entre as várias tocas e lojas da nomenclatura que assaltou a democracia, para que esta comece a melhorar rapidamente.

As instituições, corporações, lojas e famílias que se sobrepõem à lógica e às instituições próprias das democracias são a origem do cancro da corrupção que está a dar cabo das democracias em todo o mundo. Se quisermos legar o ideal democrático, da liberdade e da igualdade de oportunidades e direitos para todos, teremos que destruir o cancro da corrupção.

Isto, e uma severa dominatrix alemã sempre pronta a castigar os mais, e as mais, renitentes, claro!

domingo, julho 19, 2015

Contemporânea do Chiado

Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado

O que nasce torto...


A inauguração de algumas salas da nova extensão do Museu do Chiado deu origem a uma trapalhada lastimável.
  • O secretário de estado revogou um seu despacho anterior sobre a transferência das obras de arte da chamada Coleção da SEC (na realidade, um cúmulo de aquisições discricionárias e tipicamente burocráticas), depositadas desde 1997 no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, para o acervo do agora chamado Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, em fase de ampliação das suas exíguas instalações.
  • O diretor do museu, David Santos, e a curadora Adelaide Ginga, que está ao serviço da instituição e é co-curadora da exposição em causa, não gostaram que o subtítulo da exposição —“O legado da coleção da Secretaria de Estado da Cultura ao MNAC”— fosse inopinadamente mudado para “Arte Portuguesa na Coleção da Secretaria de Estado da Cultura (1960-1990)”.
  • O copo finalmente transbordou quando a hierarquia de que depende o Museu do Chiado (Secretário de Estado da Cultura e Diretor-geral do Património) exigiu a supressão nos textos da exposição da frase “incorporação da coleção SEC no MNAC”, para assim, segundo Adelaide Ginga, “não criar problemas institucionais com Serralves”.

A versão de Serralves

Num comunicado de três páginas, no qual é relatada a sequência de correspondência entre as duas instituições, Serralves realça que o então diretor do Museu do Chiado David Santos, que se demitiu na passada semana, “concordou integralmente e de forma explícita com as condições” pedidas, ou seja, que as 114 obras da designada “Coleção da SEC” emprestadas por Serralves seriam creditadas como “obras da Coleção da Secretaria de Estado da Cultura (SEC) em depósito na Fundação de Serralves - Museu de Arte Contemporânea”.

“O Conselho de Administração de Serralves considerou então que estavam reunidas as condições para o empréstimo das obras e, em 22 de junho de 2015, foi assinada pelos diretores dos dois museus, Suzanne Cotter e David Santos, uma ficha de empréstimo das obras que cumpriu integralmente as condições estabelecidas”, refere o mesmo comunicado.

e ainda...

Num protocolo assinado em 1997, entre a Fundação de Serralves e o Ministério da Cultura, pode ler-se que a intervenção de Serralves, em termos da coleção de arte do Estado - a chamada coleção da Secretaria de Estado da Cultura - se “deverá centrar no período a partir da década de [19]60 e que o Museu do Chiado abarcará a arte portuguesa dos finais do século XIX até à década de 60”, ficando as obras afetas à coleção da Fundação de Serralves depositadas “por um período de 30 anos”, a contar da data daquele protocolo - até 2027 - automaticamente “renovável por períodos de cinco anos”.

Lusa via RTP, 16 Jul, 2015, 07:09 (notícia completa)

As razões de David Santos (1)

Resposta ao Comunicado do Conselho de Administração da Fundação de Serralves sobre a Coleção da Secretaria de Estado da Cultura

Tal como decorre do teor do próprio texto da carta de 18 de Maio de 2015, citada no comunicado do Conselho de Administração da Fundação de Serralves de 15 de Julho, o assentimento que então dei, em conformidade com ordem hierárquica superior, à identificação das obras nos termos da creditação “solicitada” pela Fundação de Serralves, e que aceitei, numa lógica de cooperação institucional e por entender que não esvaziava de sentido a exposição, tal qual tinha sido inicialmente concebida, jamais implicou abdicar, no próprio texto curatorial, da justificação da exposição, com a necessária referência à afectação da colecção SEC ao Museu Nacional de Arte Contemporânea-Museu do Chiado, determinada por despacho do SEC de 5 de Fevereiro de 2014, cuja revogação me foi comunicada no dia 6 do mês em curso e na sequência da qual me foi, então sim, determinado superiormente que eliminasse qualquer referência à dita afectação.

Vila Franca de Xira, 16 de Julho de 2015
David Santos

Comparando as duas versões relatadas dos acontecimentos parece-me evidente que houve uma gestão desastrosa do melindre suscitado pelo despacho de Barreto Xavier, entretanto revogado, que determinava a “incorporação da coleção SEC no MNAC”. A ser verdade o que escreve a administração da Fundação de Serralves, então a frase citada não poderia mesmo ser inscrita na exposição Narrativa de uma Coleção, independentemente do estipulado no despacho de 2014, pois compete ao SEC, e não do diretor do Museu do Chiado, estabelecer o tempo e o modo de execução do referido despacho.

Não há também censura, nem usurpação de autoria, quanto à decisão da tutela.

Sou amigo de David Santos, e sou amigo de Adelaide Ginga, como amigo sou de Jorge Barreto Xavier e de Nuno Vassallo. O critério desta opinião teria, pois, quer de outra natureza.

Alguns antigos responsáveis pela dislexia museológica nacional solidarizaram-se com David Santos e protestaram in situ contra as decisões de Jorge Barreto Xavier e Nuno Vassallo. Se não foi apenas um reflexo condicionado, nem um ato falhado, gostaria de conhecer os seus argumentos (2)

Como tenho opinado, e recentemente escrevi, o Museu do Chiado não deve ser mais um museu de arte contemporânea sem estrutura institucional à altura do título, sem missão clara e justificada, sem meios nem orçamento decentes, sem autonomia, sucessivamente entregue a direções fracas porque dependentes de um estado burocrático capturado pelas clientelas partidárias ou culturais de turno.

O Museu do Chiado deve ter uma e uma única missão: ser o Museu do Chiado, começando por reler o que Pessoa opinou sobre a Contemporânea, e museografar de forma competente e viva o legado riquíssimo de quem o habitou aquele coração da cidade, dando-lhe a forma e a fama cultural que merece.

Como é possível ainda não termos visto no Museu do Chiado uma exposição antológica sobre Rafael Bordalo Pinheiro?

“Perante qualquer obra de qualquer arte — desde a de guardar porcos à de construir sinfonias — pergunto só: quanta força?” (Álvaro de Campos, in Arquivo Pessoa)

Sobre este mesmo tema, neste blogue

NOTAS
  1. Da leitura deste esclarecimento enviado por David Santos ao Público online concluo que havia atrito evidente nas negociações do 'empréstimo' das obras da Coleção SEC, à guarda da Fundação de Serralves, ao Museu Nacional de Arte Contemporânea-Museu do Chiado. Se não fosse este o caso, o Museu de Serralves não poderia emprestar o que não era seu à entidade a quem fora destinada a referida coleção, embora só depois 2027, se... Mais relevante é ainda o facto de as divergências terem sido levantadas pela própria administração de Serralves, instância obviamente acima da que representa a diretora do museu com o mesmo nome, Suzanne Cotter. Logo, o assunto deveria ter transitado (transitou?) para o secretário de estado da cultura, Jorge Barreto Xavier, a quem competiria decidir as ações a empreender. Nem o diretor do Museu do Chiado, nem a co-curadora da exposição, Adelaida Ginga, tinham autoridade para insistir numa frase —“incorporação da coleção SEC no MNAC”—, menos ainda depois do despacho para que remetia a frase ter morrido. O SEC revogou a 6 de julho. O diretor demitiu-se a 8. Mas a exposição só inauguraria a 15, ou seja, tudo poderia ter sido resolvido nos oito dias que se seguiram à revogação do despacho de 2014.
  2. Li, entretanto, o panfleto de Raquel Henriques da Silva publicado em tempo útil pelo Público. O raciocínio do panfleto é tipicamente formal e burocrático, e aposta, como é usual em vésperas eleitorais, numa das hipóteses que concorrem, no caso, António Costa, e portanto numa mudança de titular à frente dos negócios da cultura, e certamente também num novo diretor para o que não deixa de ser um micro museu—segundo RHS, nacional e da arte portuguesa dos séculos 19, 20 e 21!

    Raquel Henriques da Silva sabe muito bem o que é engolir sapos, e conhece melhor que ninguém o resultado pífio da sua prestação museológica no país. O que decidiu ruiu, e o que se mantém, bem (Serralves), ou mal (Museu Berardo), não dependeu de si. A sua visão de típica burocrata centralista nunca lhe permitiu perceber a periferia de Lisboa, quanto mais o resto do país.

    Estender o Museu do Chiado para as antigas instalações ocupadas pelo Governo Civil de Lisboa foi obra do atual secretário de estado, Jorge Barreto Xavier, assim como o despacho que, se executado com prudência, sensibilidade e diplomacia, teria levado paulatinamente o acervo sofrível, conhecido como Coleção SEC, para as futuras reservas do Museu do Chiado, quando as mesmas estivessem prontas. Por isto, aliás, o protocolo com Serralves, de 1997, previu prudentemente um depósito das mencionadas obras, nas reservas no novo Museu de Serralves, até 2027. A abertura da nova extensão do Museu do Chiado e a exposição que hoje lá podemos ver teria antecipado este prazo, precisamente porque fora coroado de êxito o trabalho político paciente e juridicamente informado de Jorge Barreto Xavier. No fim, alguém borrou a pintura, cedendo à provocação (admito) de um administrador de Serralves, mas esta culpa, do que pude apurar, não pode ser assacada ao secretário de estado da cultura. Este engole sapos, tal como Raquel Henriques da Silva, à sua dimensão, terá engolido uma mão cheia deles ao longo da sua carreira. É a vida dos funcionários públicos e dos políticos que chegam e partem. Falar de censura, ou de atentado à autoria, a propósito deste escusado incidente é que não tem o mínimo fundamento.

    David Santos foi colocado perante uma pressão vinda do alto, tal como Barreto Xavier e Nuno Vassallo. Não soube gerir a pressão, e portanto decidiu mal, pois em nome de uma honra e deontologia que não estavam em causa comprometeu a sua própria agenda profissional e o projeto que defendeu para o Museu do Chiado. Os artistas que dele muito esperavam ficaram, uma vez mais, apeados.

    Leio insistentemente que os quadros da dita Coleção SEC andam por ai abandonados nos gabinetes ministeriais, “em gabinetes no Palácio da Ajuda e na Presidência do Conselho de Ministros” (RHS, Público, 14/7/2015), como se fosse uma lepra que ataca a pintura, a fotografia e a escultura. Mas as obras de arte não são feitas para decorar ou comemorar os aposentos de quem as compra—as nossas casas, os átrios e os gabinetes das administrações de empresas e instituições, as praças emblemáticas das cidades de todo o mundo? Não vemos, quase diariamente, uma monumental tapeçaria de Eduardo Batarda decorando as molduras humanas do Tribunal Constitucional? Não vemos pela televisão pinturas do mesmo Batarda, de Jorge Martins e de outros artistas portugueses nas reportagens políticas que nos chegam da sede da Comissão Europeia em Bruxelas? Onde crê a Raquel Henriques da Silva que as obras de arte devem estar? Nas morgues dos museus, onde por definição só os conservadores e os restauradores as observam, em museus que ninguém visita, ou entre os mortais que todos somos?

    Não temos nem poupança, nem competências para alimentar 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7 museus de arte moderna e contemporânea com os impostos que pagamos cada vez mais, ou com isenções fiscais que muita falta fazem noutras instâncias sociais. Sobretudo quando é para mostrar os mesmos artistas do cardápio palaciano de sempre, e boa parte destes museus estão invariavelmente às moscas salvo quando há inaugurações. E mesmo nestas...

    Se querem rentabilizar o Museu do Chiado chamem-lhe apenas Museu do Chiado, e convoquem Álvaro de Campos, o Almada Nome de Guerra, o Rafael Bordalo Pinheiro, Leitão de Barros, Mário Barradas, a voz genial de Villaret, Cezariny, O'Neill, Jorge Vieira, Lopes Graça, Joly Braga Santos, Hogan, Luís Pacheco, em suma, os mortos mais vivos do Chiado, e então teremos um museu a sério, pós-contemporâneo, habitado e explosivo.

    Estou farto de escribas e burocratas.
Atualizado: 19/7/2015, 18:00

sábado, julho 18, 2015

A opinocracia indígena



Culpado de investir, ou de esconder um conflito de interesses?


Miguel Sousa Tavares tinha 2 milhões investidos no GES mas diz que não sabia
Observador, 17/7/2015 8:46

Escritor terá investido cinco vezes num ano no GES, através do fundo ES Liquidez. No total foram 2 milhões de euros, diz o semanário Sol. Mas Sousa Tavares diz que nunca "soube" nem "nunca autorizou".

Miguel Sousa Tavares dá mais explicações sobre investimentos no GES
Observador, 17/7/2015, 23:53

O escritor diz que se quisesse ter investido no GES, tê-lo-ia feito de forma direta; diz que está a ser "um alvo colateral" e queixa-se de violação de sigilo bancário.

Agora é só compilar o que MST foi dizendo e escrevendo sobre o BES, o GES e a (também) sua família Espírito Santo. Ou ainda sobre o famoso 'TGV', cujo projeto aprovado foi anulado pelo Tribunal de Contas, satisfazendo assim o cartel do NAL em Alcochete.

Se a linha de alta velocidade e bitola europeia Pinhal Novo-Poceirão-Caia tivesse ido para a frente o embuste da cidade aeroportuária de Alcochete-Canha-Rio Frio, ou seja o novo aeroporto de Lisboa na Margem Sul (ex-NAL da Ota) teria caído imediatamente, destruindo toda a estratégia de investimento especulativo imaginada pelo senhor Ricardo Espírito Santo (+ BPN, Cavaco, PSD, PS e PCP) para aquela-sub-região.

Convém lembrar aos investigadores, jornalistas e procuradores, que a compra de 4000ha da Herdade de Rio Frio, por 250 milhões de euros, ocorreu 34 dias antes de José Sócrates ter anunciado, a 10 de janeiro de 2008, o fim do NAL na Ota e o novo NAL de Alcochete.

Um dos testas de ferro da SLN (e de Cavaco), o senhor Fantasia, munido de empréstimos do BPN, BCP, BES, Banif e Banco Popular, foi um dos principais protagonistas das aquisições de terrenos na zona destinada ao futuro mega aeroporto de Lisboa e à correspondente cidade aeroportuária, como lhe chamou o visionário Mateus.

Há também, ao que consta, nesta trapalhada toda, o envolvimento dum fundo financeiro do PS sediado na Holanda. Há, ou não há?

Felizmente, o Memorando, a venda da ANA, e as Low Cost rebentaram com este monumental e previsivelmente ruinoso negócio de piratas, no qual também existiram os interesses do senhor Ho, pois parte do financiamento do NAL da Ota em Alcochete viria da privatização da ANA e da venda dos terrenos da Portela para aí construir uma China Town de luxo!

A Grécia estourou, entre muitos outros motivos, pela ruína e corrupção somadas do novo aeroporto de Atenas e das Olimpíadas.

E no entanto, em Portugal o turismo não parou de crescer desde o Memorando, sem precisar de qualquer novo aeroporto. O aeromoscas de Beja existe, mas não consta que tenha ajudado ao crescimento do turismo no Alentejo! Foi, sim, preciso remover as proteções que durante mais de uma década foram levantadas contra as companhia aéreas Low Cost.

Caímos na pré-bancarrota por causa do roubo sem freio dos recursos e dos empréstimos, mas também pela obstrução criminosa ao crescimento criada pelo Bloco Central da Corrupção, de que a banca portuguesa foi obviamente parte cúmplice e interessada.

Sobre o trovão que opina sem cessar, aqui fica a moral da história: um opinocrata que não declara os seus interesses é um opinocrata destituído de credibilidade. Que tal demitir-se de opinar, ou colocar um carimbo na testa antes de opinar?

quinta-feira, julho 16, 2015

A última ponte para Atenas

Em discurso no Parlamento, o primeiro-ministro da Grécia, Alexis Tsipras, voltou a afirmar que assinou um acordo no qual não acredita para evitar uma 'tragédia' — Globo (Foto: Aris Messinis / AFP Photo)

A Grécia encontra-se numa espécie de quarentena, fora do euro


O FlashGrexit é evidente, como evidente é também o facto de a Grécia ser hoje um estado falhado; um estado europeu, da União Europeia, mais ou menos moderno e desenvolvido, mas falhado.

A estratégia de Angela Merkel e Wolfgang Schäuble, que passava por um Grexit duradouro e por uma espécie de Blitzkrieg institucional no seio União Europeia, da zona euro e do BCE, foi derrotada por Washington, cujas ações apareceram claramente sintonizadas com a França e a Itália, mas também com o FMI, o BCE, o presidente da Comissão Europeia Jean-Claude Juncker, o presidente do parlamento europeu Martin Shulz, e o polaco e presidente do Conselho Europeu Donald Tusk.

Ou seja, apesar de a Grécia ser hoje uma gangrena financeira, social, política e institucional, decepá-la da zona euro e da União Europeia —a consequência provável de um Grexit definitivo— poderia abrir uma Caixa de Pandora de consequências imprevisíveis. E por isso não foi aberta.


O mapa que decidiu a sorte da Grécia

O mapa que ajudou a segurar a Grécia dentro da zona euro

Todos os novos projetos de fornecimento de gás natural à Europa, alternativos à massacrada Ucrânia, entram pela Grécia:

Turkish Pipeline : planeia transportar gás natural da Rússia para a Europa : Rússia - Mar Negro - Turquia - Grécia...

The Friendship Pipeline, aka Islamic Pipeline (Iran-Iraq-Syria pipeline) : planeia transportar gás natural do Golfo Pérsico para a Europa : Qatar-Irão - Iraque - Síria - Líbano - Chipre - Grécia...

TANAP (Trans Anatolian Natural Gas Pipeline) : planeia transportar gás natural do Mar Cáspio para a Europa : Azerbeijão (Baku) - Geórgia - Turquia - Grécia...

TAP (Trans Adriatic Pipeline) : planeia transportar gás natural do Mar Cáspio para a Europa : Turquia - Grécia - Albânia - Mar Adriático - Itália.... Faz parte do TANAP.

Os principais países fornecedores de gás natural em competição são a Rússia, o Irão/Qatar, e o Azerbeijão. Os mais importantes países da região envolvidos na passagem do gá são a Rússia, o Irão, a Turquia, o Iraque e a Síria. Outros países especialmente envolvidos nesta disputa: Israel, Líbano, Egito e Arábia Saudita. Potências ocidentais especialmente envolvidas nesta guerra: Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha.

O acordo nuclear com o Irão só foi assinado depois de clarificada a questão grega. 

Não foi por acaso. Um Grexit teria levado a Rússia a bloquear as negociações com Teerão, adiando sine die o Gasoduto da Amizade Irão-Iraque-Síria, em benefício do Gasoduto Turco acordado entre Putin e Tsipras no passado dia 19 de junho.

O dilema alemão

A Alemanha tinha, pois, um dilema pela frente: ou continuava a alimentar os piratas gregos a Pão de Ló, ou teria que contar com a Gazprom, tanto a leste, como a sul... Em todo o caso, os seus graus de liberdade energética continuam a passar pela Grécia, pela Itália e pela França. Capiche?

Tordesilhas 2.0

A aliança atlântica está para lavar e durar. A Alemanha terá, pois, que se conformar com a sua geografia, sobretudo porque o Novo Tratado de Tordesilhas, a ter lugar, será decidido entre os países atlânticos e a China. África ficará no hemisfério ocidental do Tratado. A Ásia no hemisfério oriental do mesmo. Quanto ao Médio Oriente e à Rússia, terão que se preocupar cada vez mais com a falta de gente, ou com a falta de água, e ainda com as suas ideologias arcaicas, pelo que continuarão numa espécie de limbo violento e sem grande futuro cultural nos tempos mais próximos.

A Grécia de Tsipras

Quanto à Grécia, quem sabe se o radical Tsipras não é o novo realista de que o país precisa para sair da sua degenerada democracia em direção a algo decente e próspero.

terça-feira, julho 14, 2015

FlashGrexit: humilhação ou falta de vergonha?


Alexis Tsipras prova o amargo sabor do realismo político

Não sei se já repararam, mas a Grécia está neste momento fora do euro, e o regresso pleno à moeda única poderá levar mais de dois anos a ter lugar.


A Grécia está em plena bancarrota e isolada da zona euro, apesar de manter formalmente a moeda. De uma maneira ou doutra a sua permanência na União Europeia e na zona euro terá que passar por uma reestruturação da sua gigantesca dívida pública, a caminho dos 200% do PIB, incluindo um perdão parcial da dívida (com perdas inevitáveis para as várias classes de credores, incluindo os detentores de depósitos bancários acima dos 100 mil euros), um alongamento das maturidades dos empréstimos com período de carência para o stock da dívida europeia que poderia chegar aos trinta anos, juros retroativos mais favoráveis nos empréstimos já concedidos, uma nova troca de obrigações do tesouro grego (haircut/ PSI) com perdas avultadas (75% em 2012) para quem investiu ou especulou com a dívida grega.

Afirmar, como afirmam as araras populistas do PS, do PCP e do Bloco, que estes sucessivos resgates são uma humilhação desferida contra os gregos, é ver a realidade de pernas para o ar.

A Grécia continua a ser uma plutocracia amparada por uma igreja omnipresente e por uma nomenclatura corporativa, burocrática e partidária corrupta e oportunista. A Grécia é um país sem verdadeiras instituições democráticas, apesar dos hinos a uma história há muito interrompida. Fazem cada vez mais lembrar essas famílias romenas que percorrem a Europa a pedir esmola, como se todos nós lhes devêssemos alguma coisa.

O clube europeu tem regras. Ninguém é obrigado a entrar, mas uma vez dentro, aldrabar os restantes sócios do clube é um comportamento inadmissível que terá sempre um custo a pagar.

Talvez seja o momento de Portugal também cumprir parte do memorando do resgate que até agora aldrabou ou diferiu para as calendas gregas:
  • plafonamento das pensões públicas, 
  • cortes drásticos nas rendas excessivas, 
  • nomeadamente no setor energético, 
  • renegociação das PPPs ruinosas, 
  • diminuição do número de governos municipais, 
  • eliminação das redundâncias burocráticas do aparelho de estado, 
  • e fim das inúmeras isenções fiscais e privilégios de que gozam partidos políticos, sindicatos, corporações várias, IPSSs, advogados, juízes, gestores públicos, etc...

Ou será que só quando chegarmos ao estádio grego é que iremos acordar, e implorar à Virgem de Fátima que nos salve?





Atualizado: 15/7/2015, 00:39

Não é só a Grécia

A gangrena das dívidas públicas é fatal

A nossa principal prioridade é proteger a propriedade privada de milhões de portugueses. Protegê-la dos bancos, da voragem fiscal e dos credores do cancro estatal e das suas intermináveis metástases


Grécia, Portugal, Europa, Estados Unidos, China, em suma, o mundo caminha rapidamente para uma enorme instabilidade. O pico demográfico e a inversão da pirâmide etária, o fim da progressão da taxa de crescimento mundial, o endividamento público global, que cresce a 9,3% ao ano desde 2007, o apetite pelo risco (especulativo) por parte dos investidores institucionais e particulares, depenados pela destruição das taxas de juro e pela repressão fiscal, não poderão deixar de provocar (até 2030?) uma radical desestruturação das sociedades humanas desenvolvidas. Extrema direita, extrema esquerda, nacionalistas radicais e populistas multiplicam as suas hostes de demagogia e terror potencial... Ponham as barbas de molho!

Today’s Dark Lords of Finance
Alexander Friedman. Project  Syndicate, JUL 14, 2015

LONDON – In his Pulitzer-Prize-winning book, Lords of Finance, the economist Liaquat Ahamad tells the story of how four central bankers, driven by staunch adherence to the gold standard, “broke the world” and triggered the Great Depression. Today’s central bankers largely share a new conventional wisdom – about the benefits of loose monetary policy. Are monetary policymakers poised to break the world again?

segunda-feira, julho 13, 2015

No Grexit. Zona euro soma e segue

Este gráfico precisa de correção

Grécia—1, Alemanha—0 (já o tínhamos escrito...)


Quer queiramos, quer não, Alexis Tsipras está de parabéns. Evitou o Grexit e travou a nova arrogância alemã. Soube usar os dois pés da Grécia: o pé romano e o pé grego (hoje, a aliança atlântica e o novo eixo Moscovo-Pequim). Nós avisámos o senhor Schäuble: quem não tem dinheiro, não tem vícios! 

Flash Grexit (ou a mini quarentana)

Na realidade, a Grécia esteve fora do euro durante mais de duas semanas e regressará lentamente a esta união monetária ao longo dos próximos meses. Há quem diga que a normalização do sistema bancário grego poderá levar mais de dois anos. De algum modo, esta foi a pequena-grande vitória de Schäuble, e os seus efeitos catastróficos na sociedade grega funcionarão certamente como um último aviso: ou as elites gregas ganham juízo, ou da próxima vez, tudo será mais expedito e resoluto. Ironia, a que já nos habituámos, da história: coube e caberá a um ex-comunista e a um governo de esquerda radical levar a cabo esta complicada e dolorosa metamorfose. Uma lição para os esqueletos da esquerda e da extrema esquerda indígena que aturamos há décadas no nosso dispendioso e insuportavelmente populista parlamento.

Consequências em Espanha e Portugal

Uma vez analisadas em pormenor as medidas de austeridade acrescida que a Grécia irá adotar, os governos em funções e abraços com programas de resgate apressar-se-ão, por um lado, a demonstrar, com razão, que parte do desenho e dos pacotes de austeridade é, por assim dizer, inevitável. E por outro, irão certamente exigir alterações nos seus próprios programas de austeridade—cortesia do Syriza! Quando ao PS, ao Podemos e ao Bloco, já estarão neste momento a esgotar o stock de bicarbonato de sódio existente nas pharmacias, tal a indigestão causada pelos sapos que as suas retóricas populistas começaram a engolir e terão ainda que engolir até às eleições.

“We fought to get the best result. We gave a chance for the country to stand on its own two feet” (Alexis Tsipras, 13/7/2015) —in Politico

Schaeuble and others seemed to favour a “Grexit”, another participant said. The European Central Bank’s Draghi seemed “the strongest European” in the room, most opposed to the risky experiment of cutting Greece loose and braving Schaeuble’s ire by interrupting him during a discussion on Athens’ debt burden — in The Latest Out Of Europe: “Pretty Steady Level Of Shittiness”, Zero Hedge, 07/12/2015 20:30 -0400
... 
The Greek parliament now has to approve four laws by Wednesday at the latest, to set in motion the so-called prior actions. Those include reforms of the pension system, raising the VAT rate, reforming the labor and products markets, and changing the current format of the country’s statistical office.

Those include measures that were on the table before last week’s referendum, such as privatizing the country’s energy market and modernizing the labor market — Vince Chadwick 30 minutes ago, WHAT HAPPENS NOW?, Politico, 13/7/2015 09:55.


By contrast, Greek Finance Euclid Tsakalotos, appointed last week in place of the often provocative Yanis Varoufakis, seemed calm and expressed a willingness to take steps to convince creditors Athens could be trusted to implement budget and economic reform measures to unlock tens of billions of euros.

At one point a fellow minister turned to Tsakalotos and told him to ignore the rows raging around him: “Don’t worry Euclid,” he said. “It’s not your problem any more, it’s theirs.”

...

in Berlin and Paris, officials have played down differences in tone on Greece, stressing that Merkel and Hollande must sell their decisions to different national constituencies — in The Latest Out Of Europe: “Pretty Steady Level Of Shittiness”, Zero Hedge, 07/12/2015 20:30 -0400

sábado, julho 11, 2015

Museu do Chiado


Uma demissão inesperada, ou talvez não


Director do Museu do Chiado demite-se em ruptura com a tutela
Vanessa Rato. Público, 08/07/2015 - 19:03 (actualizado às 20:45)

A uma semana da inauguração das novas instalações do MNAC-MC, a tutela quer revogar o depósito da Colecção SEC no museu.

“Apesar de discordar da instrução superior, assumi o compromisso de alterar o subtítulo da nossa exposição […] na condição de que o texto de apresentação da exposição pudesse esclarecer tratar-se de uma mostra baseada numa colecção integrada desde Fevereiro de 2014 no MNAC-MC”.

Num texto de 13 de julho de 2014 —Museu de Arte Contemporânea ou do Modernismo?—reiterei as minhas reservas à expansão 'contemporânea' do pequeno museu do modernismo português conhecido como Museu do Chiado, um lugar ermo e despovoado apesar de existir no coração da capital e no hotspot do turismo português. Ao longo da sua existência este museu sem meios andou sempre de Pôncio para Pilatos, sem estatuto, nem definição, nem autonomia claramente definidos pelo estado, que é seu dono e único responsável. No desvario da era socratina e da passagem por lá dum tal Pedro Lapa, assentou-se (quem? quem é que que assentou, porquê, com que autoridade?) que o Museu do Chiado, onde sempre fomos visitar obras de António Carneiro, Amadeo de Souza-Cardoso, Mário Eloy, ou Jorge Vieira, passaria a ser o Museu Nacional de Arte Contemporânea—MNAC, onde desde logo começou a predominar uma programação de contemporaneidade e novas tendências, com sucessivos encargos a jovens artistas portugueses e estrangeiros.

Saltava à vista que o pequeno museu dos Malhoas e Almadas fora tomado de assalto por um condottieri do pequeno e pindérico mundo da arte contemporânea local e do franchising e mercados secundários que o rodeiam. A arte contemporânea, num país pobre como Portugal, com um mercado expositivo exíguo (apesar da engenharia estatística dos públicos fabricados) passava a dispor de uma multiplicidade de espaços públicos a competir pelo mesmo vanguardismo curatorial importado e colado com cuspo: Museu de Serralves, Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, Culturgest, Museu Berardo, Museu Nacional de Arte Contemporânea, e ainda o futuro Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia da EDP. Salvo o CAM-FCG, todos estes equipamentos são financiados direta ou indiretamente com dinheiro público, afunilando inexplicavelmente o diapasão da frágil cultura museológica que sempre tivemos e continuamos a ter.

Nada disto faz sentido.

O desfecho inesperado da inauguração dos novos espaços do MNAC, que levou à demissão do seu jovem diretor, David Santos, na sequência de um braço de ferro com a tutela, tem, na minha opinião, uma causa sistémica, que é a que acabo de descrever e deriva do desnorte permanente e falta de responsabilidade política e institucional de quem tem (des)cuidado há décadas os museus públicos do país, da arqueologia à arte sacra e ao traje, passando pela música, pela fotografia, pela arquitetura e pela chamada arte contemporânea.

No episódio da demissão de David Santos esteve sobretudo em causa a pressão vinda do Museu de Serralves, e certamente também do novo vereador da cultura de Rui Moreira, Paulo Cunha e Silva, para quem a transferência da coleção de arte da SEC para o MNAC poderia sinalizar simbolicamente um recuo do protagonismo consignado e ganho pela instituição do Porto no campo da promoção qualificada da arte contemporânea, dentro e fora do país. Os cortes orçamentais já operados em Serralves levaram mesmo a instituição a organizar no âmbito do seu décimo quinto aniversário, em setembro de 2014, um jantar comemorativo que serviu também para prestar publicamente contas e angariar fundos. A escassos meses de umas eleições de desfecho incerto, tudo o que este governo não precisava era de comprar uma guerra com o Porto. Será que David Santos pesou bem o melindre político do que estava em causa ao insistir que o catálogo da exposição anunciada mencionasse expressamente que o acervo exposto, e entregue ao cuidado de Serralves por um período de trinta anos, já pertencia de direito, desde fevereiro de 2014, ao MNAC?

Este fiasco é fruto da falta de antecipação política de Jorge Barreto Xavier, o secretário de estado da cultura em funções, é fruto da insensibilidade de última hora do então diretor do MNAC, David Santos, mas no fundo no fundo é também o desfecho antecipado de uma ideia sem sentido: transformar o museu do Chiado em mais um centro de arte contemporânea sem meios, sem autonomia de gestão e cujo défice de público tenderia a eternizar-se. Não basta já vermos como o CAM da FCG tem vindo a morrer de pasmo, apenas salvo in extremis pelo seu excelente buffet?

O Museu do Chiado só será um museu visitado aos milhares se puder e souber ser um verdadeiro museu do modernismo em Portugal, transversal nas disciplinas (literatura, poesia, pintura, arquitetura, cinema, cultura urbana, etc.), com verdadeira autonomia de gestão, imaginativo na direção museológica e na programação, com suporte estatal claro e decente, com apoio camarário adequado, e recorrendo ainda a parcerias e acordos de mecenato com as empresas do Bairro Alto e da Baixa-Chiado. Se o estado não tem competência para o fazer, lance um concurso internacional para gestão privada do mesmo. O interesse público poderia ser bem melhor acautelado do que até agora, e pouparíamos o país a episódios lamentáveis como o que ainda decorre na sequência da demissão do diretor do MNAC em vésperas de uma inauguração. Até o sítio web do museu deixou de funcionar!

POST SCRIPTUM

Já depois desta opinião ter ido para a nuvem surgiu uma Petição Pública sem objeto, dirigida à presidente da Assembleia da República e ao primeiro ministro, na qual nada é pedido, mas sim se repudia o fiasco burocrático que empurrou David Santos para uma escusada e lamentável demissão. Não é uma petição, mas uma carta aberta de protesto, da qual se desconhece o primeiro subscritor: “Manifesto de Repúdio pelo Processo Conducente à Demissão de David Santos – Director do MNAC”. O protesto é compreensível, mas como acima escrevi, as causas do fiasco residem nas sucessivas más decisões sobre o Museu do Chiado. Quanto às responsabilidades por este desenlace precipitado devem ser repartidas por todos os intervenientes no mesmo: secretário de estado da cultura, diretor-geral do património cultural, e diretor do museu. Falar de ato censório a propósito deste fiasco é errado, desviando as atenções do que é essencial, ou seja, a necessidade de definir uma política museológica racional, ajustada à economia do país, e tendo em conta prioridades estratégicas outrora outorgadas, nomeadamente ao Museu de Serralves e ao chamado Museu Berardo.

Atualizado: 12/7/2015 16:59

quinta-feira, julho 09, 2015

Grexit a caminho dos BRICS?

Halford Mackinder: “The geographical pivot of history”.
The Geographical Journal, 1904


Poderá Tsipras deitar borda fora o mandato reforçado que detém?


 “Few great failures have had more far-reaching consequences than the failure of Rome to Latinize the Greek.” Halford Mackinder, 1904.

O que está em causa em mais esta tragédia grega é a capacidade do eixo franco-alemão que acelerou a criação da zona euro —no caso da Grécia, promovendo mesmo o seu acesso fraudulento ao clube (1)—, impedir a sua derrapagem, ou mesmo uma implosão de consequências imprevisíveis.

Vale a pena ler o texto da célebre conferência dada por Halford Mackinder na Real Sociedade de Geografia inglesa, em 25 de janeiro de 1904: “The geographical pivot of history”, pois aqui podemos encontrar o paradigma estratégico que ainda hoje determina o essencial das decisões estratégicas dos principais países do mundo: Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido, França, etc.

A ideia central de Mackinder é que o mundo aberto e em expansão da modernidade desbravado pela expansão marítima da Europa ocidental a partir do século 15 voltaria a fechar-se no dealbar do século 20 sob o estatuto de uma cartografia de mundos finalmente conhecidos, onde, sob o ponto de vista demográfico, económico e político, as principais dinâmicas de poder continuavam (e continuam) a residir nas tensões potenciais entre a Grande Rússia e os crescentes que a rodeiam e ao mesmo tempo a separam dos mares: a Europa ocidental (de que as Américas são uma extensão), o Próximo Oriente, a Índia, a China, a Coreia e o Japão.

Curiosamente, a Grécia continua mais próxima da Rússia e dos interesses estratégicos desta, do que da União Europeia e do projeto franco-alemão do euro:
“It is probably one of the most striking coincidences of history that the seaward and the landward expansion of Europe should, in a sense, continue the ancient opposition between Roman and Greek. Few great failures have had more far-reaching consequences tan the failure of Rome to Latinize the Greek. The Teuton was civilized and Christianized by the Roman, the Slav in the main by the Greek. It is the Romano-Teuton who in later times embarked upon the ocean; it was the Graeco-Slav who rode over the steppes, conquering the Turanian. Thus the modern land-power differs from the sea-power no less in the source of its ideals than in the material conditions of its mobility.” Idem

A modernidade pós-medieval e transatlântica começa em 1415 e termina, segundo Mackinder, pouco depois do ano 1900, mas só o perceberemos provavelmente de um modo irrefutável em 2015, no rescaldo do colapso financeiro da Grécia, no meio da maior crise financeira desde 1929, seiscentos anos depois da conquista de Ceuta por Portugal — onde então reinava uma inglesa chamada Filipa de Lencastre, cuja visão estratégica viria a mudar a história do mundo sobre o qual Halford Mackinder elaborou uma notável visão geopolítica, que ainda hoje determina as ações de Putin e de Obama.

Obama Calls Merkel, Reinforces IMF Case Of Debt Haircut Zero Hedge, 07/07/2015 15:26 -0400

Readout of the President’s Call with Chancellor Angela Merkel of Germany

White House:

The President and German Chancellor Angela Merkel spoke by phone this morning about Greece. The leaders agreed it is in everyone’s interest to reach a durable agreement that will allow Greece to resume reforms, return to growth, and achieve debt sustainability within the Eurozone. The leaders noted that their economic teams are monitoring the situation in Greece and remain in close contact.


Russia Asks Greece To Join BRICS Bank
Zero Hedge, Submitted by Tyler Durden on 05/11/2015 12:27 -0400

As Bloomberg reports:

Russian Deputy Finance Minister Sergei Storchak spoke with Greek PM Alexis Tsipras today, proposed that Greece become 6th member of New Development Bank set up by Brazil, Russia, India, China, South Africa, a Greek govt official says in e-mail to reporters.

A Europa e os Estados Unidos vivem há décadas acima das suas possibilidades.

Nada fizeram para corrigir esta mudança estrutural das suas economias, ou por outra, fizeram, aldrabando desde meados dos anos 80 do século passado (invenção dos CDO) os livros de contabilidade e os orçamentos, expandindo para dimensões lunáticas as suas massas monetárias e responsabilidades (dívidas), incentivando o consumo conspícuo e o mais ruinoso dos keynesianismos: ligar os tesouros soberanos (i.e. os governos) à especulação financeira global, esperando que o crescimento produtivo (e não meramente contabilístico, aldrabado) regressasse. Não regressou, e o resultado são borbulhas de mentiras e corrupção que rebentam e continuarão a rebentar por toda a parte, até que uma grande explosão, seguida de implosão geral dos mercados, obrigue a um GRANDE JUBILEU DAS DÍVIDAS, onde os prejuízos não recaiam todos sobre as populações indefesas.

É nestes momentos que os equilíbrios geográficos da política vêm de novo à superfície. A crise grega deixou, já há algum tempo, de ser uma crise económica (2) e financeira, para se transformar numa crise diplomática e estratégica de primeiro plano.

Estes dois notáveis discursos no Parlamento Europeu são uma excelente metáfora do momento crítico que vivemos.


I got angry this morning at Mr Tsipras, because we need to see concrete proposals coming from him. We can only avoid a #Grexit if he takes his responsibility. Watch my speech again here
Posted by Guy Verhofstadt on Quarta-feira, 8 de Julho de 2015




NOTAS
  1. ECB Tells Court Releasing Greek Swap Files Would Inflame Markets
    Bloomberg, June 14, 2012 — 1:32 PM BST

    June 14 (Bloomberg) -- The European Central Bank said it can’t release files showing how Greece may have used derivatives to hide its borrowings because disclosure could still inflame the crisis threatening the future of the single currency.

    Bloomberg News is suing the ECB to provide the documents under European Union freedom-of-information rules. The papers may help show the role EU authorities played in allowing Greece to mask its deficit for almost a decade before the nation’s troubled finances necessitated a 240 billion-euro ($301 billion) bailout and the biggest debt restructuring in history. 
  2. O que não quer dizer que a crise institucional, económica e financeira, não seja gravíssima, porque é. Um dos dos dados económicos invisíveis da incapacidade de a Grécia crescer significativamente é, tal como Portugal, a sua dependência do petróleo, que o gráfico abaixo ilustra dramaticamente. Também por aqui a sua aproximação aos BRICS trará provavelmente mudanças significativas no seu modelo de desenvolvimento.
"What Greece, Cyprus, and Puerto Rico Have in Common"—Gail Tverberg

terça-feira, julho 07, 2015

O mito do perigo comunista




Afinal, o problema da Guerra Fria não teve nada que ver com o Comunismo!


“Putin’s Fourth of July Bear greeting to Obama.”

FOX News: While the United States celebrated Independence Day, two pairs of Russian bombers flew off the coast of California and Alaska -- forcing the Air Force to scramble fighter jets to intercept both flights, two senior defense officials tell Fox News.

The first incident occurred at 10:30 a.m. ET on July 4 off the coast of Alaska, Fox News is told. Two U.S. Air Force F-22 jets were scrambled from their base in Alaska to intercept two Tupolev Tu-95 long-range strategic bombers, capable of carrying nuclear weapons.

The second incident occurred at 11:00 a.m. ET also on July 4, off the central coast of California. Two F-15s from an undisclosed location were scrambled to intercept another pair of Tu-95 Bear bombers.

O comentário dum funcionário da defesa dos Estados Unidos, acima transcrito, dá bem a ideia do grau de atrito existente entre o grande, mas decadente, imperialismo americano, e o império continental russo, para quem o colapso da ex-União Soviética parece ter sido inteiramente ultrapassado pela recuperação estratégica da velha Rússia.

Lembro-me de uma conversa filosófica de agosto, no Algarve, provavelmente em 1972, da qual participaram, entre outros, Egídio Namorado, físico e filósofo brilhante, Sottomomayor Cardia, intelectual que então despontava no firmamento da esquerda, João José Cochofel, poeta e publicista, António Paulouro, célebre editor do Jornal do Fundão, e alguns ouvintes, entre os quais estava. Eram então todos eles, marxistas, mais ou menos próximos do Partido Comunista. Mas a condição intelectual que os unia obrigava o exercício regular do racionalismo crítico, nomeadamente ao fim da tarde, sobre as areias quentes de Armação de Pêra. Nunca me esquecerei daqueles diálogos.

Numa daquelas conversas discutiu-se o que teria levado o socialismo a implantar-se num país atrasado como a Rússia, ainda por cima trocando a ideia da revolução comunista mundial, idealizada por Trotsky sob o paradigma da Revolução Permanente, pela peregrina doutrina do socialismo num só país. A explicação, dada por Egídio Namorado, assentava basicamente num ponto: a extensão continental da Rússia. Esta extensão permitira não apenas saltar da Idade Média para a Revolução Industrial, como testar misseis intercontinentais sem sair do país. A chamada ditadura do proletariado, por outro lado, foi uma espécie de metamorfose pragmática do czarismo, sem a qual não teria sido possível tamanha aceleração da História: Comunismo = a Eletricidade + Sovietes!

Esta compreensão do mistério do socialismo num só país, permite-nos hoje perceber melhor as tensões leste-oeste.

Sob a divergência ideológica entre capitalismo e comunismo, sob este manto diáfano de fantasia, hipocrisia e propaganda, escondeu-se a nudez forte de uma verdade definida por Halford Mackinder em 1904 como a teoria do coração do mundo: “Even in Asia we are probably witnessing the last moves of the game first played by the horsemen of Yermak the Cossack and the shipmen of Vasco da Gama” (“The geographical pivot of history”. The Geographical Journal, 1904).

A célebre frase de Mackinder,  “Who rules East Europe commands the Heartland; Who rules the Heartland commands the World Island; Who rules the World Island commands the World”, extraída do seu livro publicado em 1919, Democratic Ideals and Reality: A Study in the Politics of Reconstruction, é ainda hoje responsável por boa parte da consciência estratégica mundial.

É por isto que alguns anos depois do colapso da União Soviética, a Rússia aparece de novo como o inimigo público número um da América. Mas a verdade é que o centro do mundo continua e continuará por muitos séculos na Eurásia.


Atualizado: 8/7/2015 01:25 WET

segunda-feira, julho 06, 2015

A rebelião do Norte

Rui Moreira, presidente independente da Câmara Municipal do Porto


Norte inicia guerra pela defesa da propriedade pública da água. E eu apoio!


Quando o Norte se levanta, São Bento, o Terreiro do Paço e Belém devem mesmo coçar a cabeça, porque alguma coisa acabará por mudar em Portugal num horizonte relativamente próximo


Desconheço os pormenores de mais este processo de concentração capitalista, rentismo financeiro, expropriação fiscal e centralização político-partidária. Mas que cheira mal à partida, cheira!

Rui Moreira, presidente independente da câmara do Porto

Tal como já se provou (...), ao contrário do anunciado pelo Governo, não haverá economias de escala na fusão dos subsistemas.

Pode o Estado, por decreto, violar o código das sociedades comerciais? Talvez o possa fazer, e só os tribunais o poderão impedir. Mas, em qualquer caso, fica o aviso para qualquer investidor. O Estado Português é um mau sócio, e pouco fiável, porque altera, por decreto e a seu bel-prazer, as regras do jogo, a meio do campeonato. Num Estado de Direito, o Governo deve zelar pelo cumprimento da lei e deve ser, eticamente, exemplar. Quando dá este mau exemplo, quando abusa do poder legislativo para comprometer os seus compromissos, é caso para dizer que, infelizmente, não é confiável, e isso exigiria, é claro, que também a presidência da República se interessasse por este caso, se para isso tivesse tempo entre os muitos e variados comentários sobre o caso grego.

Ler mais em Correio da manhã


O Porto é cada vez mais a capital do noroeste peninsular. Pode e deve atrair a Galiza para uma cooperação estratégica cada vez maior com Portugal, reforçando desde logo todas as pontes com o norte do país. O contrário, portanto, da política imbecil dos últimos governos das galdérias e galdérios acomodados em Lisboa, que tudo têm feito para boicotar as ligações naturais entre os dois países ibéricos, apesar de todas as evidências económicas.

Uma das consequências da crise sistémica do capitalismo em curso, que no essencial significará o fim do capitalismo da abundância, o fim inevitável do bem estar improdutivo e discricionário, e o fim da hipertrofia burocrática dos estados, das economias e das corporações profissionais, é também o fim de certos patamares de confiança e delegação de poderes em entidades que revelaram incompetência extrema na administração do bem comum e doses ruinosas de corrupção.

As criaturas de São Bento, do Terreiro do Paço e de Belém vão, pois, ter que provar mais e melhor, na sequência da pré-bancarrrota para que conduziram o país, cada investimento e cada decisão que tomem. O instituto dos referendos nacionais, regionais e locais deve, pois, ser rapidamente consagrado como praxis constitucional comum no país.

Por fim, deveremos tratar de rapidamente desenhar e levar a referendo a criação de duas novas regiões autónomas no país: a região de Lisboa e a região do Porto. Esta será a forma mais racional e desejável de melhorar a democracia e a gestão destes dois pilares fundamentais do país, mas também um caminho desejável para a diminuição da macrocefalia desmiolada dos senhorios partidários acampados em Lisboa.

Esperança à esquerda?

"O BE passou por um processo de renovação geracional que era necessário e durou algum tempo."
Miguel Manso/Público

Mariana Mortágua: a minha personalidade do ano de 2015


Um lapsus linguae revelador da honestidade intelectual latente de Mariana Mortágua: “Não há uma política de direitos sociais sem condições económicas.”

“Se há um pânico nos mercados Portugal não tem como se defender”
Paulo Pena, 06/07/2015 - 07:56 Público

Esta é uma excelente entrevista, esteja-se ou não de acordo com as ideias expostas. Eu, no essencial, não estou, embora reconheça legitimidade a muitas das suas sagazes observações sobre as incongruências e a criminalidade organizada do capitalismo decadente que domina o planeta. Este é provavelmente o único discurso coerente do que resta, e é muito pouco, da esquerda histórica. Não seria mau para Portugal que esta economista-política fizesse o seu caminho, começando, desde já, por ascender à direção do Bloco. O PS morreu, e um vazio na esquerda do arco-íris político (o PCP não conta para efeitos práticos) seria trágico para a democracia portuguesa...

Seja como for, esta entrevista merece resposta à altura dos argumentos que apresenta.

O regresso ao dracma

Clicar para ampliar

Grécia, ilusões de uma noite de verão


Os gregos votaram OXI num referendo populista à austeridade. Na realidade, votaram NÃO à sua continuidade na Eurolândia. Não interessa que gostem muito da Europa, ou do euro. A verdade é que, cercados pela austeridade e pelo desemprego, se precipitaram para um beco sem saída.

O estado grego moderno é uma  economia atrasada, corrupta e sempre endividada, que desde 1821-1829 (libertação do multissecular domínio turco) acumula bancarrotas: 1826, 1843, 1860, 1893, 1932, 2015.

A Grécia tem sido liderada por famílias de piratas sem escrúpulos, incluindo a família 'socialista' lá do sítio. Uma estranha coligação de esquerda e direita radicais liderada por Alexis Tsipras pretende, uma vez mais, não pagar, insultando os credores ao mesmo tempo que lhes pede mais dinheiro!


Clicar para aumentar

Pelo que percebi das entrelinhas deste dia, o Plano B de Tsipras/Varoufakis é mesmo regressar ao dracma, proclamando eventualmente as dívidas astronómicas acumuladas como dívidas odiosas, de acordo, aliás, com um documento produzido no parlamento grego e divulgado a semana passada.

Por outro lado, da declaração do presidente do parlamento europeu, Martin Schulz, a Grécia, além de se ter colocado numa posição negocial insustentável, não terá liquidez do BCE na semana que hoje começa e nos tempos mais próximos, pelo que a Grécia entrará numa fase de emergência humanitária aguda.

Statement by Martin SCHULZ, EP President on the situation in Greece following the Referendum

“The ‘no’ side has won the referendum with an overwhelming majority and we have to respect the vote of the Greek people. In full sovereignty they expressed a clear ‘no’ to the proposals on the table in the eurozone. This is a difficult day: there’s a broad majority in Greece and the promise of Prime Minister Tsipras to the Greek people that with the ‘no’ the position of Greece for negotiating a better deal would become better is, in my eyes, not true...

“...We are in a difficult situation, the Greek people said no, but eighty other states of the eurozone agreed about the proposals to which the Greek people said ‘no’. But this is democracy in Greece and democratic governments and parliaments in other countries had another view a different view. It is now up to the Greek government to make proposals which could convince the eighteen other member states of the eurozone and the institutions in Brussels that it is necessary, possible and even effective to renegotiate, but this depends now on the proposals coming from Greece...”

“... But, nevertheless we have to respect the sovereignty and the will that the greek people expressed today in the referendum. The promise of the minister of finance that the banks will open tomorrow and that money will be available for tomorrow and tuesday seems to me very difficult and dangerous. And, therefore, because I believe that the Greek people will be, during the week and even every day in a more difficult situation, I think we should tomorrow, at the latest on Tuesday for the eurozone summit discuss about a humanitarian aid programme for Greece...”

“...Ordinary citizens, pensioners, sick people or children in the kindergarten should not pay a price for the dramatic situation in which the country and the government brought the country now. Therefore a humanitarian programme is needed immediately and I hope that the Greek government will make in the next coming hours meaningful and constructive proposals allowing that it is meaningful and possible te renegotiate. If not, we are entering a very difficult and even dramatic time.”

Link

A Grécia tornou-se um abcesso que é preciso lancetar, sob pena de contaminar toda a União Europeia. Não há alternativa ao Grexit. No entanto (ouvir esta crónica de Max Keiser), a saída da Grécia do euro e a renúncia ao pagamento das suas dívidas ao FMI e à UE poderá desencadear o colapso da própria zona euro, e mesmo da União Europeia. A menos que a tia Merkel esteja disposta a fazer ao Deutsche Bank o mesmo que Bush deixou fazer ao Lehman Brothers...

Atualizado em 6/7/2015 11:23